terça-feira, 24 de novembro de 2015

Na América Latina, “governos progressistas” dão lugar a “governos conservadores” e tudo parece ser muito parecido


Substituição na América Latina: saem os pontas-esquerdas,
entram os pontas-direitas, mas o jogo parece sempre o mesmo 
Segundo Alejandro Mantilla Quijano, tudo indica que um colombiano com pensamento e práxis voltada a causas populares, a América Latina chega ao fim de um ciclo. O que termina, segundo ele, é o ciclo de ascensão de governos populares no continente. O fato que lhe induz a essa tese é a vitória de Maurício Macri nas eleições presidenciais argentinas. Mas, o contexto em que isso ocorre é que importa e, segundo Quijano, o projeto político que elevou os governos populares foi débil e, mais uma vez, lemos que a esquerda tem que se reinventar. Outros teóricos, como Maristella Svampa e Raul Zibechi, dizem o mesmo.


Veja que parece claro que países como Venezuela e Brasil têm governos débeis, que encaram dificuldades mais por seus defeitos do que por todos os problemas externos que possam ser evocados. Ambos padecem, em parte, pela orfandade: Hugo Chávez desencarnou e Lula está fora do poder, ainda com influência, é claro, mas acuado por conta de seus envolvimentos nos esquemas de desvios de recursos que hoje levam seus companheiros, como Dirceu e Vacari, à cadeia. São governos com a cara de seus líderes mortos ou semi-aposentados e que, sem eles, ficam disformes, perdendo a habilidade sutil que os levou ao poder, qual seja a de obter a simpatia dos mais pobres agradando aos mais ricos. 

Com relação a Chávez, não sabemos dizer com tanta precisão, mas com relação ao ex-presidente brasileiro, bem podemos dizer algo. A questão é que Lula não é comprometido com movimentos populares, aparentemente apenas os tendo usado quando foi necessário. Seu governo não foi articulador de políticas públicas populares, sua ação se limitou à distribuição de bolsas, ou seja, dinheiro que o governo deu aos mais pobres para sobrevivessem e se integrassem socialmente, e outras medidas, como a suspensão de impostos, que não tiveram outro objetivo que não o de incrementar o consumo. 


No Brasil, governo e oposição
são amantes do grande capital
Sem bons exemplos
Organizar a sociedade? Apoiar movimentos populares? Provavelmente, isso é coisa de gente chata, que não bebe, que não sabe curtir a vida. Lula e seu pessoal não pensam nisso, preferem curtir a vida e comprar objetos que lhes digam que estão ricos e muito bem, obrigado. 

No entanto, o pessoal do governo petista tem o hábito de não fazer autocrítica. Ninguém gosta de fazer isso, aliás, mas é necessário. A realidade mostra que o governo de esquerda brasileiro favoreceu mais aos seus próprios membros, os amigos e, de forma geral, os mais ricos, os financistas. A dívida pública foi quintuplicada, sangra em quase 50% o caixa do Estado em cada ano, denúncias dão conta de que o banco estatal de fomento inexplicavelmente distribuiu dinheiro a alguns milionários, o número de cargos comissionados aumentou excessivamente e a Justiça tem mostrado que a corrupção acabou se tornando uma nefasta regra entre grupos prestigiados pelo Palácio do Planalto. 

Um governo deve dar bons exemplos, quanto mais melhor. Se não faz isso, contamina a sociedade com seu mau proceder e causa males aparentemente indeléveis. Após estes treze anos em que o partido de número 13 esteve no poder, os maus exemplos pululavam e os bons foram dados, na verdade, mais por uma evolução das articulações do Capital do que por iniciativas do grupo do Planalto. A integração econômica, cada vez maior, das antigas classe populares, hoje chamadas de “classe média” até pelo próprio governo de esquerda, é patente e óbvia não apenas no Brasil, mas também em outros países periféricos. Não foi o governo petista que inventou isso, mas disso se aproveitou com bastante habilidade a ponto de uma senhora que conheço e que é politizada, ou seja, não é tola a ponto de acreditar em sombras, ter declarado seu voto em Dilma no ano de 2014 por conta de pessoas pobres que conhece estarem viajando de avião... 

Esquerda e Capital têm caso secreto
A mentalidade governista brasileira é a do “aos amigos tudo, aos inimigos a dureza da lei”. É isso que a sociedade tem recebido como exemplo. Cabe lembrar, assim, que a pior corrupção não é a financeira, mas a moral. 

Veja bem que Quijano fala de conquistas dos governos progressistas e diz que eles conseguiram “derrotar as oligarquias tradicionais, limitaram a influência dos Estados Unidos na região, criaram novos cenários de integração a partir do Sul, promoveram programas sociais que reduziram a pobreza em seus países e deram os primeiros passos para enfrentar a hegemonia liberal globalizada”. Tudo bem, mas alguns pontos merecem exame mais detalhado. As oligarquias tradicionais já estão sendo derrotadas há muito, as oligarquias locais, porque as internacionais, compostas por banqueiros com força suficiente para eleger, controlar e derrubar governos, tiveram e tem todo interesse no enfraquecimento dos ricos locais e têm trabalhado com afinco para isso. E o “governo de esquerda” brasileiro as tem ajudado bastante. 

É o caso de dar razão aos que juram que os partidos e governos “de esquerda” têm, historicamente, beneficiado, acima de tudo, o Capital. Quijano, apesar de falar dos tais avanços, que eu e outros achamos duvidosos, reconhece as debilidades dos “governos de esquerda”, embora não fale do “caso secreto” da esquerda com os banqueiros...  

A distribuição de riqueza no Brasil e em toda a América Latina foi débil, na verdade. Emblemático é saber que, enquanto o programa Bolsa Família distribuiu aí os seus R$ 30 bilhões anuais, do outro lado o pagamento da dívida pública, com todos os desvios que o movimento pela auditoria da dívida de Maria Lúcia Fattorelli tem denunciado, alcança anualmente a cifra astronômica de quase R$ 1,5 trilhão. É uma goleada para os milionários. Esmolas para os pobres e milhões para os mais ricos, esta é, tudo indica, a filosofia lulopetista e, quem sabe, também a de outros movimentos da “esquerda” latino-americana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário