segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O indivíduo, esse rei de um reino imaginário


Pela lógica do espelho, o eu olha para
o outro em busca de ver a si próprio,
mas, na verdade, olha para si próprio e
enxerga apenas uma imagem construída
pelo outro, num processo de alienação.
Este é o terceiro texto com temas inspirados no livro “O Homem Deus”, de Luc Ferry. Como já foi dito, não se trata de um resumo ou sinopse, mas de uma livre apresentação baseada nos escritos de Ferry. 

Sujeito é tudo e mais um pouco
Na realidade em que vivemos, podemos perceber que os critérios coletivos cada vez mais perdem espaço para as referências individuais. O indivíduo, hoje, é como um monólito autocentrado, embora, na prática, bem se pode perceber um jogo especular, no qual o indivíduo é apenas uma formação subjetiva do homem-massa. Logo, apesar de se crer um sujeito autodeterminado, o indivíduo contemporâneo é uma entidade de massa, um boneco animado e robotizado que repete frases feitas e pensa com base em ideias prontas, ou pensa que pensa, é claro. 

Em parte, o abandono da transcendência (ver textos anteriores sobre as ideias do livro: texto 1 - texto 2) serviu sobremaneira para viabilizar essa situação desastrosa na qual o indivíduo assume uma importância desproporcional no contexto da vida humana. O indivíduo, assim, torna-se o centro do mundo, quando, na verdade, é governado pelo real centro do mundo (como no modelo de massa, trabalha com um emissor central e milhões de receptores), embora se acredite o responsável por seus desejos, sentimento, pensamentos e atos. 


A ética fundada no sagrado dá lugar a uma ética leiga, fundada, pelo que sugere Ferry, no século XVIII, o Século das Luzes. Uma das características dessa ética iluminista é a da não aceitação da autoridade como algo em si, negando a existência de verdades predeterminadas. Para aceitar qualquer autoridade é preciso que haja boas razões para isso. 

No passado, havia heróis, agora há os ídolos
Trata-se, tudo indica, da lógica da introdireção ou introdiretividade, proposta por David Riesman há mais de meio século, isto é, a lógica do governo da razão sobre os atos humanos. Essa lógica substituiu o princípio “traditivo-diretivo”, ou seja, o governo da tradição, e foi substituída pela alterdiretividade, o princípio que dita a subjetividade como descentrada do indivíduo e baseada na relação com os outros, no qual a identidade, um princípio da introdiretividade, é substituída pela identificação, conforme bem diz Michel Maffesoli. 



René Descartes (1596-1650)
Uma diferença fundamental que separa os tempos da introdiretividade dos da alterdiretividade é a seguinte: naqueles, havia os heróis; nestes, há os ídolos. A relação com os primeiros se dava na perspectiva da honra, da dignidade, dos valores patrióticos e humanos, sempre com a mediação da racionalidade. Já com os segundos, reina a simpatia, a emoção, o sucesso e os valores centrados no umbigo do indivíduo. Os heróis ofereciam a vida por uma causa coletiva; já os ídolos cultuam sua individualidade e a oferecem como modelo para os demais. Os heróis, não raro, eram parcimoniosos e corajosos, já os ídolos costumam esbanjar e são eminentemente charmosos. 

Da mesma forma que separamos a introdiretividade da alterdiretividade, podemos falar em tempos modernos e pós-modernos, ou em uma modernidade sólida e líquida, conforme prefere Zygmunt Bauman, ou mesmo podemos lembrar de conceitos como “territorialização” e “desterritorialização”, de Gilles Deleuze e Felix Guattari, ou, dos mesmos autores, da lógica da árvore e do rizoma. 

Penso, logo existo – mesmo quando me iludo
Essa centralização no sujeito, no ego (ou “eu”) tem data e certidão de nascimento. René Descartes formulou o cogito ergo sum, o “penso logo existo”, propondo o sujeito como centro do mundo, núcleo duro da realidade. Conforme já foi dito no primeiro texto inspirado no “Homem Deus” de Ferry, mesmo quando enganado, o sujeito está presente em última instância, o que faz dele a base de tudo. A melhor referência para entender isso está na proposta do próprio filósofo para pensar o porquê do sujeito ser o centro do mundo: mesmo se completamente iludido, é o sujeito que está iludido. Em outros termos, o sujeito precisa existir para se iludir, assim a consciência individual é o centro de tudo. 

A modernidade, bem se pode dizer, promove um desprezo pela experiência sensorial, mas louva a experiência científica, ou seja, mediada pela razão, pelo pensamento lógico. De certo modo, isso parece uma reapresentação de todo o arcabouço da filosofia platônica: o sensorial é falso e imperfeito, o racional é verdadeiro e perfeito. Ora, a tradição filosófica europeia é baseada na filosofia ateniense, fundamentalmente na platônica e aristotélica, bem sabemos. 

O eu não passa de uma imagem no espelho
Em suma, e como tema para o próximo texto, tudo indica que o indivíduo reina sobre um reino imaginário, supostamente construído por ele mesmo. No entanto, observando melhor, podemos hipotetizar que o próprio indivíduo é uma construção imaginária, construída, parece óbvio, a partir de fora, constituída por outrem, assim como o eu é formatado pelo processo sugerido com o nome de “estágio do espelho” por Jaques Lacan. O que chamamos orgulhosamente de “eu”, então, não passa de uma entidade alienante e alienada, que constrói castelos de areia para neles se amparar. 

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