terça-feira, 17 de novembro de 2015

Despindo a Vênus Platinada

Segue um texto muito instrutivo e divertido, apesar da tragicidade do tema. A autora, Vanessa Bárbara, consegue tratar de forma até algumas vezes cômica a dura realidade das transmissões da maior e, provavelmente, a pior televisão da América Latina (ou uma das piores, com certeza, em conteúdos). 

Em termos precisos, Bárbara despe a "Vênus Platinada" (*) e o que se vê são eczemas morais e uma escandalosa esqualidez ética. 

Foi publicado no New York Times, na seção "International Opinion | Contributing Op-Ed Writer". Os respectivos links estão no final dos textos em português e em inglês. 

Boa leitura
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(*) Vênus Platinada foi o apelido da emissora durante muito tempo. Alguns dizem que graças ao prédio administrativo da Rua Lopes Quintas (Jardim Botânico, Rio), que ganhou essa alcunha em 1976. 

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Rede Globo, a “TV irrealidade” que ilude o Brasil 
Vanessa Barbara, no International New York Times, via UOL - Em São Paulo 

Gigante da mídia cativa os telespectadores com novelas vazias e comentários ineptos no noticiário. 

No ano passado, a revista “The Economist” publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil. Ela relatou que “91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano”.

Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.


Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor. Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).

Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.

Assim, o que essa presença onipenetrante significa? Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.



A empresa Globo é costumeiramente
acusada de distorcer a realidade e já
pediu desculpas por apoiar o golpe
militar brasileiro, que durou de 1964
a 1985 (foi durante esse período
que a emissora de TV floresceu)
Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. “À luz da História, contudo”, o grupo disse, “não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original”.

Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.

A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e “do bem”. Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo. Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.

Eu decidi pular os programas da tarde –a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood– e ir direto ao noticiário do horário nobre.

Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário “Jornal Nacional” a Homer Simpson –incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente “É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água”.

Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. “Dunga disse que gosta de sorrir”, disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira. Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como “o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade”.



Globo, Jornal Nacional, Bonner & Homer Simpsom: tudo a ver?
O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade. Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. “A Regra do Jogo”, por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos. A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.

Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.

Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar –assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.

*Vanessa Barbara é uma colunista do jornal “O Estado de São Paulo” e editora do site literário “A Hortaliça”.

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/colunista-do-new-york-times-rede-globo-a-tv-irrealidade-que-ilude-o-brasil.html

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Abaixo, a versão publicada no NYT
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Escaping Reality With Brazil’s Globo TV 
From New York Times | Nov. 10, 2015 


SÃO PAULO, Brazil — Last year, The Economist published an article about TV Globo, Brazil’s largest broadcast network. It reported that “91 million people, just under half the population, tune in to it each day: The sort of audience that, in the United States, is to be had only once a year, and only for the one network that has won the rights that year to broadcast American football’s Super Bowl championship game.”

That figure might seem exaggerated, but all it takes is a walk around the block for it to look conservative. Everywhere I go there’s a television turned on, usually to Globo, and everybody is staring hypnotically at it.

Not surprisingly, a 2011 study supported by the Brazilian Institute of Geography and Statistics found the percentage of households with a television set in 2011 (96.9) was higher than the percentage of those with a refrigerator (95.8), and that 64 percent had more than one television set. Other researchers have found that Brazilians watch four hours and 31 minutes of TV per weekday, and four hours and 14 minutes on weekends; 73 percent watch TV every day and only 4 percent never regularly watch television. (I’m one of the latter.)

Among them, Globo is ubiquitous. Although its audience has been declining for decades, its share is still about 34 percent. Its nearest competitor, Record, has 15 percent.



Acusada de distorcer informações,
a TV Globo foi alvo dos manifestantes
em 2013 e teve sua sede
apedrejada
 
So what does this all-pervading presence mean? In a country where education lags (the Organization for Economic Cooperation and Development recently ranked us 60th among 76 countries in average performance on international student achievement tests), it would imply that one set of values and social perspectives is very widely shared. Furthermore, being Latin America’s biggest media company, Globo can exert considerable influence on our politics.

One example: Two years ago, in a bland apology, Globo confessed to having supported Brazil’s military dictatorship between 1964 and 1985. “In the light of history, however,” it said, “there is no reason to not recognize explicitly today that this support was a mistake, and that other editorial decisions in the period that followed were also wrong.”

With these hazards in mind, and in the name of good journalism, I watched a whole day of Globo programming on a recent Tuesday, to see what I could learn about the values and the ideas it promotes.

The first thing most people watch each morning is the local news, then the national news. From those, one might infer that there is nothing more important in life than the weather and the traffic. The fact that our president, Dilma Rousseff, faces a serious risk of impeachment and that her main political opponent, Eduardo Cunha, the speaker of the lower house of Congress, is being investigated for embezzlement, get less airtime than the details of traffic jams. Those bulletins are updated at least six times a day, with the anchors chatting amicably, like old aunts at teatime, about the heat or the rain.

From the morning talk shows and other programs, I grasped that the secret of life is to be famous, rich, vaguely religious and “do bem” (those who stand on the side of good). Everybody on-air loved everyone else and smiled all the time. Wondrous tales were told of people with disabilities who had the willpower to succeed in their jobs. Specialists and celebrities discussed that and other topics with remarkable superficiality.

I decided to skip the afternoon programs — mostly reruns of soap operas and Hollywood movies — and go straight to the prime-time news.



Segundo dizem seus críticos, a Globo promove
um clima constante de crise e ansiedade, para
deixar as pessoas ameaçadas e mais vulneráveis. 
Ten years ago, a Globo anchorman, William Bonner, compared the average viewer of the news program Jornal Nacional to Homer Simpson — incapable of understanding complex news. From what I saw, this standard still applies. A segment on a water shortage in São Paulo, for example, was highlighted by a reporter, standing at the local zoo, who said ironically: “You can see the worried look of the lion about the water crisis.”

Watching Globo means getting used to platitudes and tired formulas; many news scripts include little puns at the end, or an inanity from a bystander. “Dunga said he likes to smile,” one reporter said about the coach of Brazil’s national soccer team. Often, a few seconds are devoted to disturbing news like a revelation that São Paulo would keep operational data about the state’s water supply secret for 15 years, while full minutes are lavished on items like “the rescue of a drowning man that caused awe and surprise in a little town.”

The rest of the evening was filled with soap operas, from which you could learn that women always wear heavy makeup, huge earrings, polished nails, tight skirts, high heels and straight hair. (On those counts, I guess I’m not a woman.) Female characters are good or bad, but unanimously thin. They fight one another over men. Their ultimate purposes in life are to wear a wedding dress, give birth to a blond-haired baby or appear on television, or all of the above. Normal people have butlers in their homes, where hot male plumbers visit and seduce bored housewives.

Two of the three current soap operas talk about favelas, but with little resemblance to reality. Politically, they tend toward conservatism. “A Regra do Jogo,” for example, has a character who, in one episode, claims to be a human rights lawyer working with Amnesty International in order to smuggle bomb-making materials to imprisoned criminals. The advocacy organization publicly complained about that, accusing Globo of trying to defame human rights workers throughout Brazil.

Despite the high technical level of production, the novelas were painful to watch, with their thick doses of prejudice, melodrama, lame dialogue and clichés.

But they had their effect. At the end of the day, I felt less concerned about the water crisis or the possibility of another military coup — just like the apathetic lion and the empty women of the soap operas.

Correction: November 10, 2015 
An earlier version of this article incorrectly described a brief report by Globo television about the status of operational data on São Paulo’s water supply. The report said the data would be kept secret for 15 years, not that it had been kept secret for 25 years.

Vanessa Barbara is a columnist for the Brazilian newspaper O Estado de São Paulo and the editor of the literary website A Hortaliça.

http://www.nytimes.com/2015/11/11/opinion/international/escaping-reality-with-brazils-globo-tv.html?_r=0

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