domingo, 22 de novembro de 2015

Algumas reflexões e pensamentos em torno do tema do sentido da vida proposto pelo “Homem Deus” de Luc Ferry


Luc Ferry
Ler o livro de Luc Ferry, "O Homem Deus ou O Sentido da Vida", foi uma experiência, acima de tudo, agradável. Trata-se de um humanista e os humanistas andam raros, como se diz. Melhor: é um humanista crítico, daqueles que corta a própria carne, se for preciso, para refazer um caminho teórico ou mesmo para procurar um novo sentido. 

Para ler seu livro, não é preciso concordar com suas ideias, com aquilo que propõe como caminhos a seguir no plano humano. E é basicamente do humano que fala, todo o tempo, com aquela intimidade de quem pode chegar na sua frente e te olhar nos olhos, pois sabe que somos feitos da mesma massa. Não é preciso, nem se deve concordar, pois a mera concordância nada nos ensina. Mas ler suas palavras, perceber a conexão de suas ideias, é algo prazeroso e, na medida em que as questionamos no processo de leitura, vamos aprendendo novamente a pensar sobre isso que chamamos de “o” ser humano. 


O termo “ser humano”, aliás, anda em desuso, em cruel desuso. O pessoal francês, como Ferry, do pós-68 promoveu, depois do já realizado “desencantamento do mundo”, que me lembro ter lido em Max Weber, o desencantamento do humano, sua “estruturação” e “desestruturação” em partículas de merda. Os mesmos que Ferry já havia, pontualmente, desconstruído, um a um, por conta do serviço que prestaram ao pensamento frio e impessoal que parecia ter, como foco inequívoco, o calor humano. 

Em “O Pensamento 68”, livro escrito com Alain Renaut, Ferry traça críticas consequentes e bem construídas a Lacan, Foucault, Derrida e outros. Li o livro logo que foi lançado no Brasil, aí por 1988, creio, cheguei a presenteá-lo a um amigo querido. Na verdade, li o que me interessava naquele momento, basicamente Lacan e Foucault, que eram as modas intelectuais em Ipanema e adjacências. O exemplar que tenho, devo dizer, está emprestado, com a amiga que me emprestou o “Homem Deus” e, assim, me proporcionou o prazer de voltar a dialogar mentalmente com um humanista. E eu andava com muitas saudades dos humanistas... 

Não me proponho a fazer uma resenha, longe disso. Nem tenho tempo para isso. Bem que gostaria e seria uma honra gastar algum tempo com Ferry e sua obra, mas há muito o que fazer e me basta, por ora, compartilhar alguns trechos e algumas ideias colhidas nesse colóquio que autor e leitor travam silenciosamente na aparência, mas com muito falatório nos porões da alma. 

Compartilhando impermanências 
Digo que meu objetivo é compartilhar e é isso que Ferry propõe, quando discute noções como a da impermanência, exatamente aquilo que é eterno na vida. Fica a ideia que a lei que rege o mundo é a da troca, ou pelo menos a lei sadia e vital, integradora, que rege o mundo, por mais que haja outra vertente que compreenda que o apego ao material resulta em alguma permanência, ou, pelo menos, na noção de “aproveitar a vida” no melhor espírito do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. 

Outro sábio, Epicteto, que escreveu “A Arte de Viver” fala sobre isso e dá lições preciosas, como aquela que nos ensina a que não temos acesso ou qualquer controle sobre o que nos ultrapassa, ou seja, em relação àquilo que não depende de nós mesmos. Parece simples, mas perceba que se observar bem, quase ninguém compreende isso, ainda mais que pensar sobre o que nos ultrapassa nos dá a percepção de que a própria vida nos ultrapassa e que, em um dado momento, a estrada chegará ao fim e tudo descolorirá. 

Ferry, aliás, fala que filosofar é aprender a morrer e que a busca mais preciosa é a do ser e não a do ter, conforme outros humanistas já pontuaram, como Erich Fromm, que tem um livro dedicado a dissecar a relação entre o ser e o ter no que tange à identidade e, é claro, à posição filosófica do sujeito no mundo. 

Abaixo de zero no supremo pastiche da vida vegetal
A partir de Ferry é possível compreender que o humano alcançou um patamar do qual não tem como descer sob o risco de estar numa posição inferior ao animal. A Ciência, com “C” maiúsculo, tentou, durante muito tempo igualar o homem ao animal, tomar ambos como referência de um saber vasto e inesgotável que esgotasse, por sua vez, a compreensão, e possível controle, do humano. Isso parece ser ponto pacífico, algo consensual, embora possa haver divergências quando se formula essa ideia. O problema é que, se igualando ao animal, tudo indica que o homem desce abaixo dele, pois que dilapida o que tem de mais precioso, que é a liberdade. 

É inaceitável negar a liberdade humana no sentido em que nos pomos diante dos animais, que, aparentemente, não possuem qualquer liberdade a não ser a de obedecer cega e prontamente o que dita a natureza. Isso quer dizer que, para o bem e também para o mal, o ser humano escolhe e não segue perenemente o que lhe dita a natureza, embora esta esteja nele pelo corpo e lhe comande em inúmeros aspectos de sua existência, é claro. 

Ao falar do corpo, talvez se esteja tocando num ponto sensível no que tange à lógica do pensamento contemporâneo, notadamente o que se pode caracterizar como “pós-moderno”, no qual em muitos aspectos, o ser humano é reduzido ao corpo ou, mais precisamente, é observado através da lente de suas manifestações corporais. Em minha opinião, há que se ficar atento, pois quando se foca excessivamente um polo da velha dicotomia corpo/alma, é porque se está querendo dominar o outro polo. Uma das melhores estratégias de guerra, afinal, é atacar por onde o adversário menos espera. 

Quando digo, creio que em coro com Ferry, que o se o humano descer ao patamar do animal, se for compreendido e se agir como agiria um animal, ele estará negando o que lhe define como humano e, assim, descendo a um patamar no qual não tem sequer como competir com o animal. Este não nega ou se desfaz de sua natureza, até porque lhe é impossível. De certo modo, o homem imbecil, quem sabe se pode dizer o “homem medíocre” do qual Ingenieros nos falou, é algo como um sub-animal, um lixo completo, ou quase. 

Mas, se ao animal é impossível negar sua própria natureza, até porque a natureza está nele integralmente, ao humano é possível e, apesar disso poder ser considerado um ato de liberdade, ainda que questionável, é também uma escolha tétrica, a morte em vida. Um suicídio no qual não se morre fisicamente, mas no qual a vida passa a ser semelhante a de um vegetal. 

O lugar do passado no futuro
O fato é que o futuro tomou, na subjetividade humana, ou talvez mais especificamente na subjetividade das sociedades do ocidente, o lugar do passado. Isso é facilmente perceptível na predominância da subjetividade estadunidense no mundo ocidental, constituindo-se em algo mesmo indiscutível. O passado tem valor para culturas tradicionais, parece claro, aquelas, em extinção, que se fundavam na transmissão oral, nas quais o idoso era tido, quase que necessariamente, como um sábio. Ferry aponta para o fato de que quando isso ocorre, quando o futuro toma o lugar do passado, o idoso se transforma em velho e é, quase que necessariamente, um inútil. 

A velha Europa preza o passado, tem esse traço da subjetividade tradicionalista. Todo o pensamento filosófico europeu parece evolutivo, ainda que, vez por outra, tenha rupturas fulcrais. A base é a velha Grécia, Atenas, a Ágora, a Democracia, a Paideia, a Retórica, a Ética, a Política etc. etc. Um a um, os pensadores europeus foram empilhando e reempilhando teorias, trocando conceitos de lugar, definindo e redefinindo princípios norteadores daquilo que, desde cedo, se chamou o amor pelo conhecimento, a tal Filosofia. 


Não passarão, os idealizados sixties, de
um embuste midiático? Ou, como sugere
o autor, a conclusão de um projeto
nascido no século das luzes? 
Isso sem falar no permanente diálogo que se percebe ter havido entre a subjetividade social e cultural do humano europeu e os senhores pensadores, os que formularam e reformularam teorias, conceitos, axiomas e tudo o mais. É possível negar que Descartes apaziguou o desespero europeu com as descobertas de novas terras, nas quais havia seres humanos completamente diferentes daqueles conhecidos até então pelos europeus? Ele disse: “Calma, irmãos, se há um Deus maroto nos pregando peças, podemos ter certeza de que, se essas piadas são contadas, o são a alguém, que somos nós, logo existimos e somos o centro de tudo!”. E Hegel? Não estava respondendo, com os fundamentos da filosofia alemã, aos franceses que haviam feito uma revolução? 

A filosofia europeia, sua cultura, tem bases no passado, numa tradição que, apesar de toda a literacia e o rompimento com a tradição, ainda continua de raiz oral, ou seja, ouve-se o que o mais velho diz. Já, curiosamente, a estadunidense prima pelo desprezo ao passado e seu único degrau é aquele que está, de forma imaginária, no futuro ao qual se chega com os passos concretos e pragmáticos dados no presente. Nesse sentido, a juventude é a idade da sapiência, ou seja, aquela na qual é preciso e necessário dar os passos certos para alcançar as metas estabelecidas e se prolongar indefinidamente. Forever young, eles dizem, e, assim, a juventude alcançou o status de vanguarda revolucionária, aquela que “sabe o que quer”. 

Com relação à “revolução jovem” dos sixties, aliás, Ferry pincela uma leve mas profunda crítica, já no terço final do livro, quando refere o delicado tema dessa pseudo revolução, em todos os níveis, inclusive no do pensamento francês. Na prática, tomando em parte como referência o próprio Ferry e outros críticos da farsante revolução dos anos 1960, o que ocorreu foi aquilo que Erich Fromm caracterizou como “rebeldia”, ou seja, digno do caráter de quem nada quer mudar, mas que percebe que, mudando tudo de uma vez, pode encontrar uma brecha para que, astutamente, alcance uma posição de poder e passe a defender os princípios e ideias que dizia combater. Assim, a vanguarda se torna tradição, rapidamente e foi isso que aconteceu, a desordem passou a significar ordem e o grotesco, como ícone da desordem ordenada, se elevou ao nível de uma divindade. 

Bem, quando comecei, disse que não faria uma resenha. Apenas, com a presença de Ferry, tenho o interesse de compartilhar algumas ideias com você e é o que estou fazendo. 

(continua)

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