segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Em 1964, Brasil caiu no Primeiro de Abril

A Ditadura Militar brasileira nasceu muitos anos antes de 1964. O chamado “Golpe de 1964” era para ter ocorrido bem antes, mas houve vários empecilhos consideráveis, principalmente o suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 1954.

Em 1º de abril de 1964 houve um Golpe de Estado, que foi chamado por seus autores de “Revolução”, a meu ver inapropriadamente.  Revolução é uma mudança radical em um estado de coisas, após a qual é estabelecida uma nova ordem, que deve ser, é claro, totalmente da anterior. De preferência, deve ser até mesmo oposta à anterior, contrária a aquela.

1964: Golpe de Estado, não Revolução
O que aconteceu em 1964 não foi uma revolução. Mas, a adoção do termo se deve, provavelmente, a uma tentativa de caçoar dos diretamente vencidos, os militantes e partidários da ideologia “de esquerda”, que trabalhavam com a meta de realizar no Brasil uma revolução, ou seja, uma mudança radical do regime político, do capitalismo para o socialismo. Goste-se ou não da ideia, nesse caso haveria uma revolução, pois haveria, pelo menos em tese, uma mudança radical.

Tudo indica que, de forma sarcástica, os militares (os agentes operacionalizadores do golpe, mas não seus idealizadores ou principais beneficiários), chamaram de “revolução” ao Golpe de Estado de 1964 para deliberadamente usurpar e esvaziar o precioso termo usado pelo pessoal da esquerda. Isso pode ser verdade, mas existe outro aspecto importante no fato de se chamar o “golpe” de “revolução”. Dar um golpe pode ser rapidamente identificado com algo torpe, pois não se mudam as condições anteriores, simplesmente se mudam os atores, os ocupantes do poder e golpe cheira a traição, só dependendo de uma simples iniciativa para qualificá-lo de “baixo”, o que, via de regra, bem lhe define.

Um “Golpe” costuma ser, assim, “golpe baixo”, traição ou “trairagem”, conforme termo das ruas. Quem o consuma, usualmente ficará marcado pelo oportunismo, não pela nobreza. Já uma revolução traz consigo uma ponta de nobreza, já que se trata de uma iniciativa que objetiva mudar tudo, estabelecer uma nova ordem, para que, segundo seus idealizadores, haja uma nova vida, melhor e mais justa, para um número maior de pessoas. É pelo menos uma iniciativa de cunho corajoso, que denota lá sua valentia.

Se é verdade que um “golpe” é sempre, ou quase sempre, “baixo”, ou que a revolução tem uma inequívoca nobreza, isso é algo a discutir. No entanto, parece certo afirmar que esses sentidos e significados estavam presentes na sociedade brasileira. Tanto é assim que o golpe foi chamado de “revolução”, um termo mais pomposo e simpático, mas absolutamente inadequado para o que aconteceu.

Contragolpe?
Falando em “esquerda”, é importante que você saiba que o golpe foi de autoria do outro lado, a “direita”. Embora haja bastantes divergências em relação a quem seja de esquerda ou direita, os termos têm uma definição precisa. Tomando como parâmetro o que define Norberto Bobbio, é “de direita” quem tem como prática política a proposta de concentração de riquezas e poder; é “de esquerda” aquele que trabalha pela distribuição de riquezas e do poder. Efetivamente, o golpe foi dado por quem desejava uma radical concentração de riquezas e de poder e foi isso o que se viu durante os 21 anos que durou o governo golpista, todo ele dominado por militares de alta patente.

Os militares, apesar de terem sido os operacionalizadores do golpe, não foram seus autores intelectuais, seus idealizadores e/ou principais beneficiários, embora tenham se beneficiado, é claro. Esses benefícios foram gozados principalmente pelas mais baixas patentes e os guardas de esquina ganharam um poder jamais sonhado por eles próprios.

Os policiais militares que hoje entram nas comunidades pobres, chutam as portas, espancam, roubam, estupram e matam sem qualquer medo ou vergonha, faziam isso em praticamente qualquer lugar. Ninguém, nem mesmo os que apoiaram o golpe (Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek, por exemplo, o apoiaram e, mesmo assim, foram presos, e há quem diga que mortos pelo governo militar, que adotou práticas nitidamente terroristas durante a sua vigência.

Golpe com sotaque
O golpe brasileiro foi de autoria de empresários estadunidenses de grande porte (ler “1964: a conquista do Estado, de René Armand Dreyfuss, livro sobejamente documentado e fundamentado), que encontravam alianças importantes no Brasil, tanto na classe política, quanto na classe empresarial e teve a decisiva participação de gente quente do governo dos EUA. Os estadunidenses tinham grande potência e capacidade de intervir em países do Terceiro Mundo. Tinham também interesses econômicos expansionistas, estando em busca de um mercado consumidor considerável e inédito na história. E boa parte dessa força e poder vinha do fato de que tinham como aliado o próprio Estado, podendo contar com forças importantes como a C.I.A. (Central Intelligence Agency – Agência Central de Inteligência dos EUA), o que aumentou a densidade da potência desses empresários e, consequentemente, a capacidade de intervir em outros países para torná-los propriedades suas, formatando uma nova subjetividade (com a destruição de considerável parte da anterior) e abrindo um vasto campo de vantagens e lucros com esse novo e promissor mercado consumidor.

Algumas pessoas gostam de considerar que o Golpe de 1964 foi resultado de uma iniciativa do Exército Brasileiro e de boa parte da sociedade civil, principalmente, é claro, dos cidadãos honrados que não queriam o avanço do comunismo por aqui. Essas pessoas, segundo se crê, andavam muito preocupadas com a esquerdização das práticas políticas brasileiras, centralizadas e identificadas como sob a liderança de Leonel Brizola, que, efetivamente, se destacava na política nacional naquele momento e, segundo algumas fontes, era o principal nome da esquerda latino-americana. Brizola seria o personagem sobre o qual os soviéticos e cubanos (Cuba fez sua revolução em 1959 e se aliou à União Soviética, a antiga e atual Rússia) depositavam esperanças de tomar revolucionariamente o Brasil, maior país latino-americano e que, depois de conquistado, lideraria a guinada do continente rumo ao socialismo. Tudo indica que não havia consenso em torno de Brizola, mas ele tinha força e poder para se impor como um personagem central na trama.

Nesse sentido estrito, se considerarmos essa disputa e esse interesse soviético e cubano, o golpe brasileiro não foi revolução, mas uma antirrevolução, pois operacionalizado para evitar uma mudança radical de regime. Teria sido, assim, na verdade, um “contragolpe”, na melhor das hipóteses.

Embora essa seja uma interpretação viável, ainda que eu a considere um tanto ingênua, é o caso de dizer que um erro não pode, de maneira nenhuma, ser justificado com parâmetros em outro erro.

Prejuízos do Primeiro de Abril
O fato é que a partir de primeiro de abril de 1946, a real data que os militares esconderam por coincidir com o “dia da mentira”, o Brasil entrou numa fase negra, de trevas e terror. Não se sabe o que teria acontecido se a história fosse diferente, mas o regime militar foi catastrófico para os brasileiros em todos os sentidos.
1) Politicamente, o próprio nome “ditadura” já define o que foi, embora, cinicamente, os adeptos do golpe não gostam que se use esse termo. Foi um retrocesso político de décadas.
2) Economicamente, um ligeiro avanço econômico nos primeiros anos caiu por terra em seguida e aquele curto tempo de sucesso foi chamado de “Milagre Brasileiro”, dando sequência a outro tempo, de alta inflação e de desaceleração econômica. De sua metade em diante, a ditadura promoveu apenas crises econômicas insolúveis, graças ao péssimo trabalho realizado pelos melhores economistas brasileiros, aliados dos capitalistas estadunidenses e, consequentemente, dos capatazes brasileiros daqueles. O objetivo era conseguir o mesmo que FHC, Lula & Cia fizeram recentemente, ou seja, criar uma grande e vasta classe média, medíocre, como só pode ser, e estúpida o suficiente para acreditar que a felicidade tem endereço e fica no shopping mais próximo.
3) Socialmente, as conquistas e avanços da população no sentido da cidadania foram extirpados a golpes de baioneta, quando preciso. Toda e qualquer organização de articulação de trabalhadores ou quaisquer outros cidadãos era perseguida brutalmente, quando necessário.
4) Culturalmente, foi um tempo tenebroso, de dilapidação da cultura brasileira e de substituição desta por ritmos bem mais pobres em forma e conteúdo, tendo à frente o novo e conservador rock, filho do velho rock’n’roll, que era tocado por negros mas embranqueceu e se tornou, surpreendentemente, o ritmo da revolução jovem que jamais aconteceu, mas que ganhou fama como nenhuma outra.
5) Humanamente, foi tempo de opressão e terror, com a perseguição, a detenção, a tortura e o assassinato de muita gente, com uma situação de despolitização, butim econômico, ataque ao tecido social e cultura medíocre. Num atoleiro assim, nada de humanamente bom pode acontecer.


Uma menina de 5 anos, Rachel Clemens,
entrou para a história ao se recusar a
cumprimentar o último general-ditador,
João Figueiredo, em Belo Horizonte
Ditadura nunca mais
Em suma, me causa surpresa e desgosto perceber que há gente que defende o que ocorreu naquele tempo e pretende mesmo que algo como aquilo se repita. Entendo que poderia ter acontecido algo pior se no primeiro de abril de 1964 a história brasileira não tivesse registrado o golpe baixo dos capitalistas estadunidenses, da elite corrupta nacional e dos militares golpistas. Nunca se sabe o que poderia ter ocorrido e o que passou já passou, restando apenas o que efetivamente ocorreu. Mesmo entendendo que o que é ruim sempre pode piorar, digo que o golpe militar – e os subsequentes 21 anos de força bruta, repressão, opressão, desrespeito e culto à mediocridade – é algo para ser lembrado como uma torpeza histórica que, para que não se repita, deve ser combatida diariamente.


De forma geral, ainda é possível dizer que foi gente do time que deu o Golpe Militar que insuflou e ajudou a erguer Lula, o PT e todo o time que ocupa, hoje, o poder em Brasília. Logo, os que pedem a volta do golpe podem estar dando um tiro no próprio pé. Pedem o retorno da mesma mentalidade tacanha que gerou tudo aquilo que hoje dizem odiar. 

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