quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A Política nasceu falando grego (talvez por isso não a tenhamos entendido até hoje)


Além das ruínas físicas da antiga Grécia,
restaram outras, como as da Paideia,
cultura grega que existia somente
para formar melhores cidadãos
Os gregos foram o primeiro povo a formular ideias políticas, no sentido de refletir crítica e racionalmente acerca dos tópicos estruturais da política. Isso quer dizer que foram os primeiros a encarar a política com uma perspectiva teórica. Antes deles, os povos haviam pensado em questões práticas da política, mas pontuais, principalmente com uma ótica militar. Por exemplo, pensavam nas melhores formas de conquistar um território e em como manter o poder sobre esse território depois de conquistá-lo. 

Não há, por exemplo, registro de qualquer obra semelhante à “República”, de Platão, ou à “Política”, de Aristóteles. Outros povos certamente desenvolveram noções importantes acerca de temas ligados à política, mas não a pensaram de forma ampla, crítica e racional, como fizeram os gregos. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Crítica à mídia anda atirando em moscas com balas de canhão

Criticar é fácil, dizem. E, em muitos casos, isso é verdade. 

Na prática, a crítica é, não raro, uma arma. Embora muitas vezes dispare pela culatra ou exploda nas mãos do crítico, costuma atingir o alvo, ou seja, chega ao criticado e causa dores e comoções. Basta que o crítico saiba onde bater, onde ficam os pontos fracos do adversário. 

A crítica é uma arma também para que o crítico consiga comer, ganhe seu sustento. Desse modo, atira para todos os lados, às vezes; em outras, faz da crítica pela crítica, ou seja, o criticar sem a busca de efeitos práticos, de mudanças e melhoras efetivas, sua profissão e seu ofício. Afinal, sempre há a possibilidade da chantagem e sempre há quem consuma com prazer um gênero literário ácido. Há gosto para tudo e, conforme a virulência, sempre há fígados ansiosos para secretar a amarga bílis. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Mudanças do século XX marcam novas formas de religiosidade e de poder


A já clássica imagem do bebê "com marcas" sinaliza
algumas das alterações ocorridas no século XX, no
qual a subjetividade passou a ser sufocada pelos
valores ditados pela lógica do mundo empresarial,
que alcançou inédito poder sobre os indivíduos 
Conforme textos anteriores (links no final do texto), li, em 2015, o livro “O Homem Deus”, de Luc Ferry, e, animado pelo espírito humanista ali contido, resolvi escrever um pouco sobre temas discutidos pelo livro. Não fiz, repito pela enésima vez, sínteses, resumos ou resenhas do livro. Apenas utilizei temáticas nele tratadas para pensar um pouco e, como este blog é o local no qual publico meus pensamentos dispersos, ainda que nem sempre tão elaborados quanto deviam, aqui publiquei esses textos reflexivos. Agora, peço licença para publicar mais um texto, ainda sob a influência do livro.

Diferentes subjetividades 
Houve uma mudança significativa no século XX. O saber tradicional, que se mantinha forte e atuante, foi perdendo força e importância e foi sendo substituído pelo pensamento racional. Isso, como já foi pontuado em outros textos, está bem abordado por David Riesman no livro “A Multidão Solitária”, de 1950. Segundo ele, se passou de uma lógica tradicional para uma outra, fundada na racionalidade individual, durante os últimos séculos e, mais recentemente, no século XX, a racionalidade individual perdeu hegemonia e se caminhou no sentido de uma subjetividade pautada pela relação com o “outro”, uma alterdiretividade (1)

O dito e o dito pela metade


A presidente assina a nomeação de
Barbosa, novo ministro da Fazenda
O novo ministro da Fazenda prometeu recriar um imposto, a CPMF, e disse o seguinte: 
Nosso maior desafio é fiscal, para criar condições de reduzir o endividamento público, tanto líquido como bruto. Diferentemente do passado, quando o problema era cambial, enfrentamos problema eminentemente interno.
O endividamento público foi quintuplicado por Lula, aí por 2005 ou 2006, quando se fez um alarde por conta do “pagamento” da dívida com o FMI. Assim, o passado de problemas cambiais acabou, ou os problemas desse passado foram minorados, embora não apenas por isso, claro. Mas, principalmente por isso. 

Lugares comuns fornecem lama para discussões derrapantes


"Vivemos em um mundo no qual há cada vez mais informação
e cada vez menos sentido", dizia o sensato Jean Baudrillard 
No Jornal da Globo, às 7h37 de hoje (29/15), o jornalista Chico Pinheiro diz que enquanto os postos de saúde e hospitais estão na penúria, deixando de atender às pessoas que os procuram, os gabinetes políticos estão muito bem, obrigado, com pompa e luxo. Chama a atenção para o fato de que o poder público pode e deve realocar recursos para equilibrar essa situação, mas nada disso acontece. Logo, embora haja quem diga que isso é pura demagogia “global”, trata-se de uma verdade irrefutável que sugere um bom tema para reflexão e discussão. 

Gato por lebre
Importante é entender que a revolta com os ocupantes de cargos políticos é grande, cada vez maior. Como já lembrou o sábio Jean Baudrillard, parece que os políticos são os Judas da atualidade e se prestam com relativo prazer a isso. Prazer sadomasoquista, é claro. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Para entender a realidade é preciso pensá-la sem paixões partidárias


Na prática, o debate político está se dando em boa parte como
guerra de torcidas organizadas: muita gritaria, pouca razão
A conjuntura política brasileira parece ser de mudança. Não uma mudança superficial, de um grupo alocado no poder para outro, ou de partidos, siglas ou filosofia administrativa. Há uma transformação em curso que não pode ser captada no âmbito da guerra de torcidas que tem caracterizado o debate político. Dizem ser um golpe de Estado em curso e dizer isso não é absurdo, embora não se possa ter certeza acerca de quem está dando o golpe.

O fato é que parece haver uma ordem por detrás dos movimentos de ataque e fuga que têm caracterizado o “diálogo” entre governo e oposição. Curiosamente, se há um golpe, parece ser um golpe multifacetado, como se houvesse vários exércitos buscando ocupar um território. Talvez isso se dê por estarmos em um movimento estrategicamente crucial para alguns grupos políticos, no qual se ocupam posições, travando batalhas no conjunto de uma grande guerra. Talvez essa seja apenas uma aparência adequada e convincente para ocultar o verdadeiro ou verdadeiros atores do tal golpe.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Bolsa Família é completamente desnecessário para a elite econômica brasileira

Rogério Galindo, jornalista que tem coluna no portal do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, publica artigo que toca em um tópico importante da realidade que envolve o governo e os brasileiros mais pobres: o benefício chamado “Bolsa Família”, que existe para complementar a renda dos brasileiros que se equilibram na linha da miséria, ora caindo para lá, ora para cá, mas sempre ajudados por esse benefício, cujo valor é de R$ 77. 

Para falar desse benefício e da forma delirante e truculenta pela qual as elites brasileiras pensam a realidade dos mais pobres, Galindo utiliza uma personagem um tanto desconhecida da vida política nacional e mesmo paranaense, a deputada estadual Maria Vitória, que é filha do deputado federal Ricardo Barros, que foi algumas vezes prefeito de Maringá e cuja família tem enorme influência na cidade, e de Cida Borghetti, que é vice-governadora do Paraná. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Noam Chomsky condena corrupção e centralização de governos de esquerda latino-americanos


Para Chomsky, o modelo de Chávez foi destrutivo e, no Brasil,
o PT teve êxito em vários aspectos, mas sucumbiu à corrupção
e à bolha econômica produzida pela política errada do partido
Avram Noam Chomsky nasceu na Filadélfia, EUA, em 1928. É um linguista renomado e um militante comprometido com grandes causas, criticando aberta e claramente a lógica excludente e autoritária do poder econômico e dos Estados Unidos da América. Parece, à primeira e segunda vista, um sujeito com boas intenções e nunca se furtou a elogiar alguns resultados alcançados pelos recentes governos latino-americanos.

No entanto, Chomsky compreende que um fator decisivo pôs tudo ou quase tudo a perder para esses governos e, é claro, para a população latino-americana: a corrupção. Em entrevista concedida a Jorge Fontevecchia e publicada recentemente (na segunda metade de novembro) no portal www.perfil.com, ele diz, textualmente, que os governos de Brasil e Venezuela tiveram a chance de mudar o quadro nefasto da América Latina, um continente historicamente dependente economicamente e subserviente politicamente.

Milhões de tontos compraram latinhas de ar puro na China

A situação do ar na China está tão grave que tem gente vendendo ar puro engarrafado ou enlatado. E tem gente que compra. Um restaurante pôs um filtro para barrar as impurezas atmosféricas do seu ambiente e incluía na conta um acréscimo por isso. Algo em torno de R$ 0,50, ouvi falar. 

Até aqui, tudo bem. Afinal o dono do restaurante teve lá o seu trabalho, instalou o filtro and all. Mas a cobrança foi cancelada por ser ilegal, me disseram. Melhor assim.

Onde há um otário, há um malandro feliz
Mas, e as latinhas de ar puro? Parece que elas fizeram muito sucesso. Um empresário teria vendido dez milhões de latinhas em dez dias! 

Aí, alguém me sopra no ouvido que tem muito otário no mundo e lembra o funk cantado na década de 1980 por Jorge Ben (ou Benjor) e que dizia que para acabar com a malandragem era preciso focar a ação corretiva nos otários. Ele cantava “Que pra acabar com a malandragem, tem que prender e comer todos os otários...”.  

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A moeda falsa que governa o mundo


Não é segredo que alguns banqueiros lucram substancialmente com
a lavagem do dinheiro do tráfico de drogas. A novidade é que teria sido
essa grana suja que os salvou da bancarrota na terrível crise de 2008
Examinando matérias antigas, observo uma, assinada por Rajeev Syal e publicada no The Guardian em 13.12.09, que repercute o que disse o italiano Antonio Maria Costa, que chefiou de 2002 a 2010 o Escritório de Drogas e Crime da ONU (The United Nations Office on Drugs and Crime - UNODC): U$ 352 bilhões oriundos de ações criminosas foram lavados pelo mercado financeiro no período da crise global de 2008 e foram fundamentais para manter as instituições financeiras funcionando.

Vou ser o mais claro possível: se o ex-chefe do UNODC estiver certo, foi o dinheiro do crime que salvou o mercado financeiro na crise de 2008. Não fosse a venda de armas e de drogas, por exemplo, fora os outros crimes, como os que falam de desvios do erário para o bolso de particulares, o mercado financeiro estaria em sérias dificuldades e os governos, que já são subservientes aos banqueiros, talvez não tivessem recursos suficientes para saciar a voracidade usual do mundo das finanças.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Junk food parece ter piores efeitos para o cérebro de homens, segundo estudo realizado no Texas, EUA


Hambúrguer, Coca & fritas: o delicioso trio do
terror. Não alimenta, destrói a saúde e vicia.
Em matéria do ano passado, de 17 de outubro de 2014, Clare Dor, que escreve para o portal ABC Science Online, diz que o hábito de almoçar hambúrgueres com refrigerantes pode ser mais prejudicial para os homens do que para as mulheres. Segundo pesquisa realizada com camundongos, constatou-se que a péssima alimentação proporcionada pela chamada junk food causa inflamações no cérebro dos machos, enquanto as fêmeas estariam mais protegidas, graças à presença do estrogênio no organismo, o hormônio que controla a ovulação. A pesquisa foi realizada na Universidade Southwestern Medical Center, que fica em Dallas, Texas, coordenada por Deborah Clegg e publicada na Cell Reports.

A pesquisa partiu da constatação de que uma das causas da inflamação no hipotálamo é o ácido palmítico, que é encontrado em óleos vegetais, produtos lácteos e também na carne, sendo bastante comum em alimentos ricos em gorduras. O hipotálamo, talvez seja bom lembrar, é importantíssimo para o bom funcionamento corporal, tendo como função a regulação dos processos metabólicos e a ligação do sistema nervoso ao sistema endócrino. Inflamado, o hipotálamo funciona mal e, desse modo, uma série de problemas ligados ao metabolismo surgem, inevitavelmente. 

Seremos, afinal, zumbis que comem lixo e lucram com a desgraça dos outros?



Se inadvertidamente você se identificar com um dos nada
simpáticos tipos acima, não se assuste. Isso pode ser mais
plausível do que você jamais imaginou. Os zumbis podem
ser a imagem mais fidedigna do cidadão contemporâneo...
A alimentação é fundamental. Há três elementos que são básicos, absolutamente necessários para a vida e o alimento, alimento de verdade, é um deles. Os outros são o ar, o oxigênio, e a água. De modo direto e claro, os seres vivos precisam ter garantido esse tripé para sobreviver. No entanto, há seres, no caso seres humanos, esses que deveriam ser melhores do que os animais (pois certamente assim se creem), mas que dificultam o acesso de outros seres, humanos ou não, a alimentos e, principalmente, a alimentos que realmente alimentem (atitude que certamente os coloca em posição bem inferior à dos animais). 

E por que fazem isso? Dizem que pelo impulso “saudável e natural” de se dar bem em tudo. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Como reconhecer um psicopata, se ele lhe der chance para isso

Ontem, publiquei texto que afirma estar na mão dos financistas o poder, em detrimento de todos os outros seres humanos, que acabam financiando, com seu suor, sangue e outros fluidos corporais, o vício de ganhar dinheiro fácil, característico da especulação financeira. Ontem mesmo, passando os olhos pela internet, descobri textos que dão conta de que um grupo financeiro foi responsável pela inflação que assola o preço dos alimentos e condena muitos à fome ou, pior, à má alimentação, já que, em alguns casos, os produtos alimentícios disponíveis são ruins e, em boa parte, nem poderiam ser classificados como alimentos. 

No mesmo texto, associei o processo lógico que fundamenta a especulação financeira como psicopático, o que significa dizer que se formulou, nesse caso, uma subjetividade com características próprias e claras que se associam à patologia psíquica citada nos manuais psiquiátricos. Logo, não significa dizer que todo financista, teórico ou operador do mercado financeiro seja um psicopata, individualmente, mas que está inserido numa máquina de guerra que formula uma subjetividade psicopática e, assim, está efetivamente em conflito com a sociedade e, de forma geral, com a própria espécie humana. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Quem manda no mundo são os financistas e o resto só costuma perder


O psicopata é um amor de pessoa que, na
verdade, é capaz de qualquer coisa para se
satisfazer; assim, ele cria a sua própria lei
Não é paranoia ou mania de perseguição, garanto. O fato é que o mercado financeiro, ou seja, o conjunto de instituições que compõem o cassino de circulação de dinheiro virtual pelo mundo, manda e desmanda e não Estado de Direito ou Nação que lhes faça frente. Na prática, os governos estão à mercê dessas instituições ligadas às finanças, seja por subserviência por interesses ou por incapacidade de resistir às pressões. 

Se no jogo do cotidiano, entre pessoas, personalidades ou subjetividade, conforme se prefira definir, o assunto que domina as atenções é a micropolítica, ou seja, os acontecimentos e atitudes de cada indivíduo ou pessoa no contexto geral das relações de poder de uma cultura, quando se fala das finanças mundiais, evidentemente o enfoque só pode ser macropolítico, ou seja, as instituições financeiras forçam e determinam políticas econômicas gerais e ampliadas que atendem, prioritariamente, aos seus próprios interesses. Isso, parece óbvio, é um tiro no coração do Estado de Direito e no sistema democrático: não é a maioria que governa, mas uma minoria privilegiada que, ao determinar certas regras, leva vantagem no conjunto geral. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Choro contido

Quando criança, chorava quando sentia dor,
fosse dor física ou emocional, 
concreta ou etérea, quero dizer,
queimando na pele do corpo ou da alma. 

O fato é que eu chorava. 

Conferência de Saúde é interrompida para dar lugar a clamor contra impeachment


Dilma surgiu repentinamente na Conferência, que deixou de
tratar da Saúde Pública para se transformar em pajelança 
Há alguns dias, tomei ciência de que a participação da presidente Dilma Rousseff na 15ª Conferência Nacional de Saúde (15ª CNS) significou o encerramento precoce do evento, sem que pudesse ser realizada a Plenária Final, na qual as propostas que não obtiveram unanimidade nos grupos de trabalho. Ou seja, em termos claros, a Conferência acabou antes da hora, foi, segundo informações, encerrada pela máquina governamental empenhada na defesa do mandato da presidente (ninguém me relatou que foi decisão espontânea dos delegados presentes) e, pasme, delegados eleitos em seus estados, pagos com dinheiro público para ali estar e discutir a saúde brasileira e o Sistema Único de Saúde (SUS), chegaram a apanhar dos seguranças do evento e da Presidência, com muitos sendo impedidos de entrar no auditório onde deveria se realizar a Plenária Final. Houve, do outro lado, os delegados que foram eleitos para discutir a saúde e o SUS, mas abandonaram a tarefa e foram aplaudir Dilma e clamar que “não vai ter golpe”. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre as fantasias e sentidos em torno de uma carta


Imagem de um passado feliz
que talvez não mais se repetirá
Quando as fantasias assumem o controle, a realidade é torcida e distorcida de acordo com o desejo, a força motriz crua das paixões. Usualmente, muita gente pensa e age de acordo com suas fantasias e tece análises e teorias fundadas quase que totalmente nelas. Nesses casos, o velho adágio que dita que a observação da realidade deve pautar o pensamento é invertido e o pensamento acredita que pode ditar a realidade. Em outros termos, é como se o mapa, num momento de loucura, começasse a acreditar seriamente na sua originalidade em relação ao território, isto é, seria o terreno real que existiria para representar o mapa. 

Para mim, isso é o que tem recorrentemente ocorrido quando se fala da tal carta de Michel Temer, o vice da Presidência da República. O que se tem dito de sandices não é normal, fora as inevitáveis e divertidas piadas, estas saudáveis, porque trabalham com o humor criativo. A carta é uma peça que se oferece, como um fetiche, para a suposta dissecação das intenções do vice. Tudo indica que tenha sido astutamente criada para cumprir essa função, fato que nos remete a uma inteligência sutil que parece estar contida na carta. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Carta de Temer é uma bomba no colo de Dilma


Temer e Dilma sempre seguiram caminhos diferentes
e a carta escrita pelo vice consolida o rompimento
A carta escrita por Michel Temer e endereçada a Dilma Rousseff é uma bomba. Se já o era quando era confidencial e pessoal, ao vazar para o público aumentou seu poder de dano em muito, já causando vítimas quase fatais no Palácio do Planalto. Pior: só pode ter sido alguém do próprio Palácio que a divulgou, o que corresponde não exatamente a um tiro no pé, conforme avalia um colunista da Veja, mas, para mim, um tiro na cabeça. 

A carta começa com uma epígrafe que remete a um ditado latino: “Verba volunt; scripta manent” - “Palavras ditas voam; palavras escritas permanecem”. Nada mal para começar e o escrito teria sentido quando se sabe que Temer não gostou nem um pouco de ter palavras postas em sua boca por ministros de Dilma. Assim, resolveu marcar posição e se prevenir de novos dissabores. Essa parece ser a mensagem anexa à carta. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O indivíduo, esse rei de um reino imaginário


Pela lógica do espelho, o eu olha para
o outro em busca de ver a si próprio,
mas, na verdade, olha para si próprio e
enxerga apenas uma imagem construída
pelo outro, num processo de alienação.
Este é o terceiro texto com temas inspirados no livro “O Homem Deus”, de Luc Ferry. Como já foi dito, não se trata de um resumo ou sinopse, mas de uma livre apresentação baseada nos escritos de Ferry. 

Sujeito é tudo e mais um pouco
Na realidade em que vivemos, podemos perceber que os critérios coletivos cada vez mais perdem espaço para as referências individuais. O indivíduo, hoje, é como um monólito autocentrado, embora, na prática, bem se pode perceber um jogo especular, no qual o indivíduo é apenas uma formação subjetiva do homem-massa. Logo, apesar de se crer um sujeito autodeterminado, o indivíduo contemporâneo é uma entidade de massa, um boneco animado e robotizado que repete frases feitas e pensa com base em ideias prontas, ou pensa que pensa, é claro. 

Em parte, o abandono da transcendência (ver textos anteriores sobre as ideias do livro: texto 1 - texto 2) serviu sobremaneira para viabilizar essa situação desastrosa na qual o indivíduo assume uma importância desproporcional no contexto da vida humana. O indivíduo, assim, torna-se o centro do mundo, quando, na verdade, é governado pelo real centro do mundo (como no modelo de massa, trabalha com um emissor central e milhões de receptores), embora se acredite o responsável por seus desejos, sentimento, pensamentos e atos. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Já vimos esse filme: Dilma busca apoio de bases sociais contra impeachment


Dilma e Cunha se enfrentam e só nos resta assistir à
baixaria como quem assiste a um jogo de tênis enfadonho.
Ele quer se salvar da prisão, ela busca os mesmos apoios
que atraiu e, sem pudor, traiu depois de eleita em 2014
Uma das táticas incluídas na estratégia do governo para se safar é recorrer aos movimentos sociais. Legal, admirável. Em 2014, durante a eleição, ocorreu o mesmo e, depois de eleita, Dilma esqueceu os compromissos e fez o oposto do que tinha acertado com os movimentos sociais. 

Já no plano interno, Dilma tenta incentivar o time, dar aquele “up” no ânimo da equipe de ministros e chamou reunião, da qual Michel Temer, o vice, o cara que assumirá o cargo de Dilma caso esta seja defenestrada, desconversou e não ficou. Temer é feito de gelo e, para não derreter, se mantém usualmente à parte. Jaques Wagner tentou ser intérprete de Temer, disse, em entrevista, que o vice acha “forçação de barra” o processo de impeachment. No entanto, sua assessoria parece ter negado isso. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Segundo empresa de consultoria, processo aberto por Cunha não arrastará Dilma ao cadafalso


Segundo consultoria, Dilma
vai balançar mas não cair
Uma empresa que presta consultoria em questões políticas (se é que entendi bem) chamada Eurasia, que tem sede em Washington, garante que Dilma sai bem do processo de impeachment. Os motivos? Fundamentalmente, os analistas dizem que o processo chega antes do “pior” da Lava Jato e, também, da recessão econômica. Para eles, Cunha escolheu o momento errado para abrir o processo. Ele teria tentado desviar a atenção de seu processo de cassação para o de Dilma, mas, segundo a tal Eurasia, essa artimanha não vai colar. 

A empresa de consultoria conta com uma demora no processo, por conta do recesso parlamentar, mas há quem diga que esse recesso será brevíssimo, até porque todo e qualquer deputado ou senador fotografado na praia poderá se transformar no alvo do ódio popular. A mensagem é clara: enquanto o país está incendiando, o vagabundo vai tomar banho de sol com a mulher e os filhos. Trata-se de algo a ponderar e ouvi alguns deputados já maldizendo essa realidade. Cunha teria conseguido, de forma inapelável, acabar com as férias dos colegas. 

Justiça seja feita: puxado pelo seu presidente, PT enfrenta Cunha e limpa sua reputação, mas não a do governo

Vamos fazer justiça. Há dias, publiquei texto que associava o apoio petista a Cunha como uma vergonha. Pois o presidente do PT, Rui Falcão, bateu de frente com o governo e recomendou o voto contra Cunha na Comissão de Ética. O Planalto, leia-se Dilma et caterva, não gostou, pois quer manter a teta para mamar até 2018. 

Parabéns a Falcão, que parece ter entendido que apoiar Cunha seria o último ato do suicídio que o partido iniciou há 13 anos, embora o apoio a Cunha mantivesse Dilma no poder por mais algum tempo. O fato é que o PT precisa, ainda mais neste momento, ser maior do que o governo e Falcão agiu bem. 

A vergonha, assim, ficou para os petistas alojados no governo. 

Começou a novela do impeachment


Entre tapas e beijos constrangidos, Dilma e Cunha entram
em guerra: devem cair abraçados, dizem os entendidos.
Renan Calheiros e Lula terão sua vez, juram alguns analistas
Em fevereiro, Eduardo Cunha, o atual presidente da Câmara dos Deputados, tomou posse do cargo e seus correligionários comemoraram bastante. Alguns disseram, levantando seus copos e com a boca cheia de caviar, que Dilma cairia em, no máximo, nove meses. Isso não aconteceu, como se pode perceber, mas, em compensação, mal acabou novembro e o acuado Cunha, ao ver o abismo chegar próximo demais, iniciou o processo de impeachment da presidente. 

A previsão, no entanto, independente de datas, sempre foi a de que Dilma não terminaria o mandato e isso parece seguir rumo à concretização. Embora não se possa afirmar que o processo de impeachment vá chegar ao final com a deposição, essa é uma possibilidade que deve ser seriamente considerada. Ainda mais que, no caso, quem assume é o vice, Michel Temer, político muito bem relacionado, sereno, quase um homem de gelo, com modos de lorde inglês e líder do maior partido do Brasil. A aposta é que o PMDB não vai deixar escapar essa chance. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sem transcendência e com egos gigantescos, cumprimos metas que nada nos dizem


E, assim, vamos subindo na escada cujos degraus são metas
a serem alcançadas. O problema é que essas metas nos são 
impostas de fora, sem qualquer relação com algo que possamos
chamar de nosso, embora, graças a um engenhoso mecanismo
gerador de ilusões, temos o hábito de considerá-las como 
intrinsecamente nossas, da nossa mais genuína autoria
Voltando ao livro “O Homem Deus” (L’Homme-Dieu), de Luc Ferry, datado de 1996, mas apenas publicado no Brasil em 2007, proponho pensar no “sagrado”, pois, segundo o autor, o sagrado inspirou a cultura humana em sua totalidade e em suas diversas partes. É uma ideia interessante e que dá um toque menos macabro na lógica que afirma a cultura humana como resposta à morte, simplesmente. Ao se inserir o sagrado nessa equação, fala-se de uma perspectiva que vai para além da morte, isto é, uma perspectiva de um além do fim. 

O sagrado está relacionado ao religioso e os sentidos do conceito de “religião” nos auxiliam, pois falam de duas noções: a de releitura (relegere) e a de religação (religare). No primeiro caso, está em jogo a releitura de textos religiosos e no segundo, a busca de uma religação com a divindade ou com os antepassados. A primeira teria sido defendida por Cícero (Marco Túlio Cícero – 106 a.C./43 a.C., filósofo, orador, escritor, advogado e político romano) e a segunda teria o etimologista brasileiro Silveira Bueno como prócer. 

E o Troféu Cara de Pau vai para...


Depois de saber das declarações da diretora da Vale,
houve quem dissesse, claramente em tom de piada,
que os peixes do Rio Doce morreram, então, afogados.
Para muitos, o que a empresa tenta é minimizar
a sua clara e evidente responsabilidade no caso.
Segundo matéria publicada no Portal ESHoje, uma diretora da Vale do Rio Doce, uma das empresas proprietárias da Samarco Mineradora, aquela que destruiu a natureza e a vida de milhares de pessoas em Minas Gerais, saiu na frente na disputa pelo Troféu Cara de Pau, a Taça de Ouro do Cinismo. Ela disse, acredite, que a lama que a Samarco despejou sobre plantas, pessoas, casas, peixes e diversos outros animais, com efeitos trágicos é, algo assim como inofensiva e servirá, inclusive, como adubo para o reflorestamento da área. Sim, é verdade.

A afirmação é tão absurda que a gente chega a duvidar que alguém disse realmente isso. Se você puser, lado a lado, a frase da senhora diretora e os peixes mortos do Rio Doce, bem se pode dizer que, houvesse realmente o tal troféu, o prêmio já seria dela, de forma definitiva e inapelável.

E dizem que no Brasil não há terrorismo...


Mais um ato terrorista de agentes do
Estado, agora em Foz do Iguaçu.
Desta vez, guardas municipais, com
inegável covardia, atacam malabarista
que, segundo testemunhas, não teria
desacatado os policiais, apenas
implorado para que não levasse mais
choques, mesmo algemado. No Brasil, o 

terrorismo é de Estado. É mais asqueroso
Outro dia, alguém me disse que estava muito revoltado com os atentados terroristas em Paris. Eu também, falei e dei corda, comentando como isso acontece com frequência no continente europeu. Esse “alguém” afirmou, então, que “Esse negócio de terrorismo é coisa de Primeiro Mundo, nós estamos livres disso no Brasil”. Eu ri. 

“Alguém” não sabe o que diz. Aqui mesmo, no Brasil, há atos terroristas todos os dias e, pior, são cometidos por agentes públicos, ou seja, pelo Estado. No último fim de semana, em Costa Barros, Rio de Janeiro, cinco meninos foram inapelavelmente metralhados por um grupo terrorista fardado, mais precisamente soldados da Polícia Militar do Rio de Janeiro. E os terroristas nem sequer se deram ao trabalho de escapar do local do crime. Pelo contrário, ali ficaram e tentaram maquiar a cena, “plantando” pistolas, deles mesmos, nas mãos das vítimas, usando, para isso, luvas de borracha que nem sequer se deram ao trabalho de ocultar, abandonando-as ao lado do carro. É a certeza da impunidade, provavelmente, pois costuma-se dizer no Rio que a farda garante privilégios, inclusive o de matar sem sofrer consequências por isso. Basta, como tentaram fazer os terroristas da PM que metralharam os rapazes, “provar” que a vítima era bandida e pronto, tudo está certo e a vida continua. No caso, não deu certo... 

Mas, no entanto, é preciso dizer que não são todos os soldados da PM que merecem ser chamados de terroristas ou de coisa pior. Há pessoas de qualidade na corporação, mas a instituição Polícia Militar é que precisa ser repensada, pois é, sempre repito, uma tropa de dominação (e massacre) colonial com prazo de validade vencido há muito. Uma sociedade democrática não pode aceitar algo assim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Petistas prestigiam Cunha e representam, hoje, a desesperança e o desencanto com a política


Ironia: o slogan de 2002 foi deturpado
e o PT é, hoje, o ícone da desesperança
Bastou o deputado Eduardo Cunha bater o pé para os petistas correrem a ajudá-lo: a ele, um dos sujeitos mais aéticos que já ocuparam a presidência da Câmara dos Deputados brasileira. O desespero de Cunha é grande e sua ausência de escrúpulos quando sente a água bater na bunda é notória. Se perder o mandato, certamente estará, em menos de uma semana, atrás das grades, creio que merecidamente. Mas, o pessoal do governo não pensa assim e age de forma tão aética quanto Cunha e outros que, antes, eram torpedeados pelos petistas éticos (ou que aparentavam sê-lo).

Como se não bastasse ter mentido quando disse que não tinha contas no exterior e como não bastasse terem descoberto as tais contas, ainda tem a história dos R$ 45 milhões que teria recebido do banco BTG Pactual para mexer numa Medida Provisória e beneficiar o banco. Uma vergonha, um escândalo de virar o estômago. Mas, Cunha se diz inocente e acusa o Palácio do Planalto: é o esfregão falando do pano de chão. 

Governo “ixperto” faz cobrança indevida sobre o servidor público (provavelmente porque gosta de levar vantagem em tudo, certo?)


Novos ricos: a encarnação da pobreza de espírito 
O governo deve dar bons exemplos, mas isso não parece acontecer. Em tempos de corte de despesas radicais, nos quais salários sofrem desvalorização e descontos aumentam sem peias, tem órgão público trocando todo o mobiliário por belas e novas peças, cadeiras, mesas e, creio, armários e poltronas. As antigas não parecem tão prejudicadas assim, mas, de todo modo, estão sendo trocadas. 

Mas, o pior dos maus exemplos tem sido dado há muito e se refere ao desconto para a previdência. O governo tira do servidor o que não paga na aposentadoria, ou seja, desconta sobre 100% de uma gratificação, a de desempenho, que será paga ao aposentado pela metade, ou seja, 50%. Cobra sobre 100%, mas dá 50%. Isso não é honesto, muito menos justo.