sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Noam Chomsky condena corrupção e centralização de governos de esquerda latino-americanos


Para Chomsky, o modelo de Chávez foi destrutivo e, no Brasil,
o PT teve êxito em vários aspectos, mas sucumbiu à corrupção
e à bolha econômica produzida pela política errada do partido
Avram Noam Chomsky nasceu na Filadélfia, EUA, em 1928. É um linguista renomado e um militante comprometido com grandes causas, criticando aberta e claramente a lógica excludente e autoritária do poder econômico e dos Estados Unidos da América. Parece, à primeira e segunda vista, um sujeito com boas intenções e nunca se furtou a elogiar alguns resultados alcançados pelos recentes governos latino-americanos.

No entanto, Chomsky compreende que um fator decisivo pôs tudo ou quase tudo a perder para esses governos e, é claro, para a população latino-americana: a corrupção. Em entrevista concedida a Jorge Fontevecchia e publicada recentemente (na segunda metade de novembro) no portal www.perfil.com, ele diz, textualmente, que os governos de Brasil e Venezuela tiveram a chance de mudar o quadro nefasto da América Latina, um continente historicamente dependente economicamente e subserviente politicamente.


Apesar de jurar ter tirado milhões da
miséria, o PT conseguiu dar um tiro
no pé ao associar a sigla à corrupção
Segundo ele, no Brasil e na Venezuela há uma série de oportunidades perdidas e de uma forma muito desagradável. Leia o que Chomsky diz do Brasil:
No Brasil, o maior país da América Latina, quando o PT chegou ao poder teve oportunidades reais de avançar em realizações, tinha grande apoio popular, bons programas, uma liderança impressionante, e algumas de suas políticas foram bem sucedidas, mas a corrupção foi tão grande que o partido se desacreditou a si mesmo e tem, essencialmente, sacrificado essas oportunidades.
Com relação à Venezuela, o linguista estadunidense também vê um grave problema, mas, não exatamente cita a corrupção, mas a centralização excessiva do governo de Chávez e Maduro:
Algo semelhante aconteceu na Venezuela, onde houve propostas significativas, esforços e iniciativas, mas, em um sistema que estava um pouco desequilibrado desde o início, não se pode ir além. Houve várias mudanças instituídas a partir de cima, muito pouca relacionadas com a iniciativa popular, com alguma participação, mas vieram principalmente de cima. É pouco provável que isso funcione. Houve muitos fracassos ao longo do caminho, mais tarde, mas, neste momento, mais uma vez, a enorme corrupção e incompetência não permitem que o país se libere da dependência quase total de uma exportação única, o petróleo.  
No final deste texto, leia o trecho da entrevista, em espanhol (1).

Alguns acertos, muitos erros
Chomsky lamenta, no restante da entrevista, que esses governos não tenham investido na politização da população e, mais, que tenham desperdiçado tempo e recursos não entendendo que o puro incentivo ao consumo e a centralização política são, ambos, nefastos e a quase total subordinação da política econômica aos resultados dos negócios com a China é desastrosa. Exportam-se matérias primas e importam-se produtos industrializados, o que significa um aprisionamento no modelo exportador agrícola, sem alternativas.

Tudo tem seu lado bom e seu lado mau, é claro, e tanto Brasil como Venezuela ganharam algo com os governos de esquerda. Mas, de certo modo, há um contundente fracasso do PT brasileiro e do grupo venezuelano que se autodenomina bolivariano. Ambos põem, inclusive, em risco todo e qualquer projeto consequente da esquerda no continente.

Péssimo serviço 

Para Chomsky, centralização e autoritarismo, além de corrupção
e incompetência, puseram boas intenções a perder 
na Venezuela
No Brasil, depois do governo petista, há muita gente que já associa naturalmente um governo de esquerda com a corrupção, o que é um grande perigo, pois, tradicionalmente, o país foi governado por uma elite sórdida, autoritária e essencialmente corrupta, mas que, neste momento, parece até mesmo ser menos prejudicial do que o governo esquerdista. 

Na Venezuela, a centralização brutal e a violência política mostram que não conseguem, obviamente, fundamentar bons resultados na organização política da população, prestando, em vez disso, um péssimo serviço a quem se propõe a organizar politicamente a sociedade, dando voz aos oprimidos e enfraquecendo as elites subservientes ao poder econômico.

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(1) “En Brasil, el país más importante de América Latina, cuando el PT llegó al poder tenía verdaderas oportunidades de conseguir logros –un gran apoyo popular, buenos programas, un liderazgo impresionante–, y algunas de las políticas fueron exitosas, pero la magnitud de la corrupción era tan grande que el partido se desacreditó a sí mismo y ha, esencialmente, sacrificado esas oportunidades. Espero que puedan resucitar algo de él, pero no está muy claro qué. Y algo similar sucedió en Venezuela, donde hubo propuestas significativas, esfuerzos, iniciativas, pero en un sistema que estaba un poco desbalanceado desde el principio no se puede. Hubo varios cambios instituidos desde arriba, bastante poco relacionados con la iniciativa popular, con algo de participación, pero no: venían desde arriba principalmente. Es poco probable que eso funcione. Hubo muchos fracasos en el camino después, pero en este momento, de nuevo, la tremenda corrupción y la incompetencia del país nunca lograron liberarse de la dependencia casi total de una exportación única, el petróleo”.

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