terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Crítica à mídia anda atirando em moscas com balas de canhão

Criticar é fácil, dizem. E, em muitos casos, isso é verdade. 

Na prática, a crítica é, não raro, uma arma. Embora muitas vezes dispare pela culatra ou exploda nas mãos do crítico, costuma atingir o alvo, ou seja, chega ao criticado e causa dores e comoções. Basta que o crítico saiba onde bater, onde ficam os pontos fracos do adversário. 

A crítica é uma arma também para que o crítico consiga comer, ganhe seu sustento. Desse modo, atira para todos os lados, às vezes; em outras, faz da crítica pela crítica, ou seja, o criticar sem a busca de efeitos práticos, de mudanças e melhoras efetivas, sua profissão e seu ofício. Afinal, sempre há a possibilidade da chantagem e sempre há quem consuma com prazer um gênero literário ácido. Há gosto para tudo e, conforme a virulência, sempre há fígados ansiosos para secretar a amarga bílis. 


Um dos gêneros literários que tem seu público cativo e tem rendido bons frutos a seus oficiantes é a da “crítica à mídia”. E, bem se pode dizer, trata-se de um dos casos em que há a utilização de parâmetros algo desonestos para avaliar o desempenho do criticado ou criticada. Sim, porque se o crítico quer fazer da crítica o seu ganha-pão, e se quer fazê-lo lucrativo, acaba caindo na tentação de criticar por criticar, isto é, criticar com referência em balizas ideais, fora do plausível. Desse modo, pode-se criticar alguém por não fazer o que não é possível, num caso em que o criticado teria pecado por não conseguir se enquadrar na fantasia do crítico. 


Grandes empresas, grandes negócios
Os críticos da mídia têm muitas boas razões para pegar pesado. O que chamamos genericamente de “mídia” diz respeito ao conjunto de órgãos e empresas de comunicação, sendo que, usualmente, o termo costuma ser usado para designar a “grande imprensa”, ou seja, o conjunto das grandes empresas de comunicação. 

Essas grandes empresas têm contratos com anunciantes, sejam empresas privadas, corporações ou Estados, todos sabemos. E, como são empresas, precisam lucrar, ou, no caso dos Estados, precisam conseguir a simpatia dos eleitores, pois os Estados são governados por grupos que se revezam no poder e, para se manter nele (ou voltar a ele) precisam influenciar a opinião pública com uma boa imagem, que é construída, em boa parte, na mídia, que é engenhosa no uso dos recursos tecnológicos e no alcance de suas mensagens. 

Essas grandes empresas querem fazer grandes negócios e, por isso, fazem o que ordena aqueles que lhes dão dinheiro. Assim, lucram essas empresas e lucram as empresas e/ou Estados (na verdade, os governos) que investem nessas empresas para conseguir lucro ou uma boa imagem. 

Lucrar e lucrar e lucrar, sempre lucrar e lucrar: essa é a lei
Tudo indica, pelo exposto, que criticar a mídia é necessário e mesmo fundamental. Pois, colocar os interesses privados e/ou pessoais de algum grupo acima dos interesses dos clientes e da população é, ou deveria ser, fato passível de inquirição nos planos cível e criminal da Justiça. No entanto, parece ter razão o nobre e complexo filósofo Gilles Deleuze, que, um dia, afirmou que tudo tem razão (ou sentido) no capitalismo, menos ele próprio. 


Com certeza, dentro da estrutura lógica do capital, tudo e todos estão inseridos e encontram algum sentido, ainda que onírico, mas essa estrutura, no entanto, parece flutuar numa atmosfera de absoluta falta de sentido. Toda essa estrutura funciona sob o comando de uma razão irracional, a de extorquir de outrem o próprio sustento e um pouco mais, chamado lucro, para que se possa reinvestir na atividade que gerou a extorsão e, assim, extorquir mais e lucrar mais ainda para manter esse circuito nada virtuoso. Essa é, inevitavelmente, a matriz lógica que orienta todo aquele que quer se dar bem e bombar no mundo capitalista. 

Farinha pouca, meu pirão primeiro
Se digo que se trata de extorsão, é porque extorquir é usurpar de alguém algo que não deveria ser retirado desse alguém, mas o é, em circunstâncias muitas vezes não explicitamente violentas, mas de pressão psicológica. Já se disse, com razão, que o bandido pobre usurpa pequenos valores de forma violenta e rápida, enquanto o rico (que não é comumente chamado de bandido, talvez porque seja rico e poderoso), usurpa grandes valores de forma suave e lenta. As formas de pressão psicológicas utilizadas podem ser conhecidas com facilidade, bastando que você se especialize nas técnicas de gestão do chamado “mercado”, aquela entidade mítica que tem sua divindade, sua objetividade e sua imparcialidade cantada em prosa e verso, no mesmo movimento em que se oculta a verdade fundamental que lhe sustenta: não há objetividade e imparcialidade em um mundo que envolve a busca desenfreada de lucros e/ou vantagens. 


“Farinha pouca, meu pirão primeiro”, é a regra. Mas, quem pode promover ou garantir mínimo respeito, qualidade, ética ou moral desse modo? Parece claro que a mídia, mas não apenas ela em si, deve ser criticada duramente. 

Alvejando moscas com balas de canhão
No entanto, apesar de todo o exposto, a crítica à mídia muitas vezes parece não se focar nisso e procurar outros alvos, aparentemente absurdos e insólitos. Fazendo uma grosseira, mas adequada, comparação é como se um caçador de elefantes passasse a atirar em moscas e, pior, com balas de canhão. 

Uma das críticas mais comuns diz respeito à falta de profundidade dos noticiários. Ora, é verdade que boa parte das matérias, principalmente as televisivas e radiofônicas, é superficial e não faz mais do que, aparentemente, tentar despertar algum interesse do cidadão, seja ouvinte ou telespectador. Mas, como pergunta Luc Ferry no livro “O Homem Deus” (que já inspirou outros textos neste mesmo blog), como esperar que veículos como a TV ou o rádio motivem algo mais do que algum interesse por parte do cidadão urbano? Ferry critica essa crítica da mídia que exige profundidade e, justamente, diz que ela se transformou em algo como um gênero literário – que existe para manter o nível de insatisfação alto e nulo o de resolução dos problemas levantados. 

Seduzir para aprofundar e até para salvar vidas
Ferry lembra que há um princípio básico que nos remete à diferenciação entre imagem e palavra escrita. Aquela, claramente, funciona mais como sedutora e despertadora do interesse e esta bem pode ser entendida como o instrumento de aprofundamento para quem quer saber mais e entender mais acerca de um acontecimento. A imagem deve fazer cócegas na emoção; já a palavra deve viabilizar o exercício da razão. 

Ele bem afirma que não se pode esperar de um telejornal noturno, por exemplo, que a cada edição traga uma lição de história que permita compreender os fatos de forma fundamentada e profunda. Segundo Ferry, a função da mídia televisiva ou radiofônica pode ser mesmo a de despertar o interesse para incentivar o cidadão a buscar mais para refletir sobre os fatos. 

No livro citado, há exemplos, como um massacre na Somália, creio que ocorrido na década de 1980. Ferry afirma que a comoção motivada pela cobertura da mídia ajudou a que a opinião pública mostrasse interesse e indignação, o que levou a ações efetivas que certamente salvaram algumas vidas. 


Milhões de imagens não valem uma única palavra
O problema, lembremos, é que as pessoas andam se distanciando perigosamente das palavras e, consequentemente, da razão, o que significa que acreditam que uma imagem vale mais que mil palavras. Besteira... Sem uma única palavra que lhes dê sentido, milhões de imagens de nada valem. 

Em resumo, o que se pode esperar é que a crítica à mídia produza melhores peças e utilize melhor os recursos que tem, porque, pelo menos pela colocação do lucro acima da boa comunicação, a grande imprensa merece fortes e contundentes críticas. 

Assim, os críticos devem usar sua munição pesada para grandes e adequados alvos, não gastar balas de grosso calibre em alvos implausíveis e absolutamente irreais. Isso é perda de tempo e um ataque ao bom senso. 

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