quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Previsão do tempo: “Tempestade Perfeita” atingirá economia dos BRICS em 2016 (1)


Mapa da "Tempestade Perfeita" prevista pelo Banco Mundial
O céu está carregado para os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e a tempestade que começou há pouco tende a se perpetuar por bastante tempo. Ocorre, já neste momento, uma “desaceleração sincronizada” nesses países, que deve, por ser sincronizada e, logo, harmoniosa e com forte movimento de inércia, ir longe, bem longe.

Os BRICS são os países ditos emergentes no mundo capitalista, que vivem não totalmente na periferia, mas quase. Dependem uns dos outros para manter o status de “emergência”, nos dois sentidos do termo. Há cinco anos, a economia desses países vem dando sinais de desaceleração, ou seja, não vem crescendo o suficiente para se sustentar e suprir as necessidades dos trabalhadores e da sanha dos financistas. Como no cabo-de-guerra entre esses dois grupos há uma situação comparável a um anão enfrentando um gigante, os financistas não apenas não perdem, o que usualmente ocorre com os trabalhadores, como ganha e, dependendo da estratégia, ganha muito. E tirando de quem? Adivinhe.

Promoção da burrice política e da alienação consumista
A informação foi dada pelo Banco Mundial, mas quem observa as marolas econômicas sabe disso há tempo. E sabe também que houve uma ascensão de empregos e aumento de riqueza por parte dos mais pobres, embora esse quadro seja consideravelmente perverso porque não lhes oferece, no mesmo plano de suas melhorias econômico-financeiras, articulação mental e política. Como ocorre no Brasil, os trabalhadores conseguiram emprego, mas se caracterizaram mais como consumidores do que como cidadãos, o que é grave.

Grave, porque o quadro que se pinta é o da formação de um exército de mão-de-obra politicamente burro e subjetivamente alienado, acorrentado às amarras do consumismo e, consequentemente, atado ao endividamento financeiro e à inevitável tendência a vender barato a sua força de trabalho. Sem consciência de classe, sem consciência da sua situação política, o trabalhador aceita a exploração para poder consumir, pois que no consumo residem as promessas de prazer e, num plano ideal, até mesmo de felicidade.


O novo rico defende o minimalismo da inteligência e a
exacerbação da complexidade das emoções da vida fútil. 

Com vida material exuberante e espírito vazio, o novo 
rico adora carros, roupas, sexo e principalmente drogas:
afinal, o que busca é o "barato" de sentir-se rico,
embora isso não passe de uma "viagem" psicodélica
Nouveau-richisme deveria ter CID (3)
O governo brasileiro apostou apenas nessa perspectiva de crescimento pelo consumo, como deve ter acontecido com outros BRICS. Salvo melhor avaliação, parece que quem assim o fez mereceria um diploma de burrice, mas uma melhor avaliação pode levar em conta que o governo sabia exatamente o que estava fazendo e acreditou não ter alternativas ou, as viu, mas teve medo de adotá-las. Ou, ainda, pode-se imaginar que o governo fez alianças contra a própria população que diz representar, deliberadamente, pois, se assim agiu, assinou em baixo da assertiva que põe a população brasileira como mero combustível para movimentar a máquina dos parasitas financeiros. Logo, nessa opção devemos falar de traição.

De certo modo, creio que muita gente no governo pensou que estaria fazendo o bem promovendo o consumo. Há muitos “novos ricos”, ou gente com essa inspiração, no partido governista, mais do que o desejado. E os novos ricos entendem a felicidade como a compra de coisas, como a capacidade de consumo. Na realidade, o nouveau-richisme é doença das mais graves e pandêmica, lesando a alma de suas vítimas e debilitando o corpo. Trata-se de um mal comum e corriqueiro que atinge mais gente do que se imagina.

Cuidado com o contágio!
Um petista com alma corrompida pelo nouveau-richisme, aliás, respondeu a uma crítica que fiz acerca da despolitização dos trabalhadores durante os governos de Lula e Dilma. Ele disse: “Pô, o povão nunca consumiu tanto!”. Se o disse de coração limpo, deveria ganhar o tal diploma de burrice, com méritos; se o disse sabendo da asneira contida nessa lógica, deveria levar um soco no estômago, para ter tempo de parar, tentar respirar e aproveitar para pensar na canalhice que professa.

No fundo, em um caso ou noutro, trata-se de um doente, coitado. O problema nesses casos é que o doente não admite o estado patológico e sai por aí contaminando outras pessoas.


Símbolo do nouveau-richisme, o 
ex-presidente Lula promoveu o 
consumo, não a politização do 
trabalhador ou da população
(Atenção: a imagem é meramente ilustrativa)
Os primeiros degraus serão inundados
A situação está feia e, como no Brasil, a recessão consequente da conjuntura ruim tem sempre o efeito de arrebentar com o bolso do mais pobre. Nos degraus da escada social, há aqueles que estão no topo e sempre mantêm suas posições confortáveis, chegando mesmo a lucrar nesses momentos terríveis.

Há os que estão nas camadas médias e têm como se defender, mas se dividem entre os que têm muita fome de consumo (e podem até ir à falência por isso) e os que têm menos voracidade, aqueles que conseguem planejar seus gastos e até mesmo poupar. Os primeiros podem ter problemas e os segundos tendem a se dar melhor, mas nada é garantido.

Lá embaixo, nos primeiros degraus ou mesmo no piso, estão os que não têm como se defender, mas que levam vantagem sobre muitos dos degraus superiores porque não se endividam tanto e, assim, passam por menos estresse e proporcional menor dilapidação do patrimônio nesses momentos. Sob um ponto de vista negativo, se pode dizer que quem não tem nada a perder, nada perde em tempos de crise.

Barbas de molho para não se afogar
De todo modo, a imagem, sob o ponto de vista do necessário estado de aceleração que as economias capitalistas, principalmente as emergentes, deve manter, é a da crise como água: quando vem a inundação, o pessoal que está no piso ou nos primeiros degraus tenderá a ser afogado, enquanto os de cima certamente estarão mais seguros.

O que quero dizer é que precisamos nos manter espertos neste ano. Em tempos de decadência econômica, é preciso pôr barbas de molho para não acabarmos afogados na tal “Tempestade Perfeita”.

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(1) O termo “Tempestade Perfeita” se refere a condições e fatores peculiares que, em confluência sinérgica, podem ocasionar uma tempestade avassaladora.

(2) BRICS é o nome que recebe o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. É um grupo basicamente econômico, que objetiva promover a cooperação mútua entre os países citados. Quem os batizou dessa forma foi o economista Jim O'Neil, em 2001, com o intuito de enfeixa-los por conta de suas semelhanças econômicas. Naquele tempo, até 2011, a África do Sul ainda não fazia parte e o “S” era minúsculo. Em 2006, os então BRICs resolveram aproveitar o fato de terem sido agrupados conceitualmente e resolveram se articular na realidade.


(3) CID significa “Código Internacional de Doenças”. 

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