segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A República de Weimar e nós

Thomas Mann descreveu o clima da Alemanha dos anos vinte. Foi o tempo da República de Weimar, não exatamente o tempo do nazi-fascismo, como li recentemente em um texto aqui, na internet. Foi no livro “A Montanha Mágica”, cuja trama se desenrola em um sanatório suíço. Ele escreveu algo assim:

“Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda. Uma impaciência indizível. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam todos os dias entre indivíduos ou grupos inteiros, e o característico era que aqueles que não tomavam parte nos conflitos, ao invés de se sentirem desgostosos diante da conduta dos respectivos adversários ou de servirem de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão. Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade para berrar. O premente desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os digladiadores, mas que elas próprias caíam, com espantosa facilidade, vítimas da tendência geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornava frequente no Sanatório Berghof”.


Ascensão e queda de Weimar
A República de Weimar durou aproximadamente quatro anos, nasceu em 1919 e acabou em 1933, com a ascensão do Nazismo. O nome “Weimar” (alguns dizem Veimar) se refere à cidade na qual se estabeleceu, naquele momento, a Assembleia Nacional Constituinte da República. Segundo consta, tratava-se de uma belíssima cidade e Goethe escreveu que "Weimar não é uma cidade com um parque, mas um parque com uma cidade".

Aquele foi um tempo conturbado. Havia muita agitação na Alemanha, para o bem e para o mal. 


A República de Weimar foi tempo de muitos confrontos políticos.
Porém, tudo voltou à "normalidade" com o autoritarismo nazista
Por um lado, como consta adequadamente no romance “Two Brothers”, de Ben Elton, houve muita euforia para a diversão e, como sugere um personagem do livro, nunca se dançou tanto, nunca se bebeu tanto, nunca se ouviu tanto jazz. Havia convulsões frequentes, o que parece ruim, mas nem tanto, pois a instabilidade incentiva a criatividade e lança as pessoas à luta, ao convívio, seja lá de que forma se dê esse convívio.

Porém, economicamente, foi uma época de absoluta instabilidade e mesmo de terror para muitos alemães. A hiperinflação consumia o dinheiro com rapidez impressionante. Havia casos em que, para fazer compras simples em uma quitanda, o alemão tinha que carregar o dinheiro em um carrinho de mão, tamanha a quantidade de notas e moedas necessárias para adquirir alimento ou qualquer outro produto de qualquer utilidade. Até para pegar um ônibus se usava um bom volume de dinheiro. Veja que, no início de 1922, um dólar valia mil marcos e, em setembro de 1923, chegou a 350 milhões de marcos. 

A era que se seguiu, a do nazismo, na década de 1930, foi muito mais ordenada. Houvesse ainda agitações, como havia, eram ações mais voltadas ao estabelecimento da ordem, no caso a ordem autoritária do fascismo. A violência da República de Weimar era fruto de conflitos que se diriam como parte de uma conjuntura de disputas pelo poder, a do tempo nazista era a da imposição do poder de um grupo, que havia conseguido se alçar ao poder, com Adolf Hitler, e havia conseguido recuperar consideravelmente a economia, debelando a hiperinflação.

Cabe lembrar que, quando da eclosão da República de Weimar, a Alemanha estava sob o jugo do Tratado de Versalhes, assinado em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial, no qual, ao assumir a responsabilidade pelo conflito, comprometia-se a cumprir uma série de exigências políticas, econômicas e militares impostas por Inglaterra e França. Entre essas imposições, estava a devolução de diversos territórios a países vizinhos e o pagamento de quase 300 bilhões de marcos como indenização pelos prejuízos da guerra, além da redução do poderio do exército. Essa situação foi, em boa parte, responsável pelas agitações do período.

Outro fator, extremamente importante, que talvez tenha exterminado definitivamente Weimar, foi o colapso da bolsa de Nova York e consequente crise econômica mundial que começou em 1929 e se arrastou pela década seguinte.


Lula e seu partido, o PT, se perderam
e poderão ser responsabilizados pela
ascensão de uma direita inescrupulosa
Chocando o ovo da serpente?
Há muita gente usando a representação de Weimar, marcada no filme “O ovo da serpente”, de Ingmar Bergman, de 1977, querendo dizer que estamos, no Brasil de hoje, em uma conjuntura semelhante. Pode ser, se aceitarmos que, tanto em Weimar, no passado, quanto neste nosso país, agora, houve uma experiência democrática e orientada pelo que usualmente chamados de correntes de esquerda. Questionemos ou não a efetiva “esquerdice” desse pessoal que esteve no governo brasileiros na última década e meia, há semelhanças ou analogias e há, também, na perspectiva do futuro, algo parecido no que se poderia chamar de “direita” ou, conforme querem alguns, “nova direita” chegando com força.

Noan Chomski, que tem mantido um discurso coerente de simpatia pelos movimentos “de esquerda”, no sentido de que, segundo sua perspectiva, representaram avanços, principalmente na América do Sul, mas, como no Brasil e na Venezuela, acabaram reforçando a direita. No caso do Brasil, por conta da estratégia de corrupção que foi adotada por alguns importantes membros do governo e, é claro, pela ausência de estratégias de emancipação política da população, que foi apenas incentivada a se transformar em consumidora e devedora. Segundo o linguista estadunidense, a direita foi quem mais ganhou nesse tempo, pois pode chegar ao poder e ficar, forte, por muitos anos. No caso da Venezuela, a referência negativa maior é a do autoritarismo e, também, do péssimo planejamento econômico que fez o país quedar refém dos preços do petróleo.

O mais terrível é que, segundo texto de Raúl Zibechi, recentemente publicado no portal Outras Palavras, a característica dessa tal “nova direita” é o fundamentalismo e, assim, o autoritarismo, a ausência de escrúpulos para determinar que os fins sempre justificam os meios. Isso significa dizer que, para esse pessoal, não há limites ou restrições éticas ou morais para se conseguir o que se deseja.

É assustador, mas cabe pensar que o pessoal da esquerda não deu bons exemplos aos quais possamos nos agarrar. Leia, abaixo, texto de Nelson Motta sobre o papelão de Lula, que não precisaria ter se envolvido em tantas malandragens para ter uma cobertura ou um sítio, caso quisesse seguir um caminho ético e moral. Mas, não: o espírito grotesco do “eu vou me dar bem” e a pequenez da alma pequeno-burguesa presente no usual “novo rico”, puseram tudo a perder e têm ajudado a chocar o ovo da serpente.


O triplex mais que suspeito de Lula é o ícone das imbecilidades
que o nouveau richisme leva tolos a cometer. Ele não precisava
disso, mas tinha que provar que é mais esperto que todos... 
A malandragem dos que tomaram o poder para melhorar de vida
Nelson Motta conseguiu falar muito bem do espírito jeca do "gosto de levar vantagem em tudo" dos novos ricos petistas. Leia e tire suas conclusões.

Quando o barato sai caro
Fev 19, 2016 | Nelson Motta, o autor, é jornalista, escritor, compositor, escritor, roteirista e produtor musical

Além de oito anos de salários de presidente e despesas zero, Lula ganhou R$ 27 milhões fazendo palestras no exterior, tudo com nota fiscal, declarado à Receita Federal e com impostos pagos. Teria todo o direito de comprar o tríplex ou o sítio que quisesse, sem dar satisfações a ninguém.

Ainda que as palestras não fossem compradas por interessados internacionais, mas pagas por empresas brasileiras que queriam fazer bons negócios e resolver problemas complicados com governos locais, seria, digamos, apenas lobby. Mas isto ainda está sob investigação e, até prova em contrário, os milhões de Lula são tão limpos como os de Bill Clinton.

Com uns sete ou oito milhõezinhos, ele poderia comprar uma boa cobertura, não um muquifo na cafona Guarujá, mas em Ipanema, e um belo sítio em Campos do Jordão. Sobrariam-lhe uns 20 milhões, e ele não teria que enfrentar o calvário imobiliário que o humilha publicamente, desmoraliza sua liderança e ridiculariza o seu maior patrimônio: a “alma viva mais honesta do país”.

Mas, sabe-se lá por que, já que burro não é, Lula preferiu fazer tudo escondido, para se aproveitar de vantagens oferecidas por “amigos” e empresários com interesses no governo, enrolar-se numa mentira atrás da outra, tudo para não gastar uma pequena parte do seu patrimônio.

Seus 20 milhões, se investidos por Henrique Meirelles (por Mantega ou Dilma jamais!), lhe renderiam uns R$ 250 mil por mês, além de suas gordas aposentadorias e bolsa-ditadura, sem contar com futuras palestras, que, agora, ninguém quer de graça. Poderia viver como a mais luxuosa e odiosa elite brasileira. Ou como um craque de futebol.

Claro, viver de renda no luxo ia pegar meio mal para a militância do PT, mas logo tudo seria visto como o heroico triunfo de um torneiro mecânico sobre a burguesia.

Não consigo entender como um cara tão inteligente colocou em risco sua reputação e sua carreira por tão pouco, talvez por arrogância e soberba, ou malandragem barata, em jogadas ilegais e perigosas, ou tudo isso para não gastar o que — diante de seu patrimônio pessoal — seria coisa de pobre. Um barato que está lhe custando caríssimo.

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