quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre as fantasias e sentidos em torno de uma carta


Imagem de um passado feliz
que talvez não mais se repetirá
Quando as fantasias assumem o controle, a realidade é torcida e distorcida de acordo com o desejo, a força motriz crua das paixões. Usualmente, muita gente pensa e age de acordo com suas fantasias e tece análises e teorias fundadas quase que totalmente nelas. Nesses casos, o velho adágio que dita que a observação da realidade deve pautar o pensamento é invertido e o pensamento acredita que pode ditar a realidade. Em outros termos, é como se o mapa, num momento de loucura, começasse a acreditar seriamente na sua originalidade em relação ao território, isto é, seria o terreno real que existiria para representar o mapa. 

Para mim, isso é o que tem recorrentemente ocorrido quando se fala da tal carta de Michel Temer, o vice da Presidência da República. O que se tem dito de sandices não é normal, fora as inevitáveis e divertidas piadas, estas saudáveis, porque trabalham com o humor criativo. A carta é uma peça que se oferece, como um fetiche, para a suposta dissecação das intenções do vice. Tudo indica que tenha sido astutamente criada para cumprir essa função, fato que nos remete a uma inteligência sutil que parece estar contida na carta. 


O controle da imagem
Uma das atribuições do ser social é procurar produzir determinados efeitos na realidade que determinem uma determinada imagem dos demais em relação a si próprio, de modo a que possa controlar essa imagem e fazê-la funcionar a seu favor. Isso é coisa que se faz o tempo todo, com ações diversas, codificações micropolíticas, produções de representações etc. A forma de vestir, de pentear o cabelo, de cortá-lo, os lugares frequentados, as coisas ditas, posições políticas, preferências estéticas etc., tudo isso compõe a estratégia de cada um para se postar no mundo e sugerir aos outros seres sociais como se quer ser visto e entendido. 

No caso de um político, isso deve ser meticulosamente estudado e controlado, de forma a que sua imagem possa ser manipulada principalmente por si próprio, sabendo que jamais será manipulada unicamente por si próprio, pois boa parte dessa imagem não lhe pertence. O segredo é saber o que fazer com a imagem que os demais fazem de nós, não evitar que eles o façam, até porque isso é impossível. 


As piadas tomam conta das redes sociais,
tanto com relação ao impeachment como
com relação à polêmica carta de Temer
A carta 
No caso da carta de Temer, o caso me parece claramente o de uma ação premeditada que teria pelo menos dois níveis de ação: o de influenciar discretamente a destinatária da missiva, no caso a presidente Dilma Rousseff, ou, considerando que essa carta pode se tornar pública, o de sugerir ao público uma imagem do seu autor. Nesse plano, as piadas e brincadeiras, que predominaram ontem, quando a carta se tornou assunto, são o sinal de que a estratégia pode ter dado certo, ainda mais que houve mais piadas do que ofensas contra Temer. As críticas e ofensas parecem vir de pessoas comprometidas, seja por que motivo for, com Dilma e o governo, que claramente, na medida em que a carta se tornou pública, passaram a ser o alvo atingido pelas palavras do vice-presidente. Nesse sentido, os estridentes protestos de alguns analistas denotam mais os interesses pessoais e/ou partidários do que propriamente algum tipo de pensamento que se deva levar seriamente em conta.

Das análises publicadas, em termos de profundidade e qualidade, destaco a de Luis Nassif, que não “cai de pau” de forma desarvorada e tola, como outros, e oferece uma baliza importante para se pensar a realidade política deste momento, embora claramente se posicione a favor de deixar tudo como está, pois Dilma teria vida pública ilibada e porque o impeachment, da forma como foi iniciado o seu processo, é golpe e coisas assim. É uma posição aparentemente honesta, manifestando uma forma de entender a realidade que eu diria válida, porém, é claro, não abarca tudo e há outros tópicos a considerar. 

Considerações sobre a carta como documento político
Considero que a carta não parece ser, exatamente, obra de um homem, mas de uma entidade maior ou, pelo menos, sua lógica e sua potência se inserem em um contexto mais amplo do que o das meras ambições isoladas de um homem. 

Considero, também, que a carta, do modo como foi escrita e de acordo com seu conteúdo, não é agressiva e fala de uma realidade conhecida por todo aquele que conhece ao menos 1% do que ocorre nos corredores do alto poder da República, em Brasília. Não é uma peça eivada de mentiras, de insultos ou coisas do gênero. Está escrita com bom português, embora na cópia que li faltasse pelo menos um acento, e é clara e fluente. E, como está dito na epígrafe da missiva, o que valem são as palavras escritas, pois são elas que ficam ao se constituir como documentos palpáveis. A história se constrói com documentos como esse, não tanto com fofocas ou algum diz-que-diz-que. 


Dizem que a presidente e seu vice
sempre tomaram caminhos opostos
Considero, em terceiro lugar, que o vazamento da carta vem reforçar o escrito na sua própria epígrafe, como se seu autor previsse o vazamento (alguns chegam a afirmar que o próprio autor a vazou, fato não confirmado), e não significa, a não ser em hipótese, que Temer esteja flertando com o golpismo. Ele é o vice-presidente e sabe que, na atual situação, a sua condição está acima de manifestos interesses pessoais ou partidários, que estão habilmente presentes na carta e, ao estarem ali, acabam resguardados sob a condição de ali constarem por conta de um desabafo pessoal, não de uma manifesta estratégia política fundada no “dando que se recebe”, já que Temer não anuncia seu rompimento com Dilma ou oposição ao governo: se diz, apenas, contrariado com o que considera um tratamento cheio de descaso, como fica emblemático no trecho em que se declara surpreso pelo fato de não ser chamado para um encontro da presidente com o vice estadunidense, ocorrido ano passado. 

Suposições frágeis
Mesmo o sensato Nassif, quem sabe por tática para conseguir ser melhor entendido ou para defender seu ponto de vista, o de que se deve deixar o governo medíocre de Dilma ir até o fim (ele próprio classifica assim o governo), supõe sonhos para Temer, entre eles o de ser o líder natural de uma mudança que, segundo o jornalista, seria “um salto no escuro” juntamente com a “ultradireita e a escória política”. Nassif supõe e até pode estar certo, mas ao declarar isso, se expõe e expõe, ele próprio, sua intenção férrea de defender com unhas e dentes o mandato de Dilma, supondo, numa falácia lógica argumentativa, que um fato, a saída de Dilma, levaria a outro, a ascensão da tal escória política, e outro ainda, a piora radical da economia. 

Ambas as suposições são frágeis. 

A primeira, porque a noção de escória política se espraiou de tal modo que, hoje, contamina de forma grave o governo. Não se sabe exatamente se a reputação ilibada de Dilma é fake ou real e a de Lula, que até um certo momento da história brasileira era também ilibada, ou quase, já vai rolando a ladeira e pode terminar nos salões dos tribunais. A provável delação do senador Delcídio pode ser desastrosa para Dilma, Lula e boa parte do séquito petista empoleirado no poder federal. As línguas viperinas juram que bem se pode esperar que José Dirceu acabará seguindo o mesmo caminho, pois foi claramente abandonado pelos “companheiros”. 

Com tudo isso, e o que já se descobriu nas investigações da “Lava Jato”, não se sabe, assim, de que escória se está falando. 

A segunda diz respeito à piora da situação econômica e a falácia está no fato de que é muito difícil afirmar que uma troca no poder representaria um mergulho na recessão ou na depressão, ou numa desorganização profunda e radical. Na prática, já estamos mergulhados em uma recessão tão grave que se revelará como depressão em pouco tempo e a desorganização é profunda e radical ainda hoje e, pior, com o suposto governo dos trabalhadores agindo cada vez mais em defesa do grande capital, como, aliás, agiu durante a maior parte do tempo nestes treze anos. 


Post que circulou pelo Facebook ano passado
faz alusão à queda de Dilma e a uma suposta
e inevitável posse de Temer como presidente
Golpe de quem? 
As fantasias muitas vezes tornam obnubilada a percepção da realidade, mesmo em sujeitos racionais e bem intencionados. Resta saber se é Temer que anda fantasiando de forma distorcida a realidade, “flertando” com o golpe, conforme alguns dizem, ou se é Nassif e outros que estão fazendo isso. Alguns deliberadamente para enganar o público, outros porque estão, eles próprios, enganados. 

E se falarmos em golpe, também temos que definir de que golpe estamos falando. Não é útil esquecer que Dilma se reelegeu com propostas absoluta e completamente diversas das ações que implementou depois de eleita e com uma propaganda política inspirada na lógica fascista do bem contra o mal. 

Golpe por golpe, ambos, os petistas e seus opositores, parecem ter a mesma identidade e práticas muito semelhantes. Eu diria até que, em se falando de golpe, a eleição de 2014 mostrou que os petistas são melhores nisso do que seus oponentes, que agora batem cabeças para emplacar o golpe do impeachment, o que só conseguiram, aparentemente, por conta da malandragem inata e hereditária do presidente da Câmara, que, assim, conseguiu diminuir um pouco os focos sobre sua cassação. 

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