quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Errar é humano, mas repetir o erro é burrice... ou canalhice


Um sistema injusto que valoriza
o parasitismo e pune o trabalho 
Tomando como parâmetro a lógica referente à natureza e ao histórico da desigualdade econômica contemporânea, podemos dizer que atravessamos um momento difícil, mas de certo modo promissor.

É que parecemos ter chegado ao fim de um ciclo, aquele que começou com Tatcher, na Inglaterra, ainda nos anos 1970, e com Reagan, nos EUA, em 1980. E esse ciclo foi o da radical concentração de riquezas, do butim promovido pela aristocracia, cantado em prosa e verso desde muito tempo e que ganhou nomes como “neoliberalismo” e foi classificado como “Rebelião das Elites” etc. (1). Esse ciclo sucedeu outro, definido como keynesiano, no qual, para sanar os problemas gerados com a voracidade dos mais ricos, o Estado passou a intervir diretamente na economia, numa perspectiva distributivista.

É possível dizer que, na prática, o movimento chamado neoliberal buscou recuperar o suposto poder perdido pelos “super-ricos”, enunciando a retomada de um paraíso perdido, uma sociedade liberalizada na qual tudo funciona bem e cuja localização parece próxima do mundo das ideias de Platão, etérea e inexata como as coisas que somente existem na imaginação.

Esse movimento criou um mecanismo de produção de fluxos financeiros partidos de inúmeros pontos de uma rede para um repositório central, assim como, também, de fluxos subjetivos num sentido oposto, produzindo, assim, sua própria reprodução. Em outros termos, emissores nucleares agenciam a subjetividade de milhões ou bilhões de receptores, num movimento centrífugo, enquanto estes receptores, agenciados subjetivamente, produzem riquezas para aqueles emissores nucleares, em um movimento centrípeto.

"Idade de Ouro" preparou reformulação dos valores e posições sociais
Sempre compreendi que o ciclo que Eric Hobsbawn classificou como “a idade de ouro” do capitalismo foi útil para a salvação do próprio capitalismo, embora tenha se utilizado de técnicas que escapam à essência do capitalismo. Este, tomado pelo vértice liberal, é essencialmente busca pela lucratividade, custe o que custar, como largos, amplos e relativos parâmetros éticos e morais, que permitem liberdade de ação para que o mais forte subjugue o mais fraco, simplesmente porque é mais forte e pretende continuar sendo, custe o que custar.

O keynesianismo, a ideologia da “idade do ouro”, parecia não trabalhar com essa noção essencial, até porque se constituiu contra a perversidade do laissez-faire liberal, que pensa idealmente pelo bem comum e age pragmaticamente pelo bem de poucos e, desse modo, promove a desigualdade, o cinismo e a violência.

A partir do fim do keynesianismo e da inauguração da retomada liberal, o sistema capitalista passaria a ter um poder mais concentrado e muitas novidades no que diz respeito ao fluxo financeiro, que perdeu as peias e passou a seguir em um determinado sentido apenas, dando margem, inclusive, a gente como Francis Fukuyama falar de “fim da história”.

Fim da história é vida sem vida
A noção de “fim da história”, aliás, parece ridiculamente idealista na prática, mas é fundamental para entender como se arquiteta o estado de desesperança que amarra os sujeitos cujo suor e sangue sustentam o sistema. Não há perspectivas, apenas uma continuidade perene e enfadonha, uma plenitude do plano, bem se poderia dizer, mundo sem alternâncias ou alternativas, eminentemente melancólico.

O fim da dinâmica alternada da história lança a multidão num vazio no qual não há contra o que lutar ou a favor do que lutar. Tudo é a mesma coisa, parada no mesmo momento, para um sempre e sempre desalentador. O fim da história, nesse caso, é o anúncio da suspensão da passagem do tempo e de todas as coisas que poderiam acontecer dentro dele.

Trata-se da proposição do fim da esperança e, como se costuma dizer que esta é a última que morre, significa a morte em vida, aquela que Slavoj Zizek identifica em sintomas básicos, como o consumo obsessivo de produtos como a cerveja sem álcool, o café sem cafeína e o cigarro sem nicotina: vida sem vida, sem riscos, diz ele. Ora, se o tempo parou, também parou o risco e, infelizmente, também a vida parou. Vida parada, porém, é como água parada.

Fim de um ciclo, não da história
É o teórico Thomas Piketty que diz que estamos chegando ao final de um ciclo iniciado com a chegada ao poder de Tatcher e Reagan. E Piketty percebe isso no esgotamento do modelo de injustiça e desigualdade, manifesto na insatisfação da sociedade estadunidense, supostamente empolgada com o discurso de um candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos da América, Bernie Sanders, que, segundo o teórico, somente não ganhará porque há uma estrutura solidamente montada para impedir que políticos como ele cheguem à Casa Branca.

Para explicitar sua análise da conjuntura político-econômica contemporânea, Piketty traça uma linha histórica que identifica, dos anos 1930 aos 1970, um movimento político de redução das desigualdades nos EUA, que, com isso, se definiam como diferentes do continente velho, o europeu, essencialmente rígido em suas desigualdades. Cabe lembrar que foi implantada, na época, uma tributação pesada sobre a renda e o patrimônio, que era progressiva e chegava a taxar os mais ricos (quem recebia, como renda anual, mais de um milhão de dólares) em até 91%!

Durante o tempo em que houve essa taxação a economia estadunidense não recuou ou decresceu, muito pelo contrário, ao contrário do que alegavam, e ainda alegam, os apaniguados da elite orgânica das elites financeiras, esse parece ter sido um dos mais importantes fatores para o sucesso econômico do pós-guerra, encerrado pela virada neoliberal. Tudo isso, quem afirma é ainda Piketty.  


O cinismo liberal representado: o Estado deve ficar fora da
economia, mas só nos bons momentos... Nas dificuldades, o
liberal clama pelo poder do Estado para "salvar a economia"
Desigualdades abissais não ajudam muito, a não ser aos parasitas
Outro fator fundamental para o crescimento e o bem estar social foi a instituição de um salário mínimo federal que, antes da “rebelião das elites”, chegou a valer US$ 10, em números do câmbio de hoje. Foi um tempo de prosperidade que, tudo indica, a voracidade de parte das elites financeiras levou ao fim para inaugurar esta “era de desigualdade”, num enredo já anunciado, mas nem sempre percebido como tal.

Desigualdades abissais são contraproducentes para a economia, seja qual for. Apesar disso, é correto dizer que a desigualdade é financeiramente muito produtiva para um pequeno grupo, aquele que consegue estabelecer o fluxo financeiro a seu favor, como fazem os parasitos nocivos em relação ao fluxo vital do organismo parasitado. E, num certo sentido, se é possível dizer que a desigualdade é boa para parasitas, talvez não se possa dizer que é também boa para seres humanos que agem como parasitas.

Erros propositais?
No frigir dos ovos, talvez se deva dizer que as coisas nem sempre são como devem ser e, apesar de toda a sapiência, erros são cometidos em profusão na história. Alguns deles criaram as condições para a “virada neoliberal” e a “servidão” preconizada por Hayek teria fim para a eclosão de outra servidão, desta vez financeira, concentradora de poder e riquezas, além de conseguir inédita capacidade de influenciar subjetivamente multidões de pessoas, que precisam, para isso, ser imbecilizadas.

Se é que foram erros...

Olhando por um lado, deu tudo tão errado que até parece que errar foi o propósito fundamental de tudo isso. Com semelhantes erros, criou-se um sistema fundamentalmente doente que premia a malandragem em detrimento do trabalho, desestimula a solidariedade e empobrece o espírito de quem nele se insere.

Se é correto que estamos no final de um ciclo, esperemos que os erros que serão cometidos não sejam da mesma natureza do que os anteriores. Afinal, errar é humano, mas repetir o erro é burrice, ou, no pior dos casos, canalhice.

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(1) Na verdade, porém, é preciso dizer que antes da Inglaterra e dos EUA entrarem de cabeça no projeto do butim, o Chile, a partir de 1973, foi o balão de ensaio para a aplicação do ideário neoliberal, termo que designa a vertente acadêmica da tal “Rebelião das Elites”. Os chilenos foram algo assim como os pobres ratos de laboratório que mostraram para as elites quais as variáveis que deveriam ser consideradas para a implantação do sistema básico da promoção da injustiça: o tal neoliberalismo. 

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