quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A moeda falsa que governa o mundo


Não é segredo que alguns banqueiros lucram substancialmente com
a lavagem do dinheiro do tráfico de drogas. A novidade é que teria sido
essa grana suja que os salvou da bancarrota na terrível crise de 2008
Examinando matérias antigas, observo uma, assinada por Rajeev Syal e publicada no The Guardian em 13.12.09, que repercute o que disse o italiano Antonio Maria Costa, que chefiou de 2002 a 2010 o Escritório de Drogas e Crime da ONU (The United Nations Office on Drugs and Crime - UNODC): U$ 352 bilhões oriundos de ações criminosas foram lavados pelo mercado financeiro no período da crise global de 2008 e foram fundamentais para manter as instituições financeiras funcionando.

Vou ser o mais claro possível: se o ex-chefe do UNODC estiver certo, foi o dinheiro do crime que salvou o mercado financeiro na crise de 2008. Não fosse a venda de armas e de drogas, por exemplo, fora os outros crimes, como os que falam de desvios do erário para o bolso de particulares, o mercado financeiro estaria em sérias dificuldades e os governos, que já são subservientes aos banqueiros, talvez não tivessem recursos suficientes para saciar a voracidade usual do mundo das finanças.

Essa relação entre atividades criminosas e atividades bancárias já está estabelecida há muito, por gente que conhece o mercado financeiro e sabe como funcionam os negócios dos moedeiros falsos incrustrados no mundo das finanças, das “haute finance” ou, como alguns preferem, da bancocracia. Trata-se, porém, de um assunto delicado e complexo. Proponho, aqui, apenas uma breve reflexão acerca disso, usando como base focal a lógica do dinheiro e, é claro, da moeda falsa, conforme sugerido em romance de Gide.


A utilidade do tráfico de drogas para alguns banqueiros é tanta
que dizem já haver quem pense em propor que um traficante
seja agraciado com um prêmio nobel de economia, pelos
mui importantes serviços prestados ao mercado financeiro
Alianças sórdidas
No romance “Os Moedeiros Falsos”, de 1926, o escritor francês André Gide (1869-1951) utiliza uma narrativa, que gira em torno de fora-da-lei que falsificam dinheiro, para falar das relações humanas, pontuadas por mal-entendidos e por algo que podemos chamar de uma básica incompreensão ou uma quase absoluta ausência de empatia entre seres humanos. Não é, no caso, o dinheiro falso o foco do título. Entendo que, na verdade, o elemento “moeda falsa” remete às fantasias que permeiam as relações entre as pessoas e que, por isso, definem a compreensão mútua que norteia as ações humanas. Em outros termos, é como se todo o tempo as pessoas estivessem trocando moedas falsas, oferecendo aos seus pares algo como “mentiras sinceras” e exigindo pagamentos que, na prática, também serão recebidos na mesma moeda. As relações humanas seriam, assim, essencialmente falsas, pois fundadas em bases incertas e mais contaminadas pelas fantasias do que pautadas por avaliações ponderadas da realidade.

Tudo indica que a estrutura da haute finance seja fundamental na determinação dos rumos não apenas da macropolítica e da macroeconomia, com os Estados comprometidos mais com os interesses dos banqueiros do que com os da população, mas se aprofunda na micropolítica, até porque, como lembram Felix Guattari e Suely Rolnik, a produção mais importante na contemporaneidade é a subjetiva, ou seja, de elementos que influenciam a formação da subjetividade, isto é, a forma a partir da qual as pessoas pensam, sentem e sonham, como se definem e como entendem o que acontece ao seu redor.

Embora se possa imaginar que o mundo das finanças se desenvolve isoladamente, em uma espécie de baia própria, cabe lembrar que não há essa divisão na realidade. Os tentáculos dos milionários da haute finance se espraiam e dominam, sob diversas formas, a formação subjetiva, pois estão incrustrados em negócios de comunicação e entretenimento, que são indispensáveis para garantir o bom sucesso de seus empreendimentos.


Mais falsa que uma cédula de três reais,
a moeda de troca usada na sociedade dos
consumidores depende cada vez mais de
uma engenhosa produção subjetiva 
Moeda falsa comanda economia mundial e agencia a subjetividade individual
A estratégia da moeda falsa é importante para governar. Uma moeda, em si, nada vale, se não tiver valor em um contexto, se não lhe for atribuído, pelo Estado e pela população, um valor e, é claro, um sentido. O dinheiro é uma forma mediadora essencial para a sociedade dominada pela mentalidade do livre mercado e é tão importante que, de meio se transforma em fim. Ou seja, o dinheiro é, originalmente, um instrumento-meio para que se chegue a um fim, porém, no meio social ele curiosamente se autonomiza em relação a qualquer fim e se torna, ele mesmo, um fim, algo a ser conquistado em vez de algo que possibilita conquistar outras coisas, em tese mais importantes.

Tudo isso pode ser dito inferindo noções propostas por Georg Simmel no século XIX. Traduzindo para a linguagem das ruas o que o autor alemão sugere, pode-se recorrer ao dito que separa aqueles que ganham dinheiro para viver daqueles outros que vivem para ganhar dinheiro. Assim, tudo indica que os primeiros podem usufruir do poder do dinheiro, aparentando serem seus senhores; já os segundos parecem venerar o dinheiro, colocando-se em uma posição inferior e subserviente: o dinheiro é o senhor e, de certo modo, assim sendo acaba inevitavelmente como moeda falsa, pois não serve para pagar a satisfação de desejos ou para alcançar objetivos.

Dinheiro tem seus senhores e escravos
Na prática, embora o vulgo considere o dinheiro como um senhor, ou algo que confere poderes de assenhoramento sobre outras pessoas, isso é apenas uma forma de entender o dinheiro, ou, mais precisamente, é apenas um ângulo possível para compreender o poder do dinheiro.

Outro ângulo é dado pelo grande operador financeiro, o beneficiário da haute finance. Ele sabe, ou deveria saber, que essa transformação do dinheiro de meio em fim é aparente e somente é importante em determinados casos, ainda assim especulares, isto é, compreensíveis apenas se considerados como resultado de um jogo de espelhos.

O dinheiro, para quem o tem ou opera com ele, é efetivamente um meio e não é à toa que a definição básica de Capital remete a um engenho que possibilita um fluxo financeiro em direção ao possuidor do Capital. Não a definição marxista, diga-se, mas uma definição essencial da lógica de possuir capital, que não considera especificamente os vetores que compõem a lógica marxista, como a luta de classe, a mais-valia, a alienação ou a reificação. Esse fluxo é possibilitado pelo meio dinheiro, mas culmina no poder que o dinheiro ajuda a conferir àquele que o possui. O poder, assim, parece ser o fim, bem como a capacidade de administrar com sucesso a conjuntura na qual o fluxo se instala.


Se é para lavar, prefira um banco.
Dizem que ele lava mais branco
e oferece a segurança de uma
instituição financeira respeitável
Dinheiro meio e dinheiro fim
Como um meio, o dinheiro pode ser entendido como uma linguagem, ou seja, como um código que confere certa posição a quem o tem e a quem não o tem, bem como organiza certos procedimentos para que se tenha acesso a ele, determinando comportamentos e, antes disso, condicionando desejos e mesmo sonhos.

Como linguagem, o dinheiro é utilizado no sentido de maior ou menor valor, conferindo prestígio ou desprestígio a quem o tem ou não o tem. Sua forma de uso como fetiche, assim, opera uma inversão da lógica da realidade: ele não serve para conseguir algo, mas é, em si, o algo a ser conseguido. Usando uma comparação, funciona historicamente como a lógica do automóvel: até determinado momento da história, o automóvel era um meio de transporte, mas, subitamente, passou a ser um fim em si, determinando o status de quem o possui ou mesmo a sua subjetividade.

Assim ocorre com todos, ou quase todos, bens de consumo que conhecemos.  

Essa lógica baseada na inversão de sentido fornece o sentido hegemônico na sociedade de consumo e todos os que gravitam ao seu redor são contaminados por ela, deixando, de certa forma, sua humanidade de lado em prol de um assujeitamento a um ídolo falso e da clara conformação a uma estrutura de poder que pode parecer sólida e imutável, mas que, na prática, é essencialmente frágil e instável. É uma de suas funções, aliás, construir imagens acerca de sua solidez e criar condições para que aparente sempre estável e segura. Cabe a você e a mim, afinal, acreditar ou não na sua estratégia.

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