terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Para entender a realidade é preciso pensá-la sem paixões partidárias


Na prática, o debate político está se dando em boa parte como
guerra de torcidas organizadas: muita gritaria, pouca razão
A conjuntura política brasileira parece ser de mudança. Não uma mudança superficial, de um grupo alocado no poder para outro, ou de partidos, siglas ou filosofia administrativa. Há uma transformação em curso que não pode ser captada no âmbito da guerra de torcidas que tem caracterizado o debate político. Dizem ser um golpe de Estado em curso e dizer isso não é absurdo, embora não se possa ter certeza acerca de quem está dando o golpe.

O fato é que parece haver uma ordem por detrás dos movimentos de ataque e fuga que têm caracterizado o “diálogo” entre governo e oposição. Curiosamente, se há um golpe, parece ser um golpe multifacetado, como se houvesse vários exércitos buscando ocupar um território. Talvez isso se dê por estarmos em um movimento estrategicamente crucial para alguns grupos políticos, no qual se ocupam posições, travando batalhas no conjunto de uma grande guerra. Talvez essa seja apenas uma aparência adequada e convincente para ocultar o verdadeiro ou verdadeiros atores do tal golpe.


Observemos, então, a realidade política por partes básicas para que, quem sabe, em uma oportunidade futura, se possa pensar além dos brados dos torcedores e perceber afinal que transformação está em curso: se não passa do tal golpe que os governistas dizem que não vai haver ou se é algo além do imaginado. 

Vinte anos hoje
Há uma crise econômica e política, mas não creio ser possível dizer que uma começou antes da outra. De forma latente, ambas estão entre nós há muito, muito tempo, pelo menos duas décadas, pelo menos da forma como se apresentam hoje. Talvez haja quem levante o dedo e diga que essas crises começaram em 1500, mas isso não ajuda muito a não ser a nos lembrar que o Brasil é política e economicamente frágil e que muitos exploram exatamente essa fragilidade para se dar bem e manter suas posições de destaque e status. Vamos, então, compreender que vivemos historicamente num atoleiro político e econômico, num Estado sem compromissos com o coletivo e amarrado a interesses privados, e tentar começar a pensar a nossa conjuntura específica deste momento.  

A crise momentânea não é, assim, de autoria exclusivo do grupo da atual presidente. Dilma e seu time já fizeram muitas besteiras, até mais do que teriam direito, mas muitas foram motivadas pela pressão resultante de besteiras feitas antes, por outro grupo, o de Lula. Mas, não apenas, embora a “herança maldita” recebida por Dilma & Cia seja possivelmente bem mais drástica do que a recebida por Lula de FHC, sem que se retire a potência negativa desta. 

Um breve resumo da ópera
De certo modo, a maior parte do tempo Dilma passou tentando administrar as besteiras que Lula foi fazendo durante seus oito anos de mandato: 

- endividamento, com a quintuplicação da dívida pública; 
- explosão de gastos com comissionados, com ocupação de postos teoricamente do Estado por membros do governo; 
- explosão de gastos com o favorecimento de meia dúzia de empresários, que conseguiram, apesar de bilionários, incentivos até mesmo de bancos como o BNDES, uma instituição de fomento do desenvolvimento social que virou caixa de repasse de recursos a amigos do poder; 
- distribuição de esmolas para a população mais pobre, sob o nome de Bolsa Família, no valor de R$ 77 reais mensais, com um resultado próximo daquilo que Ferreira Gullar disse ser “uma compra de consciência”, aproveitando o desespero e a ignorância dos bolsistas, que não sabem, é claro, que recebem um tostão, enquanto outros faturam do governo um bilhão – embora seja correto dizer que o programa Bolsa Família é bom e foi um alicerce importante da popularidade do governo e um auxílio fundamental para salvar a vida de muita gente pobre, o que não significa que devamos fechar os olhos para o fato de que foi uma esmola, se comparado ao repassado para os mais ricos;
- incentivo unicamente ao consumo e desmobilização dos grupos organizados da sociedade, salvo aqueles vinculados a instituições políticas ligadas ao grupo do governo, no espírito que aqueles que ocupam o poder chamam de “revolução gramsciana”, uma espécie de projeto de tomada do poder lento, com paciência, determinação e pressão popular na busca da hegemonia cultural; 
- falando em hegemonia cultural, o governo promoveu uma espécie de reforma educacional generalizada que, porém, não primou pela qualidade, muito pelo contrário – proliferaram cursos não presenciais, com baixa qualidade e objetivos limitados, basicamente voltados para o mercado de trabalho, tornando a formação acadêmica ainda mais superficial do que já vinha sendo e formadora de autômatos para, como já dito, serem despejados no mercado de trabalho e, é claro, no mercado consumidor, já que seus salários deverão ser, quase automaticamente, convertidos em bens de consumo não duráveis;
- incentivo à oferta de empregos basicamente de baixa qualificação, empregando a massa trabalhadora mais para lhe conferir acesso ao consumo do que para lhe facilitar a politização; 
- corrupção generalizada, no melhor espírito “Eu hoje vou me dar bem”, que está mostrando que o PT não pode ser chamado, efetivamente, de “partido de esquerda”, a não ser que se deturpe o conceito e se compreenda que “esquerda”, agora seja a definição de quem trabalha pela distribuição de renda apenas para os amigos, oferecendo migalhas para o vulgo, mais no espírito populista do que no revolucionário comunista - o erário, assim, virou caixa de campanha ou cofrinho de poupança de meia dúzia de malandros e as investigações da Lava Jato mostram isso e muito mais. 
Se classifiquei tudo isso de besteiras, posso também dizer que essas besteiras foram vantajosas para Lula e seu time. Na prática, ficou a boa memória de um tempo bom, de florescimento do mercado interno, de retirada de milhões da miséria, de projeção internacional de um dirigente saído do chão da fábrica, autenticamente “um brasileiro”, como no livro e no filme. Ainda que se possa destruir sua imagem para muitos, com a crescente percepção de que Lula enriqueceu a si, à família e a alguns amigos já milionários, usando, para isso, o dinheiro que deveria ter sido destinado à população que recebeu apenas esmolas – embora tenha sido importante a esmola dada, o que dá uma noção clara do que se poderia fazer oferecendo mais que esmolas.

A inveja é uma merda mesmo
Lula costuma ser bem avaliado por todos, ou quase. Há muita gente que o odeia e o mataria com as próprias mãos, mas mesmo esses reconhecem algo nele e não está descartada a hipótese de que esse reconhecimento seja um dos motivos para o odiar mais ainda. Afinal, a inveja é um sentimento fortíssimo e absolutamente destrutivo e, não raro, é dirigido mais contra virtudes imaginárias do invejado do que contra qualidades reais. 


Dilma, Lula, Serra, Aécio & Alckmin: personagens de uma comédia
na qual todos têm, como diferença, no máximo o formato do nariz,
mas se acusam mutuamente e juram ser diferentes uns dos outros 
Em boa parte, Lula é invejado por ser um sujeito sem estudos acadêmicos, sem diploma, a não ser honorário, e que, mesmo assim, chegou ao posto mais alto da República e foi reconhecido mundialmente como um líder carismático. Tanta gente com estudo e dinheiro sonha com isso, mas foi um ex-operário que conseguiu realizar o sonho. Assim, mesmo os que o odeiam o avaliam bem, muito bem, idealmente bem. Por ser Presidente da República, qualquer um já seria invejado; mas, sendo um sujeito que veio da pobreza isso duplica o nível de inveja. 

Distribuição de renda do meio para cima (bilhão) e para baixo (tostão)
O fato é que Lula promoveu uma espécie de cultura política no país. Seus críticos abominam a lógica do lulismo e tentam reduzi-lo a uma ação criminosa que teria gerado recursos para o bolso do próprio Lula, de seus familiares e amigos chegados. É claro que não há somente isso no lulismo, embora tenha sido muito isso. Já seus fãs veem nele tudo de bom e mais um pouco: há mesmo quem diga que as manifestações de 2013 teriam sido o resultado de um “desenvolvimento econômico socialmente inclusivo”, promovido pelo PT. Nesse caso, o PT teria acertado tanto que teria criado até mesmo uma oposição contra si, mais por conta de suas virtudes do que de seus defeitos. 

Há, nesse argumento, um problema. Tendo sido a distribuição de renda, cantada em prosa e verso pelos governistas, patrocinada basicamente pela grande massa de assalariados e empregados precários conhecida genericamente como “classe média”, houve uma distribuição injusta, já que essa classe intermediária cedeu grande parte de seus ganhos para os dois andares: muito para o de cima, conforme já sugerido neste mesmo texto, e um tantinho para o porão, mas um tantinho que é “muito demais” para os mais necessitados. 

Carrão importado e diploma de bom comportamento garantido
Na prática, o governo petista não fez muito diferente do que o governo da ARENA e do PDS (os partidos da ditadura militar) fizeram: insuflou o fogo da classe média, promovendo sua extensão e seu circuito de ação, bem como alimentou o crédito e a lógica estrita do consumo, somente para, no fim das contas, apresentar a conta no final, uma conta salgada, em boa parte, pelo suor dos que trabalham com cada vez maior pressão para sustentar não apenas as necessidades próprias e de suas famílias, mas principalmente os seus próprios desejos de consumo e o dos familiares. O chamado “milagre brasileiro”, afinal, que apesar de tudo anda historicamente esquecido, fez o pobre sonhar ganhar um “fuscão” no juízo final, juntamente a um diploma de bem comportado, conforme dizia letra de música de Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha. 

E a população do Brasil contemporâneo, a alargada e festejada grande classe média, sonha não com o fuscão, pois que há muitos carros importados por aí, mas anda pelejando entre si e, apesar da violência dessa disputa, politicamente merece não apenas um diploma de bom comportamento, mas uma estátua em praça pública ao “escravo desconhecido”, ao menos em reconhecimento a esse grande grupo de pessoas que vive uma espécie de escravidão esclarecida, já que em boa parte reconhecida, mas justificada por ser o único caminho a tomar, ou por ser uma condição de escravatura em que o escravo jura amar sua condição, afirmando-a como afirmação de sua vontade. De certo modo, o escravo contemporâneo, subjugado por quase tudo e por quase todos, encontra forças para gritar diante do espelho que é livre e soberano sobre si próprio e sobre o que é seu: suas propriedades e bens. 


Perdidos na dicotomia simplória do bem contra o mal, muitos
se perdem e identificam o bem em um partido e o mal em outro
Mundo claro e mundo escuro
Em boa parte, os que enxergam que há um golpe em curso e veem no governo petista predominantemente um injustiçado pela mídia golpista e pela direita raivosa, tentam nos convencer de que o mundo é preto e branco, tem duas partes bem definidas e uma é boa, popular e justa, enquanto a outra é má, “de direita” e injusta. Muitas vezes, em suas análises, começam bem, tentando perceber que o governo petista, lulista ou dilmista, o lado claro, bom e popular do mundo, foi em grande parte responsável pelo crescimento do lado escuro, mau e privatista do mundo. No entanto, na metade do seguimento de seus pensamentos, parece haver um desvio de percurso e Lula, Dilma e todo o PT são apenas vítimas indefesas do mal que está e sempre esteve distante deles. 

É esse pessoal que clama por uma guinada no governo petista, a cada momento, de tal forma que a gente nem consegue mais acreditar que eles próprios acreditam que isso possa ocorrer. A todo momento, pedem e mesmo imploram para que Dilma refaça as alianças, como fosse possível acontecer semelhante coisa. 

Golpe e contragolpe
Em suma, há muitos itens a considerar para limpar a visão o suficiente de modo a que possamos perceber e entender, afinal, que mudança, que transformação, está em curso. 

Se for o caso de se falar em golpe, então é preciso descobrir quem o está dando, o que deseja e, se for o caso, se não se trata, na verdade, de um contragolpe. Tudo é possível até que se entenda o que está acontecendo. 

Se tudo é possível, precisamos ir estreitando as definições para nos aproximarmos do provável e mesmo do claramente factível, de modo a que seja viável uma interpretação mais precisa da conjuntura política, bem como de pensá-la e criar propostas para melhor intervir nela. 

O que proponho, aqui, é que se observe a realidade para depois pensar o que fazer nela, sem tantas paixões quanto os debatedores e pensadores políticos estão usando em seus discursos. A realidade é usualmente muito mais ampla do que as certezas contidas nos gritos de torcida podem abarcar. 

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