segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Classe Média Global consome aquilo que não alimenta o corpo nem o espírito


A Classe Média é, na verdade, uma multidão de consumidores,
anônimos até para si mesmos: as famigeradas"pessoas-massa"
A primeira coisa a ser considerada para se entender a contemporaneidade é que há uma força econômica levando à formação de uma nova classe social com alcance planetário, genericamente chamada de “Classe Média Global”, ou apenas “Classe Média”. Talvez não se possa precisar exatamente quando isso começou, quando essa força começou a agir, mas, com certeza, o final do século XX e o início do XXI trouxeram uma redução da pobreza global e maior acesso a essa tal classe média. 

Tudo indica que no primeiro ano do novo século algo em torno de 30% da população mundial podia ser classificada como “pobre”, enquanto, vencida a primeira década, esse número caiu para 15%, ou seja, teve uma redução considerável de 50%. Houve, assim, a ascensão econômica de milhões de pessoas que estavam fora do mercado porque não tinham renda nem crédito e passaram a ter. No entanto, segundo um estudo realizado pelo Pew Research Center (1), mais da metade da população mundial ainda vive com rendas abaixo da média. Mais precisamente, 56% vivem com menos de US$ 10 diários, ou seja, com renda inferior a R$ 1200,00, tomando como parâmetro a moeda brasileira (2). 


Ascensão para consunção
A “Classe Média Global” é a espinha dorsal do sistema capitalista contemporâneo. Em uma lógica que se funda na circulação econômica de valores e que depende disso para seu sustento, quanto mais pessoas fizerem parte dessa “camada média”, melhor. Afinal, tendo mínima segurança econômica e, desse modo, estando em condições de não apenas sobreviver, mas também e principalmente, consumir, no sentido mais preciso do termo no âmbito econômico, essas pessoas ajudam, num plano macroeconômico, a manter o sistema funcionando. Cabe lembrar que, segundo o Pew Research Center, na primeira década do século, aproximadamente 21,3 milhões de pessoas ascenderam ao nível da renda média (3). 

Há quem diga que a expectativa dos grandes capitalistas é a de que se eleve sensivelmente o grupo de renda média e que essa diminuta classe dominante tem trabalhado para conseguir esse objetivo, que lhe garantiria mais segurança e vantagens, além das que já possui. Em estudo de alguns anos atrás, a Goldman Sachs, instituição financeira de peso na economia global, dizia que até 2030 haveria quase 4 bilhões de pessoas na tal “classe média”. Desse total, algo em torno de 85% está nos países “de segunda linha”, os que eram chamados há algum tempo de “em desenvolvimento” ou “emergentes”. 


O consumo de guloseimas é o padrão para o cidadão mediano:
o sabor é o que importa nesses alimentos que não alimentam
Na prática, essa ascensão social serve mesmo para a consunção (ou consumpção), ou seja, para a consumição, palavra que pode ter o significado de gastar até nada ter ou de definhamento do organismo. A classe média se define, aliás, pelos atos obsessivos (ou quase) de consumo. 

A classe definida pelo consumo
Consumir é, economicamente falando, usar uma parcela de capital para adquirir algo e, assim, ajudar a fazer movimentar a economia. Em tese, a quantidade de consumo determina a quantidade de renda, pois a circulação virtuosa de dinheiro gera, primordialmente, empregos e, consequentemente, mais renda. Desse modo, a lógica definida como “consumista”, tem espaço para incentivar mais e mais compras, gerando mais e mais empregos e ajudando a elevar a renda pela ação do binômio necessidade/consumo que gera o progresso econômico pela circulação virtuosa citada. 

No caso do “consumismo”, no entanto, pode-se definir essa circulação, no âmbito subjetivo individual, como “viciosa”, já que gera-se a necessidade da compra amparada na fantasia de satisfação de um desejo. O problema está no fato de que, quando realizado, o desejo de consumo perde seu efeito de geração de satisfação e plenitude em bem pouco tempo. Simplesmente, isso se explica pelo fato de que a carga emocional posta sobre um determinado objeto, do qual explicitamente necessitamos para satisfação de algum desejo ou necessidade suposta, tem validade limitada pela emoção da novidade. Passado o estágio de satisfação, ocorre algo semelhante ao que acontece no caso da alimentação com fast food: satisfaz-se o desejo de incorporar um sabor, mais que um alimento, mas deixa-se a brecha para, em breve tempo, se volte a sentir fome, pois a fast food definitivamente não alimenta, e a ideia é novamente vincular essa satisfação ao consumo de um produto com sabor definido para ser atraente. Repete-se a dose da busca de mais alimentos meramente saborosos (embora o caráter de bom sabor possa, no caso, ser questionado e se possa falar mais em um sabor específico que seduz) e repete-se a satisfação repentina e breve que leva a nova busca pelo mais do mesmo, o que ocorre novamente e novamente e novamente. Como esse circuito vicioso é insalubre, gera também outras necessidades, como as de busca de produtos de emagrecimento e dietéticos, bem como as inevitáveis consultas médicas e de apoio psicológico etc. 

Consumir, sob esse ponto de vista, não é simplesmente comprar, mas comprar de uma determinada maneira, com uma determinada lógica e com bastante frequência. Essa alta frequência de compras baseadas na lógica do consumismo é importantíssima para manter o sistema funcionando, porém deve ser necessariamente caracterizada como doentia e patológica. Gera um empobrecimento subjetivo e inúmeros males físicos. 

O mundo do consumo não é, desse modo, apanágio da burguesia, ou seja, não são os proprietários de riquezas, do capital ou dos meios de produção os atingidos pelo consumismo. A burguesia é a beneficiária da lógica consumista, não a classe que pratica o consumo. Talvez seja mais adequado falar em “pequena-burguesia”. Está nessa camada social o grande grupo de “pessoas-massa”, preponderantemente os consumidores padrão. 

Titbit: alimento que não alimenta nem o corpo nem o espírito
No plano da Imprensa de massa (que é a grande máquina de produção de “pessoas-massa” e consumidores), é próxima a relação entre alimentação concreta e alimentação subjetiva, ou seja, entre o alimento real e efetivo que se come para o corpo e o alimento que produz o amálgama ficcional que formula a identidade específica da “pessoa-massa” e do consumidor. 

O chamado “titbit” (4) é, ao mesmo tempo, a comida feita não exatamente para alimentar, mas para deleite de sabor, assim como uma notícia curta para consumo rápido e superficial. Titbit é o biscoito salgadinho, os diversos tipos de fast food, bem como todos os alimentos processados e ultraprocessados, e a notícia jornalística na qual as informações seduzem pelo sabor, ou seja, pelo sensacional presente nela. 

O alimento titbit não alimenta o corpo e a informação titbit também não alimenta o espírito. Perceba que há uma relação bastante próxima entre os significados no plano da rápida obsolescência: a informação passa rapidamente a nada valer depois de fornecida, assim como o alimento o consumido ontem passa também a nada valer. Consumir é matar a fome e estar permanentemente faminto, ou, em outros termos, matar a fome para torná-la mais faminta. 

Não à toa a “Classe Média” é compreendida como a classe medíocre, isto é, a dos indivíduos que seguem a linha média em praticamente tudo, vivendo sem qualidades ou criatividade, sem destaques e com um mórbido temor da solidão. 

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Notas
(1) Organização sem fins lucrativos, do tipo think tank que produz e difunde conhecimentos estratégicos para que o maior número de pessoas possam ter acesso a informações, no todo ou em parte, sobre assuntos diversos relacionados a temas econômicos, políticos e sociais. Sua sede fica em Washington DC e recebe financiamento do Pew Charitable Trusts.

(2) O estudo considerou a renda diária per capita e a classificou como “pobre” (até US$ 2), “baixa renda” (US$ 2 a US$ 10), “renda média” (US$ 10 a US$ 20), “renda média alta” (US$ 20 a US$ 50) e “alta renda” (acima de US$ 50). Observe que na “alta renda” a soma do valor per capita diário começa a partir dos R$ 6000,00 mensais, a “renda média alta” parte de aproximados R$ 2400,00 mensais, a “renda média” tem seu teto no valor de R$ 1200,00, a “baixa renda” é parametrada, por baixo, em R$ 240,00 e, abaixo disso, está a população classificada como “pobre”. O limite dos R$ 10 diários marcaria a renda que possibilita segurança econômica mínima. 

(3) O governo brasileiro diz ter “tirado da miséria” mais de 34 milhões de pessoas, número aparentemente “chutado” para cima. Isso acontece com bastante frequência nos meios políticos. O próprio ex-presidente Lula, um dos que se vangloria de ter levado esses milhões de brasileiros à “classe média”, certa vez declarou em entrevista que usualmente “chutava” números astronômicos para impressionar o público durante um discurso. 

(4) "Titbit" ou "tidbit" é termo que pode ser traduzido fundamentalmente em dois campos: o da nutrição e o da comunicação. No primeiro, é um pequeno e saboroso tasco de alimento, uma guloseima; no segundo, uma nota ou notícia sobre algo atraente, como um escândalo qualquer, uma matéria sensacionalista. Em ambos os significados, o realce fica por conta da sensação, do sabor ou da emoção experimentada. O alimento titbit não é feito para alimentar e a notícia titibit não é feita para pensar. 

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