quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sem transcendência e com egos gigantescos, cumprimos metas que nada nos dizem


E, assim, vamos subindo na escada cujos degraus são metas
a serem alcançadas. O problema é que essas metas nos são 
impostas de fora, sem qualquer relação com algo que possamos
chamar de nosso, embora, graças a um engenhoso mecanismo
gerador de ilusões, temos o hábito de considerá-las como 
intrinsecamente nossas, da nossa mais genuína autoria
Voltando ao livro “O Homem Deus” (L’Homme-Dieu), de Luc Ferry, datado de 1996, mas apenas publicado no Brasil em 2007, proponho pensar no “sagrado”, pois, segundo o autor, o sagrado inspirou a cultura humana em sua totalidade e em suas diversas partes. É uma ideia interessante e que dá um toque menos macabro na lógica que afirma a cultura humana como resposta à morte, simplesmente. Ao se inserir o sagrado nessa equação, fala-se de uma perspectiva que vai para além da morte, isto é, uma perspectiva de um além do fim. 

O sagrado está relacionado ao religioso e os sentidos do conceito de “religião” nos auxiliam, pois falam de duas noções: a de releitura (relegere) e a de religação (religare). No primeiro caso, está em jogo a releitura de textos religiosos e no segundo, a busca de uma religação com a divindade ou com os antepassados. A primeira teria sido defendida por Cícero (Marco Túlio Cícero – 106 a.C./43 a.C., filósofo, orador, escritor, advogado e político romano) e a segunda teria o etimologista brasileiro Silveira Bueno como prócer. 


O Sagrado, seja qual for o sentido que se escolha, remete à transcendência e é isso que nos importa agora. Já a Ciência, o grande ícone que governou o Ocidente por alguns séculos, não admite, na prática, a transcendência e, assim, não nos diz como deve ser o mundo, mas como ele é, o que não nos ajuda muito em nossa localização (ou territorialização, para usar um termo de Deleuze e Guattari) no mundo. Saber que os corpos caem por conta de uma força denominada de “gravidade” não me diz nada além de que os corpos caem por conta de uma força denominada gravidade. É um conhecimento que se anula no momento em que é formulado e não tem qualquer valor ético, moral ou transcendente. 

Indivíduo é produto de massa e um ego maior que a inteligência pode ser fatal
Ferry afirma que as religiões ajudaram a humanidade a se situar no mundo e que, durante o transcorrer da história humana, na mesma medida em que houve uma transposição dos valores coletivos para os individuais, o elemento religioso foi paulatinamente substituído por práticas e técnicas especialmente criadas para cumprir as mesmas funções que as religiões tinham. A psicoterapia é um bom exemplo, qualquer tipo de psicoterapia. 

Nas páginas do livro, inúmeras vezes o autor nos convida a pensar acerca da história individual e recordo Felix Guattari quando trata do mesmo tema e afirma que o indivíduo é sempre uma produção de massa, ou seja, é moldado de fora, não um produto de autoria do próprio sujeito. A falácia da noção de indivíduo autônomo, aliás, é bem desmantelada quando podemos perceber que tanto os sucessos quanto os fracassos dependem mais da herança cultural do que propriamente de algum talento pessoal. Isso desmascara a pretensão de alguns indivíduos que defendem coisas como os direitos autorais ou preceitos semelhantes. Aliás, quando entendermos realmente isso, o mundo se tornará mais saudável, pois os egos poderão se livrar de um peso que, ao contrário de confortar, açula o sofrimento. 

Por quê? Simplesmente pelo que minha amada mulher costuma dizer: é prejudicial ter o ego maior do que a inteligência. Quando isso ocorre, é inevitável cometer sandices que podem pôr em risco a sanidade e/ou a própria vida. Depois, o ego gosta de afagos e, ao se viciar nisso, já que é maior do que a inteligência, incorrerá em inevitáveis erros quando não houver afagos. É um risco grande alimentar e engordar excessivamente o próprio ego, pode ter certeza. 

Aliás, o autor lembra que o sujeito não é aquilo que se deve salvar, mas aquilo de que devemos nos salvar. Pode-se dizer exatamente o mesmo em relação ao ego, que é, aliás, o núcleo duro do sujeito. 

Metas constantes significam ansiedade permanente
A questão das “Metas” no mundo contemporâneo também é abordada por Ferry, já que tudo hoje é orientado pelas tais metas. O curioso disso é que, apesar de nada fazer sentido, principalmente com a ausência do sagrado na nossa vida, temos sempre alguma meta a alcançar, o que nos coloca numa situação de tensão e ansiedade constantes. Efetivamente, isso não é nada inteligente e as empresas estimulam essa burrice ao extremo. 

Somente num mundo centrado no sujeito, na fantasia de autonomia do ego (ou “eu”) é possível pensar em metas como parâmetros de ação e de vida. Tratei disso em minha dissertação de mestrado, relacionando essa prática à matematização do cotidiano, ou seja, tudo é quantificável e os números fornecem parâmetros para que se estabeleçam objetivos e metas, sendo que podemos “nos divertir” calculando o quanto falta para alcançarmos determinada meta. Um bom exemplo está relacionado às dietas de emagrecimento, nas quais os números das balanças guiam nossos atos e mesmo boa parte de nossas vidas. 

Atenção
Lembro, antes de terminar mais este breve texto inspirado em temas postos por Luc Ferry no livro citado, que não estou fazendo uma resenha, mas apenas tentando pensando junto com você coisas importantes para nossa vida. Continuamos mais tarde. 

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