quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A Política nasceu falando grego (talvez por isso não a tenhamos entendido até hoje)


Além das ruínas físicas da antiga Grécia,
restaram outras, como as da Paideia,
cultura grega que existia somente
para formar melhores cidadãos
Os gregos foram o primeiro povo a formular ideias políticas, no sentido de refletir crítica e racionalmente acerca dos tópicos estruturais da política. Isso quer dizer que foram os primeiros a encarar a política com uma perspectiva teórica. Antes deles, os povos haviam pensado em questões práticas da política, mas pontuais, principalmente com uma ótica militar. Por exemplo, pensavam nas melhores formas de conquistar um território e em como manter o poder sobre esse território depois de conquistá-lo. 

Não há, por exemplo, registro de qualquer obra semelhante à “República”, de Platão, ou à “Política”, de Aristóteles. Outros povos certamente desenvolveram noções importantes acerca de temas ligados à política, mas não a pensaram de forma ampla, crítica e racional, como fizeram os gregos. 


Muito além do Código de Hamurabi
É interessante refletir que os babilônicos possuíam um Código de Conduta que era bastante útil no sentido do regramento da vida pública, ou seja, no seu governo, se constituindo num conjunto de regras que norteavam o comportamento em coletividade. Chamava-se Código de Hamurabi, pois foi formulado pelo rei babilônico que viveu no século XVIII a.C.. Trata-se de um bom exemplo para entender a diferença entre as iniciativas dos demais povos, como essa, de promover um regramento geral para todo o reino ou império, e a dos gregos, que tinham suas regras, mas resolveram se imiscuir no campo abstrato do pensamento acerca das boas práticas de governo, quais eram e por que motivo eram boas. 

O porquê da Política (para os gregos): formar bons cidadãos e fazê-los cada vez melhores 
Dizer que os gregos pensaram a política de forma crítica e racional não significa dizer, segundo G.C. Field (1), que a racionalidade tenha sido a marca predominante dos gregos nas suas práticas políticas. Significa, isso sim, afirmar que os gregos foram pioneiros a encarar dessa forma a questão política, tentando entendê-la de forma ampla. 

Em outros termos, os gregos parecem ter descoberto que é possível estabelecer um conhecimento acerca das formas de relacionamento que envolvem o Poder, coisa que ninguém tinha pensado antes, preferindo, por ignorância ou conveniência, exercer o Poder e/ou a força e pensar, no máximo, como melhor fazê-lo. Os gregos, nesse sentido, foram além e começaram a pensar por que usar este ou aquele instrumento de poder, a que levaria seu uso e que instrumento seria mais adequado para utilização nesse campo. 

Acima de tudo, os gregos tinham uma noção de uma formação cultural que deveria realçar determinados aspectos no cidadão e inibir outros, formando cada vez mais pessoas com as qualidades requeridas para a elevação da cultura. Os gregos pensavam em parâmetros acerca do que é melhor, do que é mais nobre e elevado para a cultura e para cidadãos, compreendendo que assim tornavam-se melhores. A essa iniciativa cultural davam o nome de Paideia. 

O porquê da Política (para nós): ter poder, enriquecer e fazer os cidadãos cada vez piores 

Adepto do livre mercado e, tudo leva a crer, da política como
negociata, o atual presidente da Câmara não teria vez como
político na antiga Grécia: ele não vê com bons olhos a cidadania,
prefere, em vez disso, eleitores tontos e consumidores vorazes
Falar, hoje, principalmente no Brasil, em política como uma prática com alguma função na formação de bons cidadãos até parece ironia, ou sarcasmo puro e barato. Senão, vejamos:
- a presidente se elegeu mentindo descaradamente, fez o oposto do que prometeu fazer e vê seu séquito cada vez mais mergulhado em um pútrido mar de lama; 
- o presidente da Câmara dos Deputados parece estar apenas interessado no poder pelo poder, para satisfazer seus apetites sórdidos e nisso parece não ser exceção entre seus pares, muito pelo contrário; 
- a maioria dos cargos de alto escalão, seja no Executivo, no Judiciário ou no Legislativo, nomeados ou eleitos, parecem ocupados por pessoas sem qualquer compromisso com a Ética, a moralidade ou com a cidadania - parecem pensar simplesmente em obter vantagens para si e para seus bons amigos. 
Dizem que uma das possibilidades que o passar do tempo nos oferece é a de melhorar. No campo da política, no Brasil, mas não apenas aqui, parece que não houve melhora, muito pelo contrário. Talvez isso tenha ocorrido pelo fato de que a Política nasceu falando grego, mas os bárbaros citados logo acima jamais a compreenderam ou compreenderão. 

Não custa lembrar que o termo "política" tem raiz na Polis, Cidade Estado grega. 

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(1) Ideia encontrada nas páginas 22 e seguintes do livro “Teoria Política”, publicado no Brasil pela Zahar Editores, em 1959. O original ganhou o título “Political Theory”, foi publicado pela Methuen & Co. Ltd. e lançado em 1956. O autor? G. C. Field, inglês, professor da Universidade de Bristol. 

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