quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Seremos, afinal, zumbis que comem lixo e lucram com a desgraça dos outros?



Se inadvertidamente você se identificar com um dos nada
simpáticos tipos acima, não se assuste. Isso pode ser mais
plausível do que você jamais imaginou. Os zumbis podem
ser a imagem mais fidedigna do cidadão contemporâneo...
A alimentação é fundamental. Há três elementos que são básicos, absolutamente necessários para a vida e o alimento, alimento de verdade, é um deles. Os outros são o ar, o oxigênio, e a água. De modo direto e claro, os seres vivos precisam ter garantido esse tripé para sobreviver. No entanto, há seres, no caso seres humanos, esses que deveriam ser melhores do que os animais (pois certamente assim se creem), mas que dificultam o acesso de outros seres, humanos ou não, a alimentos e, principalmente, a alimentos que realmente alimentem (atitude que certamente os coloca em posição bem inferior à dos animais). 

E por que fazem isso? Dizem que pelo impulso “saudável e natural” de se dar bem em tudo. 


Para compreender e explicar esse impulso, Fukuyama certamente falaria em thymus, como o fez no seu livro no qual decreta o fim da história. Esse conceito, cuja origem parece ser grega (θυμός), tem um significado parece ser algo próximo de “paixão”, mas também de “ira” ou, aproximadamente, uma força que impele à ação. Essa compreensão leva em consideração uma percepção de natureza humana fundada nesse impulso, dito como vital, e que fundamenta toda a lógica liberal de ordem socioeconômica. A competição, base de todo o edifício econômico liberal, só pode ser efetiva se você acreditar que o thymus governa o comportamento humano. Em outros termos, nessa lógica, somos irrevogavelmente animalescos e a ordem socioeconômica existe para canalizar nossa animalidade individual para a prosperidade coletiva. Aproximadamente como acontece na famosa Fábula das Abelhas, de Bernard Mandeville, talvez a melhor representação figurativa desse tipo de imaginário social. 




Uma campanha publicitária do cigarro
Vila Rica, estrelada pelo ex-jogador de
futebol Gerson, enfatizava a regra na qual
a obrigação é "levar vantagem em tudo".
Assim nasceu a chamada "Lei do Gerson":
"Gosto de levar vantagem em tudo, certo?",
se gabava o ex-atleta que atuou no Botafogo
e no Fluminense. Isso há 39 anos. A campanha
foi criada pela agência Caio Domingues &
Associados e financiada pela J. Reynolds, a
proprietária da marca Vila Rica.
O cassino dos psicopatas
O fato é que esse tal thymus, se é que se pode falar nele impunemente como causa de todo o darwinismo social proposto pelos liberais e neoliberais, tem levado a dificuldades graves no que diz respeito à qualidade de vida da população humana. Os interesses relacionados estritamente ao lucro, ou seja, ao ganho pessoal e individual, localizado, em detrimento do coletivo, têm causado sofrimentos desnecessários a muita gente. A manipulação dos produtos alimentares, como a transgenia e a produção de alimentos ultraprocessados (que na verdade não são alimentos porque não alimentam), não atende à maioria da população, mas apenas a poucos, aqueles que não se alimentam de transgênicos nem da junk food ultraprocessada. Esses, no caso, ganham dinheiro prejudicando a saúde de pessoas como eles, mas que, no entanto, provavelmente não são consideradas assim por eles.

Ontem, falei da psicopatia inerente ao comportamento de sucesso em um mundo que permite que grandes empresas e corporações ofereçam lixo para que as pessoas comam e chama esse lixo de comida. Toquei no assunto do mercado de derivados relacionados a alimentos, que surgiu aparentemente para proteger os produtores da instabilidade climática e mesmo mercadológica e também para resguardar os consumidores da variação de preços que pode ocorrer por conta dessa instabilidade, mas que foi transformado em mais um cassino de especulação financeira. 

Hoje, relendo o que escrevi e retomando os pensamentos de ontem, entendo que é inaceitável que se possa viver em uma sociedade na qual o psicopata é o herói e o modelo a ser seguido. 

Ganância por lucro aposta prioritariamente na comida lixo e no adoecimento
Há ramos da atividade humana nos quais o objetivo de lucrar jamais pode ultrapassar o sentido próprio da referida atividade. O ramo da alimentação é um deles e o da saúde, da assistência à saúde, é outro. No caso da produção e oferta de alimentos, se o lucro excede o objetivo de efetivamente alimentar, surge a junk food e seus produtos que não apenas não alimentam, como causam males terríveis ao corpo e, consequentemente, à mente. No caso da assistência à saúde, quando o objetivo de lucrar é maior do que o de prestar essa assistência em prol da pessoa doente, o que ocorre é o agravamento do estado patológico, com sua manutenção como forma peculiarmente perversa de faturar. 




A junk food (comida-lixo) não alimenta e ainda faz mal. Porém, é
para muita gente algo como os quitutes de um banquete. Isso não
acontece à toa: há um processo de doutrinação do paladar em curso.
Desde muito cedo, somos seduzidos a gostar de certos sabores e a
priorizar o sabor em detrimento do teor alimentar do produto, vide
o sucesso das redes de fast-food, que não é nada além de junk food
Não sei se podemos dizer que a sociedade está tão doente assim (a ponto de promover a má alimentação e sabotar a saúde em nome do lucro de poucos) por conta do sistema capitalista ou da ideologia liberal e neoliberal. Não sei se é possível fazer essa ligação. Creio mais que haja uma grande e poderosa quadrilha, um grupo de pessoas que transcende a essas pessoas e se configura como uma espécie de mau espírito, aético e amoral, que usa não apenas a alma dessas pessoas como alimento vital, mas que exige delas mais do que a própria alma, mas a de todos os que puderem ser alcançados pela influência dessas pessoas. Algo como uma neoplasia tenebrosa e letal que atinge a muitos e causa não diretamente a morte, mas algo como a morte em vida, o que é, convenhamos, talvez mais terrível do que efetivamente morrer. 

Os zumbis somos nós
Quem sabe seja por algo assim que se tornaram moda os filmes de zumbis. Quem sabe seja porque somos incentivados a sermos algo próximo de zumbis, isto é, de mortos-vivos (ou vivos-mortos, tanto faz), que toleramos esses filmes tão toscos e pouco imaginativos. Talvez as histórias de zumbis tenham a função de oferecer uma espécie de anestesia acerca da experiência diariamente tenebrosa de andar pelas ruas e observar tantos mortos-vivos andando para lá e para cá, muitas vezes com rumos ditados por outrem, sem que haja muito sentido nesses rumos. Talvez assistindo essas mesmas histórias na TV possamos esquecer de que vivemos numa realidade na qual essas histórias são demasiadamente reais (1). 

Assistir a uma realidade angustiante acontecer a outrem muitas vezes nos tranquiliza e se essa realidade está próxima demais de nós, assistir a uma encenação baseada nela pode ser até mesmo uma fonte de prazer. Afinal, pode nos dar a consciência de que não estamos sós. 

Talvez não sejamos esses monstros, ou talvez ainda não tenhamos chegado a esse estado lamentável, mas creio que estamos próximos disso. O fato é que parecemos trilhar esse triste caminho, pois os modelos oferecidos e os rumos que se mostram mais atraentes levam a algo assim. 

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(1) Talvez a diferença entre os zumbis citados esteja no fato de que os zumbis dos filmes vivem para comer seres humanos vivos e, no caso da realidade, os zumbis seres humanos vivos vivem para comer porcarias, pelas quais pagam e, não raramente, pagam caro, ou muito caro, se considerarmos a relação custo/benefício. Nesse sentido, os zumbis dos filmes são um pouco mais espertos. 

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