sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

2016 parece trazer um quadro negro, então precisamos desenhar e/ou escrever algo nele


Março de 1983: milhares de desempregados sacodem São Paulo
e derrubam as grades do Palácio dos Bandeirantes em meio à
recessão que antecedeu fim da ditadura militar (imagem do
texto de Boulos no interessante portal "Outras Palavras")
Estou ficando fã do articulista Guilherme Boulos, é certo. Tenho acesso a seus textos através do portal Outras Palavras, que costuma publicar algumas coisas boas nascidas no lado esquerdo do pensamento político. 

No texto de Boulos que li, agora há pouco, o bom analista político traça, rapidamente, um rico mapa da conjuntura brasileira. Nele, estão dispostos os territórios bombásticos da política, que devem se manter, segundo Boulos, bastante semelhantes a como foram em 2015. Na twilight zone do mundo político/midiático, vai se manter no ar a novela do impeachment e, infelizmente, continua a série dispensável na qual Cunha exibe nacionalmente sua falta de escrúpulos em criar expedientes para salvar a própria pele. É de mau gosto, mas, afinal, trata-se de legítima defesa. Há quem diga que no horizonte do presidente da Câmara o sol poderá, em breve, nascer quadrado.


Sem opções
Boulos aponta para a ferida aberta, quase pornográfica, que assola a gestão da inábil presidenta da República. Ela insiste em falar para os movimentos populares, tenta o tempo todo deixar claro que tem o apoio da população e chegou a mentir descaradamente na campanha de 2014, enganando quem votou nela esperando o cumprimento de promessas distributivas e populares. De lá para cá, noventa por cento do que o governo fez atingiu frontalmente a maioria da população. E Boulos não fala dos ventiladores que insistem em espalhar a bosta que vem dos tribunais sobre o governo e seu partido. A corrupção, é fato, fede e está asfixiando quem se atreve a defender o governo, que tem credibilidade próxima de zero. 

Mais grave: na oposição, não parece haver nada muito melhor. O que, cá para nós, abre espaço para a possibilidade de surpresas nas urnas, em 2018. Parece haver estrada livre para uma possível “terceira via” apoiada pelo PMDB. 


Assim como na Ditadura Militar, nos idos dos anos 1960/1970,
um Milagre Brasileiro levou a Classe Média ao paraíso, somente
para, em seguida, atirá-la no cruel inferno do endividamento...
É a obra da direita de chinelas, a UDN de tamancas, diria Brizola.
Lá vem o Brasil, descendo a ladeira
O articulista lembra que o banco Credit Suisse afirmou, em relatório, que a nossa recessão já é histórica, a maior de todos os tempos no país. Comparável, talvez, tenha sido a decorrente da crise de 1929. E o PIB (Produto Interno Bruto, o conjunto de tudo o que o país produziu) que já caiu assustadores 4% em 2015, vai ao fundo do poço. Para 2016, piora, com outra queda, que pode ser mais radical ainda. Em 2017, quem sabe, cai um pouco menos. A previsão é a de que a coisa se equilibre aí por 2018, pero no mucho. 

No mundo real, o desemprego segue ladeira acima, não apenas nas estatísticas. Pode ser visto, percebido, sentido, nas ruas. O comércio sente o golpe, imóveis são desalugados, serviços e empregos não mais são ofertados, não há circulação de mercadorias ou de dinheiro. Quem tem algum capital o mantém no mercado financeiro, o que é trágico para a movimentação econômica. Cai esta, cai tudo, inclusive os investimentos do governo. Quem paga, paga mais por menos e quem não tem como pagar sofre os efeitos na saúde, em primeiro lugar, notadamente por conta dos serviços públicos que passam a ter cortes e funcionam deficitariamente. 

Fim dos tempos
De certo modo, entendo eu, é a trombeta que marca o fim (ou apenas um intervalo, na melhor das hipóteses), de mais um “Milagre Brasileiro”. Não é de hoje que digo que as semelhanças entre a Arena, o partido da Ditadura Militar, e o PT são gritantes. Nos velhos tempos, tínhamos a direitona explícita, aquela com os dentes rilhando, uniforme verde oliva e o escambau. Hoje, temos a direita de chinelas, parafraseando Leonel Brizola, que classificava o PT como “a UDN de tamancas”, ou seja, a direitona com macacão de operário. A ditadura produziu o primeiro milagre, nas décadas de 1960/1970, e todo mundo, no Brasil, poderia ganhar o seu Fuscão no Juízo Final, como cantava Gonzaguinha. O PT estrela o segundo, agora, neste momento, e a nova classe média mergulha no caos das dívidas por conta de uma inclusão feita às pressas e com a fragilidade característica do que é feito sobre o endividamento e o consumo. 

Assim, se fecha um circuito macabro: o trabalhador volta ao SUS e à escola pública e o faz exatamente no momento em que os investimentos estatais minguam. Em parte, o caos que assola, mais uma vez, a Educação e a Saúde Pública é causado por esse movimento. 

E a depressão cresce e cresce. 


Há quem jure que o governo esperava reeditar
1970, com a vitória na Copa, seleção jogando
em casa e favorita... Só faltou avisar os alemães. 
De país do futuro a país sem futuro
Boulos espera “fortes mobilizações populares”. Não daquelas, parece ficar claro, que andaram frequentes em 2015, que pediam a derrubada do governo e até mesmo golpes militares, veja só. Ele diz que os trabalhadores, os sem teto, sem terras e outros podem sacodir os governos. Pelo visto em 2013 e nos anos que se seguiram, isso pode e mesmo deve acontecer. Assim, temos à vista muitos confrontos entre manifestantes e as guardas pretorianas, formadas por policiais militares que compõem uma tropa de dominação colonial com data de validade vencida. 

E o futuro daquele que já foi considerado o “país do futuro” continua sem muita luz no fim do túnel. A ponto de, neste momento, o herói nacional estar lotado em Curitiba, como juiz federal, e ter sobre os ombros o peso de dar respostas adequadas à sociedade, desbaratar, julgar e punir os integrantes de apenas uma das quadrilhas que já tomou de assalto o Estado brasileiro. 

Porém, como bem Boulos sugeriu, em outro texto, trata-se de uma das quadrilhas, apenas uma. 

No frigir dos ovos, porém, é preciso ter alguma esperança, pois se há um quadro negro, bem se pode conseguir algum giz para nele desenhar ou escrever algo. 

Então, mãos à obra!!!

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Boulos é membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e escreveu alguns livros. 

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