terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Carta de Temer é uma bomba no colo de Dilma


Temer e Dilma sempre seguiram caminhos diferentes
e a carta escrita pelo vice consolida o rompimento
A carta escrita por Michel Temer e endereçada a Dilma Rousseff é uma bomba. Se já o era quando era confidencial e pessoal, ao vazar para o público aumentou seu poder de dano em muito, já causando vítimas quase fatais no Palácio do Planalto. Pior: só pode ter sido alguém do próprio Palácio que a divulgou, o que corresponde não exatamente a um tiro no pé, conforme avalia um colunista da Veja, mas, para mim, um tiro na cabeça. 

A carta começa com uma epígrafe que remete a um ditado latino: “Verba volunt; scripta manent” - “Palavras ditas voam; palavras escritas permanecem”. Nada mal para começar e o escrito teria sentido quando se sabe que Temer não gostou nem um pouco de ter palavras postas em sua boca por ministros de Dilma. Assim, resolveu marcar posição e se prevenir de novos dissabores. Essa parece ser a mensagem anexa à carta. 


Segundo Ciro Gomes, Temer é o “capitão do impeachment”, pois tem interesses diretos no tema, já que assumirá no lugar de Dilma, caso esta seja defenestrada do posto. Pode ser. Mas, é preciso ponderar que Temer conseguiu, com a carta, dar um sentido mais nobre aos seus interesses. De certo modo, entendo que ele diz mais ou menos o seguinte: “Fui tratado com desapreço durante um bom tempo, seus ministros chegaram a pôr palavras em minha boca, agora veja só a situação em que me encontro, veja bem em que situação a senhora e seus comandados me colocaram e, é claro, se colocaram em relação a mim e a meu partido. Devo, agora, ser leal à senhora, quando a senhora não foi leal comigo durante todo o primeiro mandato e neste primeiro ano do segundo?”. 

Repito que entendo desse modo o conteúdo e o contexto da carta, mas não é necessariamente o que Temer quis dizer. Além disso, há uma complexidade intrínseca que nos faz incapazes de captar todo o sentido de um documento como a carta em questão. Se é golpe, então a carta parece ser efetiva nesse sentido e o time de Dilma parece ter sentido o golpe. 

Desespero
O pessoal petista está em polvorosa com a carta. Um deles chama Temer de “vaidoso, magoado e disposto a tudo”. Ok, mas isso, para mim, se chama “desespero”, antes de qualquer outra coisa. 



O mais incrível é que há quem ainda
acredite que Dilma honrará as promessas
e compromissos da campanha de 2014.
Trata-se de algo que equivale a acreditar
piamente na existência de Papai Noel
E o mais doido é perceber que há os petistas que creem, mais uma vez, que Dilma dará a triunfal “virada” no seu governo e honrará os compromissos de campanha, coisa que não fez até hoje, muito pelo contrário: Dilma fez exatamente o oposto do que prometeu em 2014... 

É, parece mesmo desespero. Daqueles que faz um ateu começar a acreditar em Deus ou mesmo um adulto totalmente materialista dialético crer na existência de Papai Noel ou do Coelhinho da Páscoa.

O fato é que a carta de Temer é histórica e pode mudar todo o quadro político. Pode dar um empurrão fatal em Dilma ou fazer com que, caso ela sobreviva, passe a governar isolada, sem base de sustentação. Na prática, coloca para Dilma o dilema: devo aguardar o impeachment ou renunciar já? 

Leia, abaixo, a carta. 

São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.
Senhora Presidente,

 “Verba volant, scripta manent”.

Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio.

Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.

Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos.

Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional.

Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo.

Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.

Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido. Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e menosprezo do governo.

Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.

1. Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.

2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários.

3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone.

4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas “desfeitas”, culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC. Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz parte de uma suposta “conspiração”.

5. Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a coordenação política, no momento em que o governo estava muito desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal. Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários. Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste, nada mais do que fazíamos tinha sequência no governo. Os acordos assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de 60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela coordenação.

6. De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido. Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.

7. Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento. Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8 (oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar.

8. Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden – com quem construí boa amizade – sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da “espionagem” americana, quando as conversar começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança;

9. Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma conexão com o teor da conversa.

10. Até o programa “Uma Ponte para o Futuro”, aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal.

11. PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.

Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais.

Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.

Respeitosamente,

\ L TEMER

A Sua Excelência a Senhora
Doutora DILMA ROUSSEFF
DO. Presidente da República do Brasil

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