segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Liberalismo é uma coisa, neoliberalismo é outra coisa

No último fim de semana, li alguns textos, como usualmente. Em dois deles, li, mais uma vez, que a doutrina liberal nada têm a ver com a neoliberal, ou, mais precisamente, pouco tem a ver, sendo esta última uma estratégia politica golpista recentemente posta em prática (da metade do século passado para cá) por um grupo. A doutrina liberal embasa a neoliberal apenas esquematicamente, como inspiração estrutural, pois a neoliberal recorre ao discurso liberal do laissez-faire para justificar o butim que promove desde que foi implantada experimentalmente no Chile e, posteriormente, na Inglaterra, em 1979, quando a Dama de Ferro Tatcher comandava, e nos EUA, um ano depois, com a posse do presidente ator de Hollywood Reagan.

Tudo indica que o neoliberalismo é uma malandragem perversa que não tem base na doutrina liberal, salvo pelo aproveitamento discursivo. Veja que os neoliberais são radicalmente contra qualquer iniciativa governamental para regular a economia, mas alguns liberais, inclusive o máster Friedman, já propuseram uma renda mínima para os que recebessem rendimentos menores do que o necessário para viver decentemente, valor que seria estipulado pelo governo. E, ainda no nascedouro do liberalismo, houve quem afirmasse, peremptoriamente, que, para garantir o solo no qual brotariam os bons resultados propostos pelo liberalismo econômico, seria necessário haver uma regulação estatal. Essas são ideias inteligentes que, como tal, jamais seriam aceitas pelos neoliberais.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Produção em risco de extinção

Há, no mundo da economia, pelo menos dois tipos de gente:

   - Os financistas, defensores do capital financeiro, isto é, a mais injusta forma de acumulação já criada pela humanidade, a que retira recursos da produção, que mal ou bem remunera trabalhadores, para garantir ganhos a especuladores que não fazem nada da vida e não pagam praticamente nada do que ganham. São altamente concentradores, é claro.

   - Os socialistas, que defendem a distribuição de riquezas, o que os torna simpáticos a todo aquele que sonhe com justiça social, porém são também eles que, depois de eleitos em alguns países latino-americanos, mostraram ser tão pernósticos quanto os financistas e não distribuíram riquezas a não ser na falácia das bolsas, um programa tão socialista quanto a bolsa de valores de New York, presente em inúmeros outros países e que representa apenas uma forma de incluir quem não já estava incluído na escravidão econômico-financeira. Algo como pular do fogo para a frigideira.

Os tipos citados são clássicos e constituem os parâmetros que balizam as conversas econômicas em bares e botequins. Ou você está do lado das finanças ou do trabalhador, se costuma dizer. Só que, aparentemente, nenhum dos dois tipos está do lado do trabalhador, a não ser para tungá-lo com mais facilidade. Quem sabe, a diferença entre um tipo e outro seja que os financistas são bem mais sinceros em relação ao mal que pretendem fazer do que os socialistas.


Há outro tipo de gente nesse campo que merece menção. É o pessoal que aposta na produção, que não acredita no conto de fadas contado pelos socialistas e despreza o ganho fácil dos financistas (que também são chamados neoliberais, mas não têm tanto assim de liberais, sendo mais facilmente classificáveis como os “novos espertos”). Pense que produzir é seguir em frente, crescer, ganhar independência, celebrar a vida no suor do rosto de quem produz. 

Se encontrar um raro e sofrido espécimen de um produtor, saiba que ele está em sério risco de extinção, pois em um mundo de parasitas, financistas ou socialistas, todo aquele que produz corre sérios riscos de extermínio. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Encruzilhada ética e moral

Autoridade no Brasil é coronelismo, dizem alguns. Respeito à autoridade!, bradam outros, principalmente autoridades e apaniguados. O fato é que, entre nós, ter autoridade é um problema, mais que uma solução, e sofrer abusos de alguma autoridade não é nada incomum. Os mais pobres e de pele escura que o digam.

A polêmica que envolve o projeto contra o abuso de autoridade, que tramita na Câmara Federal, denuncia que há um nó cego, daqueles que não se pode desatar, na sociedade brasileira. Que há abusos policiais e de autoridades diversas, isso há. Mas que também tem muita gente que deve estar de olho na aprovação do projeto para se livrar da dura, isso também tem. E essa gente não é pobre. Pelo contrário.

O Congresso tem, assim, uma missão espinhosa, sob o ponto de vista ético e moral. Em seu seio, há provavelmente muitos dos que querem escapar das garras da lei, como os investigados na chamada “Operação Lava-Jato”. São homens públicos que governam e legislam não pelo bem público, mas visando vantagens pessoais. Fora dele, há, porém, pessoas que podem se beneficiar com uma legislação que restrinja abusos policiais e jurídicos.


É nesses momentos que se tem a noção do quanto é penoso lidar com as tramas da sociedade humana... principalmente a brasileira, que tem contradições suficientes para enlouquecer qualquer um que tente levá-la a sério. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Para especular vale tudo, porque tudo é especular

Gosto de locais onde há comércio. Geralmente são movimentados, efusivos, até mesmo alegres, sempre um tanto tensos. Transmitem vida, agitação, um pulsar marcante de coisas se movimentando, trocando de mãos. Há desejos, devaneios, sonhos e cobiça, tudo ali circulando, entre olhos e ouvidos atentos.

O rebuliço do comércio é o mundo dos objetos, que mudam de mãos e funcionam como mediadores fundamentais na relação entre o mundo privado e o público, assim como servem de mediação entre o indivíduo e seu círculo social e, no indivíduo, entre o seu mundo interno, constituído por seu imaginário, e o mundo simbólico que o funda ao lhe dar forma.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Conhecer X Saber: “o dinâmico” versus “o estático”


Aquele que quer conhecer está em um
labirinto onde cada experiência é inusitada
e os caminhos nunca são os mesmos
Se você já sabe algo, tente desaprender para conhecer; se conhece, saiba que os trilhos do conhecimento têm inúmeras estações e nenhum fim

Se você quer ter razão, jamais a terá. Se quer ter certeza, estará em posição incerta na maior parte das vezes. Isso é claro.

O fato é que só aprendemos quando admitimos não saber. Se sabemos, é sinal que o que sabemos já está ocupando o lugar destinado ao conhecimento e não há vagas.

A realidade não é o que queremos ou desejamos, nem, na prática, resultado daquilo que fazemos isoladamente. A realidade é plural e nunca é o que imaginamos. Nunca.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sexo, drogas, rock’n’roll e o joão-bobo contemporâneo

Quando criancinhas, acreditávamos em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, depois crescemos e passamos a crer que a juventude pode mudar o mundo

A tríade maldita (sex, drugs & rock'n'roll) não passa de um slogan de um bom produto. Se observado pelo ângulo macropolítico da contemporaneidade, isto é, sob o vértice da realidade política que observamos em nossos tempos, o movimento jovem dos anos 1960/70 não passou de uma manifestação bem comportada de protesto contra uma conjuntura que era amplamente desfavorável para a implantação de um capitalismo como o que conhecemos hoje: financeirizado, escravizador do espírito, sufocante e cruel, mas muito atraente e sedutor.

Trata-se de um caso em que o mestre manda todo mundo mostrar os dentes e todos obedecem prontamente, provocando toda a desordem que só a gente ordeira sabe causar.

Liberação invertida - Um dos elementos mais importantes no processo foi a liberação sexual, é claro. Antes a coisa funcionava muito emperrada, até que se liberava sexualmente. Depois da tal contracultura jovem, a coisa inverteu e tudo funciona liberado e depois emperra, porque não um não tem nada a dizer ao depois do sexo. Em boa parte dos casos, o que há é uma masturbação em dupla.

Em outros termos, até um ponto na história, as pessoas eram reprimidas sexualmente e, quando podiam, quando tinham a oportunidade, caiam na esbórnia. Era a manifestação crua do imperativo categórico formulado pelo filósofo alemão Immanuel Kant: se você deve, você pode.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Três parágrafos sobre o tema da limpeza


Há sujeiras que nenhum removedor tira. 
Nem sendo mágico, como o da foto
A limpeza é boa, sem dúvida e somente a obsessão por ela se torna problemática. Não sou um obcecado em tudo estar limpo, mas entendo que é bom estar limpo, em diversos sentidos. Limpeza moral, por exemplo, é boa. Chato você ser apontado na rua como alguém amoral ou imoral. Alguém lembrar de você e dizer que você é mau caráter é algo terrível, moralmente destrutivo. Sua companhia ser recomendada por escroques e malfeitores é terrível e quando ela é irrecomendável por pais de família e trabalhadores padrão, é pior ainda. Não se deve, porém, usar ou reforçar ideias moralistas, pois o moralismo é a falsa moral.

Mas a sociedade é muito limpa na aparência, assim como tantos de nós. Nos arranjos sociais há uma tendência a valorizar a primeira impressão, por isso se recomendam roupas bem talhadas e, se possível, caras. E há, também, do mesmo modo, uma ordem à qual costumamos chamar etiqueta (pequena ética), que prescreve normas para nossos procedimentos em ambientes sociais. Alguém me disse que essas coisas servem bem para ocultar outras, e estas outras estão relacionadas à animalidade. Talvez.

Há uma limpeza, porém, que todos devemos prezar, a da alma. E essa limpeza se consegue com o afastamento de coisas e pessoas que conspurcam, ainda que muitas vezes inadvertidamente, a vida daqueles com os quais se relacionam. Não raro, isso acontece de forma quase imperceptível e quando se vê, pronto, o caldo já entornou e você está enredado em alguma trama dantesca que só pode terminar mal. Às vezes há mesmo má intenção e nesses casos pode ser mais fácil para você perceber e evitar o dissabor. O problema é que, se vale tudo para o mal, o mesmo não vale para a defesa contra o mal e cometer algum ato perverso para evitar outro pode muitas vezes ser justificável, mas é algo que deve ser, sempre que for possível, evitado. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Um grande delírio no qual tudo é racional, menos ele mesmo, o delírio

Alguém já disse que o dinheiro é essencialmente alienador, o que significa dizer que afasta quem o tem e usa da realidade, o torna algo ou alguém pior, pois com o dinheiro, possuindo-o, não se precisa aprender a fazer nada, ou, pelo menos, não é necessário saber fazer o que se compra, salvo casos específicos. Significa que, com o dinheiro, não se faz, se compra feito. Trata-se de uma relação próxima, senão identificada, com o parasitismo. Quem disse foi Karl Marx, um crítico aberto e feroz do dinheiro, ao menos aparentemente.

Mas, não levemos isso ao extremo. Afinal, tudo funciona em torno do dinheiro. E Marx não gostava mesmo do dinheiro, só que o mundo sem dinheiro que inventou é lastimável, ou, se mostrou ser, especificamente nas experiências políticas que trouxeram seu nome como bandeira. Mesmo que se considerem pontos positivos, como a experiência cubana na assistência à saúde, não dá para comprar o pacote inteiro. Até porque no mundo do dinheiro há, em alguns países, assistência à saúde tão boa quanto a cubana e abrangendo toda a população, como a cubana. Até que um tecnopolítico neoliberal assuma o poder e a destrua, é claro. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A violência ubíqua


Jean Baudrillard, teórico francês: as prisões existem para
que esqueçamos que vivemos em uma sociedade prisional
As gerações passadas resistiram à transformação em autômatos, já as de hoje parecem aceitar isso bem mais facilmente...

As empresas estão exigindo muito das pessoas, bem mais do que no passado, quando os mais entendidos afirmavam categoricamente que a tecnologia libertaria o ser humano para ter mais tempo livre e, consequentemente, mais tempo para si. Um dos que pensava assim era o libertário Henry Thoureau, o autor do célebre tratado sobre a desobediência civil. A realidade que a história nos mostrou, no entanto, foi quase diametralmente oposta. 

Recentemente, li que uma empresa jornalística põe, como requisito, para contratar um profissional, que ele tenha praticamente todo o seu tempo livre dedicado à empresa. Chega-se, segundo o texto lido, a exigir poucas horas de sono para que o jornalista frequente várias festas ou desfiles de moda na mesma noite e que faça matérias sobre todos, quase que instantaneamente. De certo modo, o que se pede é uma espécie de super-homem, ou supermulher, conforme o caso, ou, conforme dizem alguns amigos, um perfeito e autêntico autômato remunerado. Mal remunerado, dizem. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A crase, essa incompreendida

O uso da crase é um dos maiores motivadores de desespero entre os comuns mortais que usam a Língua Portuguesa para se comunicar. Há muitas regras e o curioso é que todas costumam abrir exceções quando se trata da crase. E esse parece ser o problema maior.

A palavra “crase” é muito antiga (já era usada na Grécia das polis) e significa “fusão”. No caso, na língua, ocorre, efetivamente, a fusão de duas vogais idênticas, no caso em que há uma preposição “a” e o artigo feminino “a” juntos, e que ocorre também quando a preposição “a” se encontra com o pronome demonstrativo “aquele”, “aquela” ou “aquilo”. A crase, assim, é um sinal que indica que houve essa fusão.

Quando usar
Uma regra básica é substituir a palavra feminina por uma masculina. Se o “a” se transformar em “ao”, use a crase. Por exemplo, na oração “Os estudantes compareceram à sala para realizar o exame” há crase, mas, para ter certeza, a ideia é substituir a palavra “sala” por uma masculina semelhante. Veja: “Os estudantes compareceram ao colégio para realizar o exame”. Não há dúvida, aí tem crase.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Três pontos de vista sobre o “no aguardo”

Tem gente que fala em uma verdadeira praga, outras pessoas aceitam bem o uso e há os que usam com tanta frequência que nem suspeitam que não estão agradando. O fato é que o “fico no aguardo” se tornou corriqueiro nas comunicações de cunho profissional, sejam verbais ou escritas.

Dizer que está “errado” o uso é exagero. Dicionários como o Aurélio e o Houaiss o aceitam, até porque incorporam elasticamente formas de expressão da língua que não estão estritamente adequadas à Norma Culta. Há, porém, os que dizem que está errado e em portais e blogs da internet há mesmo uma discussão animada acerca do “no aguardo”.

Argumento contra: "aguardo" como verbo
Os “contras” dizem que o verbo “aguardar” pede um complemento, pois é verbo transitivo. Porém, o uso do “no aguardo” consideraria o “aguardo” como substantivo, como se você dissesse que está em um lugar chamado “aguardo”. Algo como uma sala de espera ou coisa parecida. É nesse sentido que os “contras” não gostam do uso e recomendam “ao aguardo”, pois consideram apenas o verbo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Negócio: esforço concentrado para algum resultado


Há quem resuma a relação ócio x negócio ao
binômio escravo x senhor - aquele trabalha
para o proveito do ócio deste - e garante que,
nestes tempos pós-modernos, isso está cada
vez mais acontecendo: o rebanho assume o
negócio para que uns poucos curtam o ócio. 
Etimologicamente, “negócio” vem do latim nĕgōtĭum (nĕgōcĭum, nĕcōcĭum), termo muito usado durante a supremacia de Roma. É uma palavra composta de nec ‎(não) + ōtium ‎(ócio), ou seja, “não-ócio”, toda e qualquer atividade na qual se saia do ócio, isto é, do descanso, da recreação, do lazer, seja qual for. Ou seja, se está falando do trabalho, da atividade humana produtiva, que tem o objetivo de alcançar algo, produzir algo. Dir-se-ia que se fala de tudo o que diga respeito ao movimento, ao esforço, à iniciativa de gerar algum resultado através de um esforço concentrado. 

Há referências históricas que dão conta que uma provável origem do termo ōtium vem de um uso militar. Tudo indica que ōtium era o nome dado ao período em que havia pausa nos combate de uma guerra, ou entre guerras, e significava “tempo livre”, evidentemente para fazer qualquer coisa que se queira ou mesmo para não fazer nada. Segundo consta, esse termo dizia respeito usualmente ao inverno, nos meses de janeiro e fevereiro, que eram dedicados ao ōtium, ou seja, eram de férias. 

O ōtium se opõe, desse modo, à vida pública ativa, podendo ser entendido, também, como momento de férias ou mesmo referido ao descanso da aposentadoria. Pode, também, ser entendido como vadiagem ou vagabundagem. 

Mas, cabe lembrar que ōtium é um termo no qual estão englobados não apenas os sentidos de descanso, lazer ou recreação, mas também o sentido do tempo em que se dedica às artes, notadamente às letras. Era muito usado o termo ōtium litteratum, cuja tradução literal significa algo próximo a “aprendizado pelo lazer”, ou ōtium litterarum, cujo sentido é o de lazer no contato com a letra escrita. Já quando se fala em ōtium cum dignitate (descanso com dignidade), outro termo antigo, se estava querendo referir a todo aquele que dispunha de recursos para se dedicar inteiramente à leitura na velhice. A expressão, dizem, foi cunhada por Cícero (Marco Túlio Cícero nascido em 106 a.C. em Arpino, Itália, e falecido no ano de 43 a.C., em Formia, também na Itália). 

Na prática, o ōtium era um privilégio das classes aristocráticas, enquanto os mais pobres, os plebeus, e os soldados viviam no nĕgōtĭum, isto é, negando o ócio, trabalhando duro, bem se diga, enquanto os aristocratas “aproveitavam a vida” no ōtium

Por tudo isso, considerando os sentidos expostos, quando nos referimos a qualquer atividade produtiva, prática e operativa, falamos de um “negócio”, mesmo quando se trata de atividades de uma empresa pública que, como tal, não visa o lucro, ou não deve visar. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Quem só quer conforto permanece na estagnação

Quando você olha em volta e tudo lhe começa a parecer estranho é sinal que você está fora do tradicional campo semântico que lhe é (ou era) habitual. De certo modo, quando isso acontece, como refere o antropólogo Everardo Rocha no livro “Magia e Capitalismo”, é sinal de que começamos a entender que as coisas são o que são mais por uma questão das suas relações do que por conta da essência que supostamente têm. Isso quer dizer que é preciso atentar para o contexto e que as características dos objetos e sujeitos mudam de acordo com o lugar que ocupam (1).

O habitual é o confortável, o estranho é o oposto, causando uma inequívoca sensação de desconforto, quase sempre ou sempre. O conforto remete a um estado de estabilidade, de um ambiente conhecido no qual se pode relaxar e até mesmo adormecer. O ambiente de casa, do lar, é habitual e reconfortante e, se há esse ambiente fora de nós, é certo que haja o registro anímico dele, dentro de nós. Da mesma forma, um ambiente público, na maioria das vezes, não é confortável, ou não é tão confortável quanto o de nosso lar, chegando, em alguns casos, a ser hostil. Nele, não será fácil adormecer.  

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Polêmicas da Língua Portuguesa

Erros comuns 
“Herrar é umano”, se diz por aí. E é verdade, ainda mais quando se trata da língua portuguesa, que não é das mais fáceis de se falar e escrever. O que mais se vê por aí, ou melhor, o que mais se lê por aí são erros gramaticais e de ortografia, grandes e pequenos, leves ou graves, tanto faz. 

Mas, quem sabe falar e escrever tão perfeitamente que jamais erre? O problema, na verdade, não é o erro ou equívoco ao tentar falar e escrever dentro das normas cultas da língua. Problemático mesmo é errar insistentemente, de forma reiterada e obstinada. Ou seja, errar é admissível e compreensível; insistir no erro é que chama a atenção, principalmente quando somos alertados de que estamos errando. 

Por conta disso, vamos aos alertas de erros comuns, para que não os cometamos mais. Ou, se os cometermos, que não seja por falta de aviso. Logo após tratarmos disso, falaremos dos erros inaceitáveis, os graves, aqueles que nem eu, nem você, nem ninguém pode cometer.  

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Para o liberal, a tartaruga é franca favorita na corrida contra Aquiles

Capitalismo verde é brincadeira. Ou deveria ser. Quero dizer que capitalismo que leva em consideração a preservação ambiental não existe, é algo tão incongruente como um anão gigante. Tudo indica, observando os últimos séculos, que o capitalismo é um sistema predatório, essencialmente predatório.

Dizendo isso não estou clamando pelo fim do capitalismo ou bradando palavras de ordem socialistas. É apenas uma constatação. E não é só minha. Recentemente li texto de Richard Smith, um historiador econômico estadunidense, que cita um interessante trecho de um livro do economista Lester Thurow, que veio ao Brasil dar entrevista no programa Roda-Viva, da TV Cultura, aí por 1996 ou 1997 e causou muito boa impressão. A vinda foi provavelmente para promover o livro, o que conseguiu, pois fui um dos que correu às livrarias para adquiri-lo e nelas soube que a procura estava grande, com pessoas citando a entrevista dada à TV estatal paulista.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

As emendas e o umbigo dos parlamentares


Até a grande imprensa costuma divulgar
a ocorrência de barganhas envolvendo
o governo brasileiro e parlamentares.
A "razão cínica" parece não ter limites
Há casos em que uma obra se impõe a uma cidade, estado ou mesmo ao Governo Federal, não exatamente porque seja importante para o local em que será realizada. Ela se impõe e é realizada por conta de uma “emenda” parlamentar, ou seja, uma proposta que um parlamentar apresenta para, segundo a versão oficial, participar efetivamente da elaboração do orçamento, aperfeiçoando o projeto ou proposta apresentado pelo Poder Executivo e para a melhor alocação dos recursos públicos e, é claro, para atender à comunidade que o parlamentar representa. Isso, como dito, “segundo a versão oficial”, já que, na prática, a versão oficial é apenas o enredo de uma mentira feita para ser agradável aos ouvidos e ocultar a verdade, que não é tão agradável.

De certo modo, segundo essa lógica estrutural das emendas parlamentares, o Executivo fica refém do Legislativo. Este decide, por conta própria, de acordo com interesses partidários e diretamente eleitorais de um parlamentar, o que fazer com recursos públicos. O Legislativo decide e manda o Executivo fazer.

De outro modo, porém, o Executivo executa a obra quando puder ou quiser e do modo que puder ou quiser. Aí, é a vez do Poder Executivo subordinar o Legislativo aos seus interesses. Se o deputado ou vereador faz o que o governo quer, tudo bem, a coisa anda; se não for assim, sua emenda corre o risco de ficar no limbo, aguardando a chegada do dia 30 de fevereiro. Isso, na prática, sem idealizações ou pessimismos. É mais ou menos desse jeito que a coisa toda funciona no meio político.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O ponto pacífico consensual da verdade gira no carrossel da realidade humana: divagando sobre o que é o pensamento

O termo “Ponto Pacífico” é usado para designar uma certeza consensual, ou seja, um fato ou uma realidade que não é ou não pode ser contestada e com a qual, assim, todos concordam ou devem concordar. Inclusive, esta definição, tudo indica, é um ponto pacífico. 

Como exemplo, temos algumas possibilidades, como a que segue. 

Alguém olha para o céu e constata que está azul, sem nuvens. Outra pessoa, ao lado, faz o mesmo e diz que o céu está azul. Ambos concordam e aí está um ponto pacífico. Se, porém, não há concordância, há um conflito de percepções, parece claro, e se há conflito não há paz. 

O Consenso
O “Ponto Pacífico” pode ser chamado, da mesma forma, de “Consenso”, ou depende dele para ser o que é. 

O “Consenso”, como parece óbvio e chega a ser um ponto pacífico, remete à concordância estrita e completa em relação a um determinado tema, fato ou assunto. Essa concordância integral, porém, pode ser obtida por conveniência de parte dos membros de um grupo, é claro, como nos velhos e conhecidos procedimentos políticos de barganhar algo em troca da concordância com algo. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Propaganda é o nome que damos ao jornalismo do inimigo

A imprensa é fundamental na Democracia. Afinal, esse sistema político se caracteriza por se basear na existência de um mecanismo ou mecanismos nos quais a população tem a possibilidade de se manifestar em relação à condução política de sua cidade, província ou país. No caso da democracia representativa, sob a qual vivemos no Brasil e em boa parte do mundo ocidental, a forma direta de participação costuma se resumir às eleições para escolha de representantes. Esse mecanismo pressupõe que cada eleitor tenha realizado uma reflexão acerca do representante que escolherá, tanto no que diz respeito à identidade com interesses ou ideais, quanto no que diz respeito à questão ética e moral, isto é, votando em candidatos com “ficha limpa”.

Para a boa escolha dos representantes é importante que tenha havido a divulgação de informações acerca dos candidatos e de seus partidos, bem como acerca da conjuntura política, econômica e social no seio da qual a eleição se dá. Com as informações, os cidadãos podem pensar, refletir individualmente, debater (refletir coletivamente) e, então, escolher, ou seja, votar. É por isso que a imprensa é fundamental, pois difunde informações, as informações que basearão a reflexão, o debate e a fundamentação do voto.

Sem o processo informação/reflexão/debate/escolha do voto não se pode dizer que haja democracia.

Mas, quando há esse processo, de uma forma ou de outra, mais bem estruturado, ou menos, é preciso que os veículos de imprensa divulguem informações claras, buscando a objetividade e a isenção não no que diz respeito à se posicionar de forma neutra, o que é usualmente impossível, mas se posicionando ao mesmo tempo em que dá espaço para o “outro lado”, dando oportunidade à expressão do contraditório, pois que é pelo choque de ideias que se forma a boa ciência e a consciência política.

É claro que essa noção proposta é um tanto ideal, ou, dizendo de outra forma, é uma abstração que nos serve para orientação de como deve ser a atitude de um veículo jornalístico em relação à política. Na prática, sempre haverá imperfeições e críticas a ser feitas aos veículos, principalmente no que diz respeito ao agenciamento subjetivo que operam ao determinar agendas de pensamento e discussão e propor conteúdos bem articulados, mas nem sempre adequados para uma percepção ampla e crítica da realidade.

O problema maior, porém, talvez seja a tendência a eleger vilões, papel para o qual a imprensa se presta na medida em que divulga informações que agradam a uns e enfurecem outros. Afinal, cada um de nós gostaria, em nossos sonhos, de ter uma imprensa confiável, não exatamente para apontar nossos próprios erros, é claro, mas para fazer isso com nossos inimigos e/ou adversários, pois não há dúvida de que estão errados. Por outro lado, essa mesma imprensa confiável deve ter em boa conta os nossos atos, pois que estão evidentemente corretos.

Ótimo isso, mas, como bem se pode notar, isso não pode ser chamado de “jornalismo”. O nome certo da imprensa dos sonhos é "propaganda".

Um problema maior ainda está no fato de que, de algum modo, sabemos disso, mas somente costumamos usar o termo “propaganda” quando estamos diante de um veículo que se posiciona crítico em relação a nós. 

quarta-feira, 16 de março de 2016

Parece que o PT levou os "pixulecos", mas partidos de esquerda, como o PSOL acabarão pagando a conta

Para confirmar o dito em postagem anterior, que o PT afunda e leva a esquerda junto, observe o que diz um leitor do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba:
“Que os petralhas tem de desembarcar, tá certo! Mas que agora é a vez do psol ou qualquer outro lixo esquerdalha, nem pensar. Amanha [13 de março de 2016 – dia dos atos contra o governo petista], o povo nas ruas de todo o país vai dar o seu recado mais uma vez: fora pt, fora foro de São Paulo”.
Esse “estrago” em tudo o que tiver o selo “de esquerda” está feito. Por algum tempo, não se sabe quanto, mas provavelmente anos ou, na pior das hipóteses, décadas, tudo o que for relativo à esquerda será tido como “lixo esquerdalha”.

Isso necessariamente seria já assim de todo modo para alguns, usualmente os mesmos de sempre, mas não com a força que tem agora, por conta da sujeira de alguns petistas. E não alcançaria, ao menos com esse vigor que temos visto, o público em geral, a “opinião pública”. Em breve, sair com camisa vermelha na rua poderá se transformar em imprudência, como ocorre em algumas comunidades cariocas, nas quais a camisa vermelha está banida, por conta de sua identidade com quadrilhas e facções rivais, como no caso do Comando Vermelho.

O PSOL, por exemplo, a “esquerda” ascendente, terá que enfrentar dificuldades além das já esperadas por conta do papelão petista.

O fato é que o tesoureiro do PT levou algum pixuleco e foi em cana, o líder carismático Lula tentou ser mais esperto do que deveria e está na mira e o Dirceu quis levar uma vida de nababo e acabou assinando todos os BOs. Eles se deram mal, ou se darão mal, bem mal, parece certo. Mas dizem que há ministros que fazem parte de conselhos de estatais só para levar um jetonzinho e que não estão com o nome sujo na praça, ainda, embora isso não seja nada ético nem moral.

O PSOL, formado por pessoas mais jovens, ao menos no Paraná, não levou nada, ao que tudo indica. Mas, sendo parte do time da esquerda, vai levar a cruel e imbecil fama de “esquerdalha” sem a merecer, pois não entrou no esquema ou abraçou o Lula para defender o indefensável, como os aliados PDT e PC do B.


Desse modo, se já se previam dificuldades para o partido, agora estas ficaram mais sérias. É que mesmo os mais crédulos andam desconfiados com a esquerda e temem que o caminho trilhado pelo PT seja um modelo para os demais partidos dessa corrente política. Assim, se declarar “de esquerda” pode vir a ser algo assemelhado a pertencer a uma facção criminosa.  

PT afunda e leva a esquerda consigo

No fim das contas, fica a impressão de que o arrivismo, a ambição desmedida de se dar bem a qualquer custo, vendeu a esperança. Aquela mesma que tinha vencido o medo lá no distante ano de 2002... 

No mesmo dia, muitas emoções. Duas, no topo da lista. A primeira, que se esperava a estrela do dia, era a possível, ou provável, nomeação de Lula, o ex-presidente, para um ministério, pela atual presidente, Dilma Rousseff. Isso poderia o livrar do juiz Moro, mas não evitará que as investigações recaiam sobre sua família, principalmente sobre seus filhos. Mas, no fim do dia, eis que surge a segunda, uma verdadeira bomba: o depoimento de Delcídio do Amaral, ainda senador pelo partido do governo, o PT, que põe importantíssimos correligionários na linha de tiro, foi aceito pelo Supremo. 

O que se tem visto e se verá ainda por muito tempo é uma encenação clássica de um naufrágio anunciado. O partido do governo, que parece ter se enrolado demais nas teias dos “esquemas” corruptos tradicionais na máquina pública, vai afundando, como era previsto já em 2014, quando Dilma foi reeleita aplicando um golpe nos seus eleitores, que votaram nela esperando que as coisas tomassem uma direção, quando tomaram outra, logo depois da vitória nas urnas. 

De certo modo, é irônico que os militantes que defendem o governo gritem que não vai ter golpe. Na prática, o golpe já foi dado, mas pelo governo, quando da última eleição. 

Esquerda em apuros
O pior de tudo é o fato de que o PT naufraga e leva junto boa parte daquilo que se costuma chamar de “esquerda”, ou seja, as pessoas que militam politicamente com foco na igualdade ou mais, com o objetivo de buscar um aspecto menos animal do ser humano. Depois do vexame petista, com o fato cristalino que nos leva a conhecer melhor o envolvimento de seus grandes nomes com a corrupção, o cidadão comum vai recuar dois passos quando alguém lhe chegar com algum discurso de fragrância esquerdista. E isso pode significar o sucesso eleitoral do outro lado, da tal “direita”, aquele pessoal que não acredita nos ideais esquerdistas de melhoria do ser humano e que entende que quanto mais animalidade melhor. Afinal, vale tudo para movimentar o mercado e gerar os famosos “benefícios públicos”, pela via dos “vícios privados”. 

Na prática, sai quem diz que as pessoas devem ser mais iguais que desiguais e entra quem diz o contrário e não apenas prioriza a desigualdade como a estimula. Como “consolo”, é possível dizer que o pessoal do PT, que deveria não apenas dizer que luta pela igualdade, mas efetivamente lutar por ela, não fez tanto assim e apenas promoveu um irresponsável ambiente consumista, apenas isso. Na pauta dos petistas parece que houve mais ênfase no objetivo de melhorar de vida do que no de politizar e organizar para melhorar de vida e poder manter a melhoria. 

Arrivismo predominou
O próprio imbróglio que envolve o líder petista, Lula, mostra a mentalidade nouveau riche que orientou e, tudo indica, ainda orienta o time da estrela vermelha. Ele tinha e tem recursos próprios, legalizados, para comprar uma cobertura como aquela ou mesmo melhor e mais bem localizada do que aquela, mas, tudo indica, quis provar a si próprio e a sabe lá mais a quem, que é malandríssimo, que é muito mais esperto do que se imagina. Quanto ao sítio, nem se fala. Para que pôr a propriedade do aprazível recanto em nome de laranjas? 

Se for verdade que o líder Lula pensa, ou rumina, assim, o que dizer da influência disso sobre o resto da militância? Os bons exemplos precisam vir de cima, necessariamente, para serem mais eficazes.  

Segundo Noam Chomsky, que já foi um ícone no apoio e defesa dos avanços petistas no Brasil, o PT se perdeu no envolvimento com a corrupção, afunda e arrasta a esquerda junto ao fundo do poço. É lamentável, ainda mais se levarmos em conta como isso se dá. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A República de Weimar e nós

Thomas Mann descreveu o clima da Alemanha dos anos vinte. Foi o tempo da República de Weimar, não exatamente o tempo do nazi-fascismo, como li recentemente em um texto aqui, na internet. Foi no livro “A Montanha Mágica”, cuja trama se desenrola em um sanatório suíço. Ele escreveu algo assim:

“Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda. Uma impaciência indizível. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam todos os dias entre indivíduos ou grupos inteiros, e o característico era que aqueles que não tomavam parte nos conflitos, ao invés de se sentirem desgostosos diante da conduta dos respectivos adversários ou de servirem de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão. Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade para berrar. O premente desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os digladiadores, mas que elas próprias caíam, com espantosa facilidade, vítimas da tendência geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornava frequente no Sanatório Berghof”.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O mundo é dos imbecis e não adianta chiar


O personagem Homer
Simpson é o ícone dos
idiotas de todo o mundo 
O grande acontecimento do século [XX] foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota
Nelson Rodrigues

Pois é e o recém falecido Umberto Eco dizia que a internet, com suas redes sociais, dá direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes diziam o que queriam apenas nos bares, depois de bebericar alguma coisa, sem levar prejuízos a mais ninguém a não ser a si próprios e a seus infelizes interlocutores. 

Eco disse o seguinte: 
"Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel". 
E disse ainda mais. Segundo o intelectual italiano, o idiota já tinha sido alçado a um patamar inusitado pela televisão e, com a internet, promoveu-o a portador da verdade.

Há quem afirme que Eco era arrogante e que ao falar isso comprovava essa tese. Talvez sim, talvez não. Quem sabe? Afinal, costumo crer que o único ser que tem sempre razão, haja o que houver, é o imbecil. Os outros usualmente não a têm, quase nunca. Os sábios não costumam ter razão ou, se a têm, ninguém sabe, pois sábios costumam ficar calados.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quem leva o mérito pela queda de homicídios em SP? O governo ou o PCC?


Segundo o pesquisador Graham Willis, canadense que leciona
na Universidade de Cambridge, Inglaterra, o PCC é o principal
responsável pela notável queda de homicídios em São Paulo... 
Os homicídios caíram bastante em São Paulo na última década. O governo bate no peito e puxa para si os méritos. O governador fala nos policiais mortos, “heróis anônimos” etc. Aí, vem um pesquisador canadense, logo, aparentemente, sem vínculos de interesse político-partidário, que diz que o governo e a polícia não têm nada a ver com isso. Segundo ele, cujo nome é Graham Willis, a queda é resultado da regulação realizada pelo Primeiro Comando da Capital, o PCC, uma organização que congrega criminosos e nasceu, assim como o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, para combater os maus tratos nas cadeias. 

O que é, afinal, essa tal saúde? (4)


Cidades superlotadas com comércio intenso, esgotos a
céu aberto, crendices em excesso e pouca higiene: o
ambiente urbano na Idade Média era muito insalubre
Capítulo 4: A Idade Média, seus fantasmas e insalubridades

Se é possível definir de forma rápida o que foi assistência à saúde na Idade Média (476 d.C./1453) deve-se dizer que foi uma combinação do que foi lido nos textos médicos greco-romanos (1), como os de Galeno, e de crenças espirituais, Astrologia e curandeirismo por rezas e/ou plantas. Como se sabe, o ambiente medieval era recheado de todo o tipo de crenças e pautado pelo fundamentalismo religioso que, inclusive, podia levar pessoas a ser cruelmente torturadas e queimadas vivas.
Naquele tempo, compreendia-se que o adoecimento ocorria por fatores físicos, mas principalmente por questões relacionadas ao espírito, incluindo a feitiçaria, encantamentos, castigos por pecados cometidos e, é claro, a vontade de Deus, sempre presente a determinar o destino de cada humano

O que é, afinal, essa tal “saúde”? (3)


A serpente que morde a cauda, representa a imortalidade.
A metáfora é atribuída a Esculápio, mitológico Deus da Medicina
 
Capítulo 3: A Medicina na Roma Antiga

Os romanos aproveitaram muito dos conhecimentos gregos em tudo, inclusive na Medicina. Roma, o grande Império da Antiguidade, se fundou basicamente na cultura da Grécia, embora tenha desenvolvido saberes e práticas culturais com identidade própria, como ocorreu na terapêutica baseada em ervas, orações e cantos que caracterizava os primeiros socorros no seio das famílias romanas. Já no que diz respeito à Medicina Militar, essa influência parece ter sido marcante.
Os romanos continuaram a tradição médica grega de dar mais atenção a fatores naturais em detrimento de fatores espirituais, embora mantivessem, assim como os gregos, crenças e práticas diretamente vinculadas à espiritualidade e, é claro, a medicina não estivesse livre de influências como essa

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Errar é humano, mas repetir o erro é burrice... ou canalhice


Um sistema injusto que valoriza
o parasitismo e pune o trabalho 
Tomando como parâmetro a lógica referente à natureza e ao histórico da desigualdade econômica contemporânea, podemos dizer que atravessamos um momento difícil, mas de certo modo promissor.

É que parecemos ter chegado ao fim de um ciclo, aquele que começou com Tatcher, na Inglaterra, ainda nos anos 1970, e com Reagan, nos EUA, em 1980. E esse ciclo foi o da radical concentração de riquezas, do butim promovido pela aristocracia, cantado em prosa e verso desde muito tempo e que ganhou nomes como “neoliberalismo” e foi classificado como “Rebelião das Elites” etc. (1). Esse ciclo sucedeu outro, definido como keynesiano, no qual, para sanar os problemas gerados com a voracidade dos mais ricos, o Estado passou a intervir diretamente na economia, numa perspectiva distributivista.

É possível dizer que, na prática, o movimento chamado neoliberal buscou recuperar o suposto poder perdido pelos “super-ricos”, enunciando a retomada de um paraíso perdido, uma sociedade liberalizada na qual tudo funciona bem e cuja localização parece próxima do mundo das ideias de Platão, etérea e inexata como as coisas que somente existem na imaginação.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Classe Média Global consome aquilo que não alimenta o corpo nem o espírito


A Classe Média é, na verdade, uma multidão de consumidores,
anônimos até para si mesmos: as famigeradas"pessoas-massa"
A primeira coisa a ser considerada para se entender a contemporaneidade é que há uma força econômica levando à formação de uma nova classe social com alcance planetário, genericamente chamada de “Classe Média Global”, ou apenas “Classe Média”. Talvez não se possa precisar exatamente quando isso começou, quando essa força começou a agir, mas, com certeza, o final do século XX e o início do XXI trouxeram uma redução da pobreza global e maior acesso a essa tal classe média. 

Tudo indica que no primeiro ano do novo século algo em torno de 30% da população mundial podia ser classificada como “pobre”, enquanto, vencida a primeira década, esse número caiu para 15%, ou seja, teve uma redução considerável de 50%. Houve, assim, a ascensão econômica de milhões de pessoas que estavam fora do mercado porque não tinham renda nem crédito e passaram a ter. No entanto, segundo um estudo realizado pelo Pew Research Center (1), mais da metade da população mundial ainda vive com rendas abaixo da média. Mais precisamente, 56% vivem com menos de US$ 10 diários, ou seja, com renda inferior a R$ 1200,00, tomando como parâmetro a moeda brasileira (2). 

O que é, afinal, essa tal “saúde”? (Parte 2)


Hipócrates, o "Pai da Medicina",
compreendia a saúde como um
estado de harmonia do corpo
com o ambiente que o circunda
Capítulo 2: a Medicina Grega

Na publicação anterior, vimos como era a Medicina Egípcia na Antiguidade. O Egito foi uma civilização muito avançada surgida em torno de 3150 a. C. e que perdurou por três milênios. Seus avanços técnicos, tecnológicos e em conhecimentos, como os matemáticos e também os fisiológicos, foram vastos e há um registro fundamental, o Papiro de Ebers (1552 a. C.), que contém mais de 700 fórmulas para tratamentos terapêuticos diversos, inclusive para livrar residências de pragas. 

Os conhecimentos desse povo antigo em relação ao sistema circulatório, com a plena ciência da existência de vasos sanguíneos em todo o corpo e definindo o coração como o centro da circulação do sangue, são bastante avançados e a psiquiatria tem espaço na descrição de um mal bem parecido com o que hoje chamamos "depressão". Os egípcios também foram longe na arte do embalsamamento e compreendiam fundamentalmente que os agentes patogênicos estariam no ambiente e atacariam o corpo, que nasceria, em tese, são e livre de males. 


No Mundo Antigo, particularmente na Grécia, havia a noção de que o equilíbrio é fundamental em tudo, inclusive na saúde e doença
Agora, que tal falar de outros povos antigos, que demonstraram bastante sapiência no que diz respeito aos cuidados com a saúde? Falemos, então, da Medicina na Antiga Grécia. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

2016 parece trazer um quadro negro, então precisamos desenhar e/ou escrever algo nele


Março de 1983: milhares de desempregados sacodem São Paulo
e derrubam as grades do Palácio dos Bandeirantes em meio à
recessão que antecedeu fim da ditadura militar (imagem do
texto de Boulos no interessante portal "Outras Palavras")
Estou ficando fã do articulista Guilherme Boulos, é certo. Tenho acesso a seus textos através do portal Outras Palavras, que costuma publicar algumas coisas boas nascidas no lado esquerdo do pensamento político. 

No texto de Boulos que li, agora há pouco, o bom analista político traça, rapidamente, um rico mapa da conjuntura brasileira. Nele, estão dispostos os territórios bombásticos da política, que devem se manter, segundo Boulos, bastante semelhantes a como foram em 2015. Na twilight zone do mundo político/midiático, vai se manter no ar a novela do impeachment e, infelizmente, continua a série dispensável na qual Cunha exibe nacionalmente sua falta de escrúpulos em criar expedientes para salvar a própria pele. É de mau gosto, mas, afinal, trata-se de legítima defesa. Há quem diga que no horizonte do presidente da Câmara o sol poderá, em breve, nascer quadrado.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Muito além de más escolhas estratégicas


Lula & FHC: mórbida semelhança
Tomo a liberdade de recomendar a leitura do texto "Pau que bate em Luiz bate em Fernando?", de Guilherme Boulos, publicado no dia 04/02/2016 no portal Outras Palavras

O texto é interessante e concernente, em parte. Chama a atenção para a ausência de investigações acerca da atual oposição. Os tempos tucanos, apesar de já terem sido denunciados suficientemente em suas mazelas, como no livro da Privataria Tucana, que, cá entre nós, não recebeu repostas convincentes do time atacado que, aliás, parece não ter se preocupado muito em se defender. Como sugere o articulista, a impressão é a de que realmente os políticos da oposição, principalmente os tucanos, segundo se diz, não receberam e não parecem tender a receber a mesma malícia que os da situação, como o ex-presidente Lula, têm que enfrentar. Isso parece verdadeiro. 

No entanto, é preciso ponderar algo mais. E o articulista o faz, a seu modo, criticando as “escolhas estratégicas” de Lula. Sim, as escolhas citadas merecem críticas ferozes, pois real e indubitavelmente, Lula e o PT não estão fazendo mais do que colher o que plantaram, conforme reconhece Boulos. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O que é, afinal, essa tal "saúde"? (Parte 1)


O Papiro de Ebers (1552 a. C.) contém mais de 700 fórmulas
para tratar desde unha encravada até mordidas de crocodilos,
além de receitas para livrar as residências de moscas, ratos
e escorpiões e descrições de males como diabetes, tracoma
e artrite. Traz, ainda, uma descrição surpreendentemente
precisa do sistema circulatório, incluindo a existência de
vasos sanguíneos em todo o corpo e o coração como o centro
da circulação do sangue. Até mesmo a psiquiatria tem espaço,
com uma descrição do que hoje conhecemos como "depressão".



Capítulo 1: A Medicina Egípcia

Definir o que é “Saúde” é tarefa difícil. Há inúmeros aspectos a ser considerados e as definições costumam variar de tempo em tempo, de lugar para lugar. A proposta deste texto, dividido em capítulos, é introduzir elementos para auxiliar a quem se interessa pelas concepções do que seja a “Saúde” no percurso da história.

Seguindo uma ordem cronológica, começamos pelo Antigo Egito.

Uma civilização avançada para sua época
Localizado no Norte da África, no vale do Rio Nilo, o Antigo Egito compunha um complexo de civilizações localizadas ao longo daquele vale. Data de aproximadamente 3150 a. C. o seu surgimento, tendo se desenvolvido nos três milênios seguintes. Sua história é, assim, longa e complexa, sendo impossível abordá-la de forma completa em poucas linhas.
A Medicina egípcia trabalhava com a noção de um corpo humano nascido saudável, mas que adoecia e morria por interveniência de agentes externos 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Previsão do tempo: “Tempestade Perfeita” atingirá economia dos BRICS em 2016 (1)


Mapa da "Tempestade Perfeita" prevista pelo Banco Mundial
O céu está carregado para os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e a tempestade que começou há pouco tende a se perpetuar por bastante tempo. Ocorre, já neste momento, uma “desaceleração sincronizada” nesses países, que deve, por ser sincronizada e, logo, harmoniosa e com forte movimento de inércia, ir longe, bem longe.

Os BRICS são os países ditos emergentes no mundo capitalista, que vivem não totalmente na periferia, mas quase. Dependem uns dos outros para manter o status de “emergência”, nos dois sentidos do termo. Há cinco anos, a economia desses países vem dando sinais de desaceleração, ou seja, não vem crescendo o suficiente para se sustentar e suprir as necessidades dos trabalhadores e da sanha dos financistas. Como no cabo-de-guerra entre esses dois grupos há uma situação comparável a um anão enfrentando um gigante, os financistas não apenas não perdem, o que usualmente ocorre com os trabalhadores, como ganha e, dependendo da estratégia, ganha muito. E tirando de quem? Adivinhe.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Rio de Janeiro continua lindo, já os seus governantes...


Considerada uma das cidades mais belas do mundo, o Rio
conta com governantes que não têm dado belos exemplos...
Dizia uma música da década de 1970 (1) que “O Rio de Janeiro continua lindo”. Principalmente quem tem mais de quarenta anos deve lembrar, mas os mais jovens certamente já ouviram falar ou cantar. 

E o Rio continua lindo, ainda hoje, com certeza. Mas, deve muito pouco ao poder político para isso e muito menos ainda aos eleitores que elegeram os protagonistas da situação de calamidade que hoje define o estado e a sua capital.

Os atuais principais governantes fluminenses e cariocas formam um grupo que domina o cenário político há quase dez anos. A esse grupo, os críticos mais exaltados chamam até mesmo de “quadrilha”, mas não daquela de típica das Festas Juninas, é certo. E, felizmente ou infelizmente, se temos o interesse de conhecer alguém no campo político, devemos ouvir com atenção aos críticos, antes de dar ouvidos aos elogios dos amigos e aliados.