quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sujeito contemporâneo inova e é o primeiro escravo que defende com unhas e dentes sua condição de liberdade e autonomia


Uma imagem antiga mostra um escravo apanhando de seu algoz
com um relho. Moda ultrapassada. Hoje não há mais essa baixaria,
a não ser em casos específicos, e a escravidão tem outro visual
É importante saber quem manda. Sim, porque quem dá ordens, pode, se quiser, intervir diretamente na realidade. E dentro dessa realidade está você, não esqueça.

A condição de “mandão” é exercida por uma pessoa ou grupo, mas mesmo em um grupo que manda há pessoas que mandam mais do que outras. Por isso, é preciso ter em mente que o status de dar ordens é escalonado em níveis: há os que dão ordens a todos, há os que dão ordens a muitos, há os que dão ordens a poucos e há os que dão poucas ordens a muito poucos.

Não existem os que não dão ordens. Quem sabe, talvez no interior mais isolado do Tibete, nos confins da selva amazônica, no pico de alguma montanha, em algum mosteiro ou eremitério, sabe-se lá, exista alguém assim. Mas é praticamente impossível pensar que exista quem não dê ordens. Dar ordens é algo profundo na condição humana, assim como obedecer.

Ordens que não parecem ordens
Para saber dar ordens é preciso saber, antes, obedecer, dizem. Mas, proponho aqui, existem ordens que são obedecidas de bom grado e existem aquelas nas quais isso é feito de forma contrariada e contrafeita. E há, é claro, as que são desobedecidas, com todas as consequências que isso pode ter.


Sim, o escravo mudou, evoluiu, e se tornou
cidadão, consumidor, eleitor, executivo, pai
de família, doutor, político, ladrão, artista,
intelectual ou servidor público. Sempre se
posicionando coerentemente em defesa de
sua condição de submissão por firme e
decidida livre opção. Isso é pioneirismo.

E as mulheres também progrediram:
deixaram de ser restritamente submissas
no lar e passaram a ter os mesmos direitos
de se submeter a patrões e autoridades
diversas, onde quiserem e bem entenderem. 
Mas, e esse é o objeto deste pequeno texto, há as ordens que obedecemos sem pensar, sem sequer saber que são ordens. Há as que confundimos mesmo como desejos pessoais e profundos, da mesma forma, e essas são as que melhor são obedecidas, pois nos parecem como decisões autônomas e soberanas tomadas por nós.

É dessas ordens que tomamos como nossas, mas que não são nossas e que nos governam as ações, pensamentos e paixões, que estamos falando a partir daqui.

Aprendendo a dar ordens
É claro que o primeiro passo para dar ordens é fazer isso consigo mesmo. No entanto, apesar de aparentemente essa ser uma tarefa fácil, tudo indica que não é. Ela é básica, que fique isso claro, mas não fácil ou tranquila como se imagina.

No início, dar ordens a si mesmo parece algo natural. Está, provavelmente, entre os atos mais humanos, mais definidores do que é, afinal, ser humano. Tanto é assim que ensinar a dar ordens a si próprio é tarefa fundamental, ensinada já desde a primeira infância pelos responsáveis pela criação de um novo ser humano, sejam os pais ou os primeiros professores. Eles devem, essencialmente, cuidar para que o pimpolho que pretende se denominar como humano no futuro saiba como se controlar e coordenar. E isso só se consegue através de ordens.

Um tirano monstruoso para conter as pequenas tiranias
O sujeito aprende, exercita o ofício de dar ordens, cresce, o vai aprimorando, e, se possível, se transforma em um tirano. Sim, porque ser um tirano é o sonho mais profundo de todo ser humano e se pode dizer que há essa potencialidade em cada um de nós, humanos. 

Foi disso que Thomas Hobbes falou quando sugeriu que o homem é o lobo do homem e moldou o conceito de Leviatã: se deixados sob o comando de nossos desejos, paixões e ambições, nos mataremos uns aos outros. Daremos ordens, exigiremos ser obedecidos e, se não o formos, agrediremos e mesmo mataremos quem se recusar.

Essa característica da natureza humana é a responsável, assim, pelo Estado, uma entidade delineada exatamente como um Leviatã, ou seja, um ser mitológico, monstruoso em tamanho, de inimaginável poder e, nos casos em que é afrontado, de inesgotável crueldade.


Para conservar sua podridão sem odores desagradáveis
e prevenir ressacas éticas e morais, o zumbi pós-moderno
tem a seu dispor o álcool, engarrafado, em lata ou copo
A estranha condição do morto-vivo
E, para que existe o Leviatã, o Estado? Para dar ordens, é claro. Dar ordens, sim, mas de modo que essas ordens limitem as possíveis ordens dos cidadãos a um nível que não ameace outros cidadãos, ou seja, para ordenar. O Leviatã nasceu para ordenar e, talvez por conta disso, sabe bem que todos os humanos sentem obsedantes impulsos para dar ordens, seja a quem for. Logo, existe exatamente para lidar com isso.

O Estado define, ou seja, ordena, os níveis de possibilidades de ordenamentos e ordenações. Quem está mais próximo do seu coração, manda mais, isto é, dá mais ordens do que obedece, quem está mais distante, recebe muitas ordens de muita gente e assim por diante, considerando todas as gradações. 

Não há, ou não deve haver, ninguém indiferente ao coração do Leviatã, diga-se claramente. Logo, quem não for percebido ou detectado não existe ou não deveria existir, tanto faz, e, desse modo, é plausível supor que todos que são percebidos estão sob o poder leviatânico ou não são nada, ou estão tecnicamente mortos. 

Vida sem vida
De forma bastante curiosa, o Leviatã proporciona, a quem abraça, a vida, mas uma vida subjugada, uma vida sem vida. Isso significa dizer o seguinte: quem está fora não existe, está mais morto do que os mortos; já quem está dentro existe, mas como sujeitado, isto é, deve sua vida a uma condição de ameaça constante de morte e, assim, vive a vida sem vida, idealmente sem riscos porque já riscada do mapa da liberdade. 

São marcas da vida sem vida no cotidiano coisas como o cigarro sem nicotina, o café descafeinado, a cerveja sem álcool, o sexo com camisinha e toda a desordem ordenada que caracterizou a cultura na última metade do último século, com especial participação de drogas diversas. No plano institucional, são bons exemplos os discursos políticos, a isenção e objetividade da mídia e a indignação contra a corrupção dos outros. 

Inclua-se aí também todas as rebeliões simbólicas, que não fizeram mais do que reforçar tudo aquilo contra o qual disseram combater, como a "revolução dos costumes" e os frutos da cultura jovem dos anos 1960/70. Faça-se o mesmo com a imensa maioria dos movimentos de gênero, sexistas e mesmo étnicos, que lutam por direitos e se dizem libertários, mas resumem seus argumentos aos argumentos liberais e promovem a redução das pessoas a rótulos e estereótipos, o que, convenhamos, não é algo muito libertário. 

Carne podre imersa em álcool
A representação mais fiel dessa condição no plano ficcional está no zumbi, uma criatura meio viva e meio morta que sobrevive apenas para mastigar a carne de quem se supõe vivo e que, depois de mordido, se transformará também em zumbi que sobreviverá fazendo a mesma coisa, num imenso bacanal de carne podre que tem como objetivo a destruição de tudo o que se pode dizer humano. 

E como carne podre tem má aparência e fede um bocado, boa parte dos zumbis recorre ao álcool para esquecer essa realidade e escondê-la dos demais zumbis.


Para solucionar os virtuais problemas criados pela tirania dos
indivíduos, Hobbes propôs um grande tirano, o Leviatã, com poder
supra-humano e crueldade inimaginável para ordenar e controlar
O homo sacer e a Lei Natural
Está se falando, aproximadamente, da condição do homo sacer, conceito do Direito Romano utilizado por Giorgio Agamben para definir a condição do ser humano nesta contemporaneidade. 

Há uma indiferenciação, uma relação de indescernibilidade entre a vida do sujeito e a lei instituída para ordená-lo e mantê-lo sob controle, necessidade ditada pelas circunstâncias da “guerra natural” prevista por Hobbes, caso os humanos sejam deixados ao próprio sabor de seus desejos e pretensões. Ocorre que a lei traz consigo um espelhamento de algo ideal que, por ser fortemente arraigado e fundado em princípios naturais e consequentemente morais, deve ser seguido corretamente porque é lei e, da mesma forma, é lei porque é correto, como no caso da “Lei Natural” que compunha fundamentalmente o antigo Direito Romano.

Diante ou dentro da lei?
O homo sacer, assim, é o sujeito da narrativa kafkiana “Diante da Porta”, que compõe o romance “O Processo”. Nessa narrativa, um homem chega diante de uma porta, a porta da lei, e ali conversa com o porteiro, que lhe diz que não pode entrar. O homem se conforma e espera o momento em que lhe seria permitido entrar e, depois de muito tempo, já à beira da morte, pergunta ao porteiro porque ninguém mais veio passar pela porta enquanto esperava, ao que o porteiro lhe responde que apenas ele, o homem, poderia passar por aquela porta, mas que, agora, seria fechada.

Em outras palavras, na narrativa kafkiana, a porta da lei não podia ser transporta porque o homem já estava dentro da lei. Logo, mesmo não percebendo isso, agia o tempo todo governado, guiado e ordenado por ela, obedecendo fielmente a ela. O próprio fato do homem desejar passar pela porta e não fazê-lo já demonstra o quanto lhe era inconsciente a sua condição de subjugado à lei. Assim, fica a certeza: não se pode adentrar um ambiente no qual já estamos todo o tempo inseridos, isto é, não podemos entrar aonde já entramos, dentro do qual já estamos, aonde entramos sem o saber.

Trata-se de uma situação de alienação na qual você olha o espelho e confere realidade à imagem refletida, desconsiderando o objeto que a reflete, o espelho, e não atribuindo, assim, o estatuto de algo real ao objeto que está sendo refletido no espelho, usualmente você mesmo(a).

Escravo autônomo e autodeterminado
A lei, assim, tem a propriedade de apagar tudo o que lhe convém, realçando apenas a sua existência na forma invisível. Feita para ordenar quem quer dar ordens, a lei tem esse poder de disciplinar mais do que meramente o comportamento humano. Vai além e, ela mesma, ocupa o lugar central da identidade, formulando, em torno de si, tudo o que chamamos de subjetividade, ou seja, a condição de sujeito, de alguém sujeitado a algo ou alguém, mas, fundamentalmente, sujeitado à lei.

Quem se define como sujeito em relação a objetos vive na alienação legal, moldado por uma lei implícita e que lhe abarca por inteiro. Graças a isso, usualmente se considera um exemplo de autonomia e autodeterminação.


Esse é o indivíduo contemporâneo, o pós-moderno, o liberal. O escravo que, provavelmente, pela primeira vez na história defende com unhas e dentes sua condição servil. 

Assim, se foi dito, logo no início deste texto, que é importante saber quem manda, é preciso dizer que antes disso é bom e útil saber a que e a quem estamos obedecendo. E, acima de tudo, é bastante profícuo pensar que podemos estar obedecendo a ordens que nem sequer sabemos que existem. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário