segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Mudanças do século XX marcam novas formas de religiosidade e de poder


A já clássica imagem do bebê "com marcas" sinaliza
algumas das alterações ocorridas no século XX, no
qual a subjetividade passou a ser sufocada pelos
valores ditados pela lógica do mundo empresarial,
que alcançou inédito poder sobre os indivíduos 
Conforme textos anteriores (links no final do texto), li, em 2015, o livro “O Homem Deus”, de Luc Ferry, e, animado pelo espírito humanista ali contido, resolvi escrever um pouco sobre temas discutidos pelo livro. Não fiz, repito pela enésima vez, sínteses, resumos ou resenhas do livro. Apenas utilizei temáticas nele tratadas para pensar um pouco e, como este blog é o local no qual publico meus pensamentos dispersos, ainda que nem sempre tão elaborados quanto deviam, aqui publiquei esses textos reflexivos. Agora, peço licença para publicar mais um texto, ainda sob a influência do livro.

Diferentes subjetividades 
Houve uma mudança significativa no século XX. O saber tradicional, que se mantinha forte e atuante, foi perdendo força e importância e foi sendo substituído pelo pensamento racional. Isso, como já foi pontuado em outros textos, está bem abordado por David Riesman no livro “A Multidão Solitária”, de 1950. Segundo ele, se passou de uma lógica tradicional para uma outra, fundada na racionalidade individual, durante os últimos séculos e, mais recentemente, no século XX, a racionalidade individual perdeu hegemonia e se caminhou no sentido de uma subjetividade pautada pela relação com o “outro”, uma alterdiretividade (1)


Um argumento a favor da primeira mudança, a que destronou o saber tradicional e elevou o saber racional, é o que dá conta de que enquanto a tradição impunha seus ditames inapelavelmente, a racionalidade permite ao indivíduo pensar sobre que caminhos tomar, pesando e medindo argumentos sem que haja uma imposição para além de si. Já na alterdiretividade, bem se pode falar numa imposição, mas não rígida e pronta como no caso da tradição: a imposição vem de fora, mas não de um saber anterior; vem do outro, enquanto parâmetro de identificação e de formação de identidade. 

De certo modo, pode-se pensar nessas passagens utilizando as proposições de Michael Hardt e Toni Negri nos seus trabalhos Império e Multidão (o terceiro “Commonwealth”, eu não li). Eles dizem que a Multidão criou o Império ao combater o estado de coisas (status) anterior, no qual os saberes eram claramente centralizados e autoritários (na tradição, não há discussão acerca da veracidade ou validade do saber e este é propriedade dos mais velhos ou de instituições vetustas) e criou uma ordem mais autoritária do que a anterior, embora aparentemente mais democrática e até mesmo aparentemente libertária. Nesse sentido, Hardt & Negri trabalham com a transição de todo e qualquer saber previamente estabelecido (mesmo o racional) para o saber construído no andar da carruagem, focando o presente e o futuro, assim como funciona a cultura estadunidense. A ordem alterdirigida é, assim, mais autoritária na medida em que quem controla a chamada “opinião pública” assume um poder jamais imaginado, proporcionalmente bem maior do que o poder da Igreja na Idade Média ou do rei no Absolutismo. Infinitamente maior porque com um inédito alargamento de seu alcance, graças aos meios de comunicação. 


No mesmo movimento em que se iluminaram alguns
aspectos da vida, outros tantos foram relegados
a um vale de sombras do qual emergiram vetores
subjetivos importantes para a dominação política  
Vale de sombras
Ferry diz que ao se impor a força da racionalidade, da razão, cria-se, no mesmo movimento, a força da irracionalidade. Isso pode ser entendido se imaginarmos que sempre, ao iluminarmos algo, também forçamos à existência de sombras. A razão trouxe, assim, ao iluminar o mundo com seu brilho, regiões sombrias nas quais se criou uma força que, com o tempo, foi explorada pelo poder macropolítico para melhor controle subjetivo. Michel Foucault tratou disso de forma não tão direta na sua abordagem do poder panótico e do consequente Biopoder, tema mais desenvolvido pelos seguidores Gilles Deleuze e Felix Guattari, e também Michel Faffesoli, principalmente no seu livro “A Parte do Diabo” ("La Part du Diable: précis de subversion postmoderne", de 2002). 

Entender essa lógica da iluminação e da sombra ajuda a perceber com mais clareza o século XX e XXI, com o desenvolvimento de contraculturas e outras manifestações nascidas daquilo que a civilização ocidental empurrou para a obscuridade. Fica a lição dos psicanalistas: tudo aquilo que está inconsciente, fora do alcance do “eu” (ego) tem mais força, pois age em silêncio e em segredo. Aliás, Ferry deixa claro que a criação do conceito de “inconsciente” foi algo inevitável nesse contexto. 


A família sofreu um bombardeio subjetivo, pois era
a representação da influência do saber tradicional
Família foi o alvo
A coisa transcorreu da seguinte forma: da certeza oferecida pelo saber tradicional, fomos para a certeza de que poderíamos, por nós mesmos e com o balizamento da razão, escolher nossos próprios caminhos e certezas. Dessa posição, deslizamos para a de que as certezas não existem mais, apenas são algo como fotografias momentâneas de uma conjuntura, ou seja, são construções que dependem de um consenso. Em outros termos, para negar as certezas, passamos a ter outra certeza, a de que nada existe com certeza. Parece confuso, mas é mais claro do que parece à primeira vista. 

O discernimento entre o bem e o mal era dado por um conhecimento prévio a nós: a tradição. Passou a ser dado por um diálogo individual com a razão e, na sequência, foi para o campo da negociação e do consenso coletivo. 

O verdadeiro, assim, depende da aprovação de um grupo, do grupo ao qual atribuímos a força e o poder de nos definir e nos dirigir, no fim das contas. O interessante é que, como fazemos parte desse grupo, julgamos que somos em boa parte responsável pelas certezas e verdades desse grupo, eminentemente democráticas, segundo essa crença. Esse grupo, com certeza, não é o familiar, pois este se caracteriza pela força dos mais velhos no comando e foi exatamente contra esse grupo que os jovens, hipoteticamente buscando autonomia, se rebelaram, notadamente na metade do século XX. O ataque aos pilares da família, eminentemente tradicional, foi a característica da “revolta” dos sixties. Tudo isso ao som do rock’n’roll. 


O rock'n'roll foi a trilha sonora das "transformações"
que parecem ter focado a emancipação dos corpos e que,
no mesmo movimento, conseguiram aprisionar as almas
(na imagem, os Beatles, grupo de rock dos anos 1960) 
Emancipando os corpos, aprisionando as almas
O slogan “É Proibido Proibir” guarda, na clara contradição intrínseca à sua formulação, uma mensagem clara: o indivíduo passou a ser, a partir de então, sua própria norma, ou a gerar sua própria norma, e qualquer semelhança com a psicopatia não parece ser mera coincidência. Já se disse, aqui mesmo neste blog, que o psicopata é o modelo ideal dos tempos pós-modernos, isto é, desta nossa contemporaneidade na qual “tudo o que é sólido desmancha no ar”. 

Em um contexto como esse, parece claro que a liberdade é mais do que tudo, um fetiche, ou seja, algo (um conceito, uma meta) que escamoteia algo: no caso, a quase completa ausência de liberdade. Fetiche, você sabe, é um objeto ao qual atribuímos algum poder mágico ou sobrenatural e que, desse modo, é cultuado. Ao se cultuar o fetiche, não se faz o que se pretende fazer, mas se encena isso, o que não é a mesma coisa, mas que funciona como se fosse. Em outros termos, ao se cultuar, por exemplo, a liberdade, não se está livre, embora se pense que sim. Isso funcionou bem na contracultura jovem dos anos 1960/1970. Bem até demais e Ferry crê que naquele momento se finalizou o processo de secularização iniciado no século XVIII. 


A Cruz Vermelha foi criada em 1863, sobre
a base de uma "religião da humanidade"
Acima de tudo, humanos
Os anos 1960, inclusive, são referidos no livro como um momento de “emancipação dos corpos” no qual houve uma contraposição de valores em relação à tradição judaico-cristã, com o desencantamento do mundo, a humanização do divino e a divinização do humano. Fica a noção de que, desse jeito, se efetivou um aprisionamento das almas que, no entanto, se apresenta com a aparência de uma libertação. 

O divino, assim, deixou o céu e se tornou imanente, ou seja, abandonou o lugar da transcendência e se formulou como imanência. E essa imanência estaria presente, idealmente, na noção de humanidade como nossa família mais ampla, aquela a qual todos nós, humanos, pertencemos e que fundamentou iniciativas humanitárias, como a fundação da Cruz Vermelha, por exemplo, ocorrida em 1863 e da autoria de Henri Dunant, com base na Declaração dos Direitos do Homem, de 1789. Ferry fala, desse modo, do nascimento da religião da humanidade. 

É o amor
Ferry traça uma divisão útil para estudarmos as formas de amor. Ele fala em três tipos: 1) Eros, 2) Philia ou Philos e 3) Agapè ou Ágape. O primeiro, Eros (ἔρως), diz respeito ao sentimento dedicado a alguém em relação a quem temos mais do que o sentimento de amizade (Philia), usualmente relacionado ao erotismo e à sexualidade. O segundo (φιλία) é o amor virtuoso presente na amizade, desapaixonado e nobre, leal e pleno de virtudes. O terceiro (ἀγάπη) remete a um sentimento de amor mais amplo, como o que sentimos em relação à humanidade e é usado com frequência no Novo Testamento. Esse último, com certeza, é o amor da “religião da humanidade”. 

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(1) David Riesman viveu de 1909 a 2002 e foi um sociólogo estadunidense. Escreveu o livro “The Lonely Crowd”, em 1950, junto com Nathan Glazer e Reuel Denney. Trabalha com três conceitos básicos, a traditivo-diretividade, a intro-diretividade e a alter-diretividade (tradition-directed, inner-directed e other-directed).

Links para os outros textos baseados em conceitos e ideias do livro de Ferry:(http://luizgeremias.blogspot.com.br/2015/11/algumas-reflexoes-e-pensamentos-em.html); (http://luizgeremias.blogspot.com.br/2015/12/sem-transcendencia-e-com-egos.html); (http://luizgeremias.blogspot.com.br/2015/12/o-individuo-esse-rei-de-um-reino.html).

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