segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A República de Weimar e nós

Thomas Mann descreveu o clima da Alemanha dos anos vinte. Foi o tempo da República de Weimar, não exatamente o tempo do nazi-fascismo, como li recentemente em um texto aqui, na internet. Foi no livro “A Montanha Mágica”, cuja trama se desenrola em um sanatório suíço. Ele escreveu algo assim:

“Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda. Uma impaciência indizível. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam todos os dias entre indivíduos ou grupos inteiros, e o característico era que aqueles que não tomavam parte nos conflitos, ao invés de se sentirem desgostosos diante da conduta dos respectivos adversários ou de servirem de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão. Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade para berrar. O premente desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os digladiadores, mas que elas próprias caíam, com espantosa facilidade, vítimas da tendência geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornava frequente no Sanatório Berghof”.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O mundo é dos imbecis e não adianta chiar


O personagem Homer
Simpson é o ícone dos
idiotas de todo o mundo 
O grande acontecimento do século [XX] foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota
Nelson Rodrigues

Pois é e o recém falecido Umberto Eco dizia que a internet, com suas redes sociais, dá direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes diziam o que queriam apenas nos bares, depois de bebericar alguma coisa, sem levar prejuízos a mais ninguém a não ser a si próprios e a seus infelizes interlocutores. 

Eco disse o seguinte: 
"Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel". 
E disse ainda mais. Segundo o intelectual italiano, o idiota já tinha sido alçado a um patamar inusitado pela televisão e, com a internet, promoveu-o a portador da verdade.

Há quem afirme que Eco era arrogante e que ao falar isso comprovava essa tese. Talvez sim, talvez não. Quem sabe? Afinal, costumo crer que o único ser que tem sempre razão, haja o que houver, é o imbecil. Os outros usualmente não a têm, quase nunca. Os sábios não costumam ter razão ou, se a têm, ninguém sabe, pois sábios costumam ficar calados.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quem leva o mérito pela queda de homicídios em SP? O governo ou o PCC?


Segundo o pesquisador Graham Willis, canadense que leciona
na Universidade de Cambridge, Inglaterra, o PCC é o principal
responsável pela notável queda de homicídios em São Paulo... 
Os homicídios caíram bastante em São Paulo na última década. O governo bate no peito e puxa para si os méritos. O governador fala nos policiais mortos, “heróis anônimos” etc. Aí, vem um pesquisador canadense, logo, aparentemente, sem vínculos de interesse político-partidário, que diz que o governo e a polícia não têm nada a ver com isso. Segundo ele, cujo nome é Graham Willis, a queda é resultado da regulação realizada pelo Primeiro Comando da Capital, o PCC, uma organização que congrega criminosos e nasceu, assim como o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, para combater os maus tratos nas cadeias. 

O que é, afinal, essa tal saúde? (4)


Cidades superlotadas com comércio intenso, esgotos a
céu aberto, crendices em excesso e pouca higiene: o
ambiente urbano na Idade Média era muito insalubre
Capítulo 4: A Idade Média, seus fantasmas e insalubridades

Se é possível definir de forma rápida o que foi assistência à saúde na Idade Média (476 d.C./1453) deve-se dizer que foi uma combinação do que foi lido nos textos médicos greco-romanos (1), como os de Galeno, e de crenças espirituais, Astrologia e curandeirismo por rezas e/ou plantas. Como se sabe, o ambiente medieval era recheado de todo o tipo de crenças e pautado pelo fundamentalismo religioso que, inclusive, podia levar pessoas a ser cruelmente torturadas e queimadas vivas.
Naquele tempo, compreendia-se que o adoecimento ocorria por fatores físicos, mas principalmente por questões relacionadas ao espírito, incluindo a feitiçaria, encantamentos, castigos por pecados cometidos e, é claro, a vontade de Deus, sempre presente a determinar o destino de cada humano

O que é, afinal, essa tal “saúde”? (3)


A serpente que morde a cauda, representa a imortalidade.
A metáfora é atribuída a Esculápio, mitológico Deus da Medicina
 
Capítulo 3: A Medicina na Roma Antiga

Os romanos aproveitaram muito dos conhecimentos gregos em tudo, inclusive na Medicina. Roma, o grande Império da Antiguidade, se fundou basicamente na cultura da Grécia, embora tenha desenvolvido saberes e práticas culturais com identidade própria, como ocorreu na terapêutica baseada em ervas, orações e cantos que caracterizava os primeiros socorros no seio das famílias romanas. Já no que diz respeito à Medicina Militar, essa influência parece ter sido marcante.
Os romanos continuaram a tradição médica grega de dar mais atenção a fatores naturais em detrimento de fatores espirituais, embora mantivessem, assim como os gregos, crenças e práticas diretamente vinculadas à espiritualidade e, é claro, a medicina não estivesse livre de influências como essa

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Errar é humano, mas repetir o erro é burrice... ou canalhice


Um sistema injusto que valoriza
o parasitismo e pune o trabalho 
Tomando como parâmetro a lógica referente à natureza e ao histórico da desigualdade econômica contemporânea, podemos dizer que atravessamos um momento difícil, mas de certo modo promissor.

É que parecemos ter chegado ao fim de um ciclo, aquele que começou com Tatcher, na Inglaterra, ainda nos anos 1970, e com Reagan, nos EUA, em 1980. E esse ciclo foi o da radical concentração de riquezas, do butim promovido pela aristocracia, cantado em prosa e verso desde muito tempo e que ganhou nomes como “neoliberalismo” e foi classificado como “Rebelião das Elites” etc. (1). Esse ciclo sucedeu outro, definido como keynesiano, no qual, para sanar os problemas gerados com a voracidade dos mais ricos, o Estado passou a intervir diretamente na economia, numa perspectiva distributivista.

É possível dizer que, na prática, o movimento chamado neoliberal buscou recuperar o suposto poder perdido pelos “super-ricos”, enunciando a retomada de um paraíso perdido, uma sociedade liberalizada na qual tudo funciona bem e cuja localização parece próxima do mundo das ideias de Platão, etérea e inexata como as coisas que somente existem na imaginação.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Classe Média Global consome aquilo que não alimenta o corpo nem o espírito


A Classe Média é, na verdade, uma multidão de consumidores,
anônimos até para si mesmos: as famigeradas"pessoas-massa"
A primeira coisa a ser considerada para se entender a contemporaneidade é que há uma força econômica levando à formação de uma nova classe social com alcance planetário, genericamente chamada de “Classe Média Global”, ou apenas “Classe Média”. Talvez não se possa precisar exatamente quando isso começou, quando essa força começou a agir, mas, com certeza, o final do século XX e o início do XXI trouxeram uma redução da pobreza global e maior acesso a essa tal classe média. 

Tudo indica que no primeiro ano do novo século algo em torno de 30% da população mundial podia ser classificada como “pobre”, enquanto, vencida a primeira década, esse número caiu para 15%, ou seja, teve uma redução considerável de 50%. Houve, assim, a ascensão econômica de milhões de pessoas que estavam fora do mercado porque não tinham renda nem crédito e passaram a ter. No entanto, segundo um estudo realizado pelo Pew Research Center (1), mais da metade da população mundial ainda vive com rendas abaixo da média. Mais precisamente, 56% vivem com menos de US$ 10 diários, ou seja, com renda inferior a R$ 1200,00, tomando como parâmetro a moeda brasileira (2). 

O que é, afinal, essa tal “saúde”? (Parte 2)


Hipócrates, o "Pai da Medicina",
compreendia a saúde como um
estado de harmonia do corpo
com o ambiente que o circunda
Capítulo 2: a Medicina Grega

Na publicação anterior, vimos como era a Medicina Egípcia na Antiguidade. O Egito foi uma civilização muito avançada surgida em torno de 3150 a. C. e que perdurou por três milênios. Seus avanços técnicos, tecnológicos e em conhecimentos, como os matemáticos e também os fisiológicos, foram vastos e há um registro fundamental, o Papiro de Ebers (1552 a. C.), que contém mais de 700 fórmulas para tratamentos terapêuticos diversos, inclusive para livrar residências de pragas. 

Os conhecimentos desse povo antigo em relação ao sistema circulatório, com a plena ciência da existência de vasos sanguíneos em todo o corpo e definindo o coração como o centro da circulação do sangue, são bastante avançados e a psiquiatria tem espaço na descrição de um mal bem parecido com o que hoje chamamos "depressão". Os egípcios também foram longe na arte do embalsamamento e compreendiam fundamentalmente que os agentes patogênicos estariam no ambiente e atacariam o corpo, que nasceria, em tese, são e livre de males. 


No Mundo Antigo, particularmente na Grécia, havia a noção de que o equilíbrio é fundamental em tudo, inclusive na saúde e doença
Agora, que tal falar de outros povos antigos, que demonstraram bastante sapiência no que diz respeito aos cuidados com a saúde? Falemos, então, da Medicina na Antiga Grécia. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

2016 parece trazer um quadro negro, então precisamos desenhar e/ou escrever algo nele


Março de 1983: milhares de desempregados sacodem São Paulo
e derrubam as grades do Palácio dos Bandeirantes em meio à
recessão que antecedeu fim da ditadura militar (imagem do
texto de Boulos no interessante portal "Outras Palavras")
Estou ficando fã do articulista Guilherme Boulos, é certo. Tenho acesso a seus textos através do portal Outras Palavras, que costuma publicar algumas coisas boas nascidas no lado esquerdo do pensamento político. 

No texto de Boulos que li, agora há pouco, o bom analista político traça, rapidamente, um rico mapa da conjuntura brasileira. Nele, estão dispostos os territórios bombásticos da política, que devem se manter, segundo Boulos, bastante semelhantes a como foram em 2015. Na twilight zone do mundo político/midiático, vai se manter no ar a novela do impeachment e, infelizmente, continua a série dispensável na qual Cunha exibe nacionalmente sua falta de escrúpulos em criar expedientes para salvar a própria pele. É de mau gosto, mas, afinal, trata-se de legítima defesa. Há quem diga que no horizonte do presidente da Câmara o sol poderá, em breve, nascer quadrado.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Muito além de más escolhas estratégicas


Lula & FHC: mórbida semelhança
Tomo a liberdade de recomendar a leitura do texto "Pau que bate em Luiz bate em Fernando?", de Guilherme Boulos, publicado no dia 04/02/2016 no portal Outras Palavras

O texto é interessante e concernente, em parte. Chama a atenção para a ausência de investigações acerca da atual oposição. Os tempos tucanos, apesar de já terem sido denunciados suficientemente em suas mazelas, como no livro da Privataria Tucana, que, cá entre nós, não recebeu repostas convincentes do time atacado que, aliás, parece não ter se preocupado muito em se defender. Como sugere o articulista, a impressão é a de que realmente os políticos da oposição, principalmente os tucanos, segundo se diz, não receberam e não parecem tender a receber a mesma malícia que os da situação, como o ex-presidente Lula, têm que enfrentar. Isso parece verdadeiro. 

No entanto, é preciso ponderar algo mais. E o articulista o faz, a seu modo, criticando as “escolhas estratégicas” de Lula. Sim, as escolhas citadas merecem críticas ferozes, pois real e indubitavelmente, Lula e o PT não estão fazendo mais do que colher o que plantaram, conforme reconhece Boulos.