quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Se usasse seus poderes para o bem, Cunha seria um herói


Cunha tem inegável competência e, se quisesse, poderia
se tornar um herói nacional. Mas a descoberta de contas
secretas e denúncias mostram que ele não planejou isso
Certa vez, alguém me disse que se você tem uma dívida de R$ 1 mil é tratado como bandido e, se necessário, lhe dão uma surra ou chamam a polícia para fazer isso. Já se você deve R$ 1 milhão, te carregam no colo e servem cafezinho com cafuné, te ajudam até mesmo a pagar com desconto. Essa proporção é curiosa, pois, em tese, é fácil imaginar que quem deve pouco não deveria sofrer tanto, e mais fácil ainda imaginar que o grande devedor estaria passível de ser pendurado em uma árvore. Mas, a coisa não é assim. 


Veja Severino Cavalcanti, que foi presidente da Câmara dos Deputados há uma década. Houve denúncias de que ele teria recebido uma propina de R$ 100 mil para deixar o restaurante da casa na mão de alguém e ele, acuado e quase apedrejado, foi obrigado a renunciar. Na época, alguém teria até falado que tais denúncias inviabilizam a permanência de qualquer presidente de qualquer lugar, quanto mais de um presidente da “casa do povo”. Se não saísse, Severino estaria desmoralizando não a si próprio, mas à Câmara Federal. 

Hoje, porém, a tal “casa do povo” tem um presidente que tem contra si denúncias fundamentadas de esquemas envolvendo milhões, está sendo processado pela Justiça Federal e, no entanto, quase ninguém fala em derrubá-lo, com a exceção do PSOL e de talvez outro partido, isoladamente. O conjunto da maioria da “casa” continua fiel a Cunha, ou, pelo menos, não tem coragem de apontar a nudez do rei, exigir sua renúncia ou solicitar sua deposição. 



As descobertas de investigações na Operação Lava Jato 
denigrem ainda mais a imagem da classe política e o
Congresso Nacional é visto por muitos como um covil,
embora haja muita gente ética e honesta trabalhando ali
Ele diz que não tem contas na Suíça, mas os suíços dizem o oposto 
Veja que a coisa está bem feia para o Cunha que, esperto, não cogita a renúncia, muito pelo contrário. Leia o que diz uma matéria da BBC: 
De acordo com pessoas que fizeram acordos de delação premiada dentro da Operação Lava Jato, que investiga desvios na Petrobras, como o empresário Julio Camargo e o lobista Fernando Baiano, Cunha teria recebido US$ 5 milhões provenientes do esquema de corrupção na estatal. Nesses acordos de delação, o investigado aceita colaborar com a Justiça em troca de penas mais brandas.
As denúncias geraram uma representação contra Cunha no Conselho de Ética da Câmara. Se for aberto um processo contra ele, pode resultar em sua cassação pelo plenário ─ mas isso tende a se arrastar para o próximo ano. Já a possibilidade de renúncia foi rechaçada diversas vezes pelo próprio Cunha.
Para agravar, descobriu-se que Cunha tem contas milionárias na Suíça. E, mais grave, ele havia negado isso ajoelhado diante da cruz na CPI da Petrobras. Pior ainda: tem carrão importado em nome de Jesus e isso significa um pecado capital, daqueles que justificam ganhar uma passagem, sem escalas, para o inferno. Não há praticamente nada a favor de Cunha e, no entanto, ele se mantém de pé. Por que isso? 



As imposições do meio ambiente
determinam a sobrevivência e o
sucesso de espécies e espécimens.
Girafas 
de pescoço curto e políticos
éticos 
não parecem adaptados ao
que
o ambiente em que vivem
exige nestes tempos sombrios.
O conceito de anomia, usado por
Durkheim, pode explicar isso
A perfeita integração indivíduo/meio
O Cunha tem uma estrutura planejada, é competente, disciplinado e consciente de seu poder, além de ser assessorado por gente que entende do que faz e do que ele precisa. Se usasse seus poderes para o bem, seria um verdadeiro super-herói, pode ter certeza. Mas, de certo modo, me diz um amigo, não se pode pedir que o sujeito se torne frade vivendo em um alcoice de beira de estrada. Embora a imagem seja um tanto forte e grosseira, parece até adequada para definir o mundo político (ou pelo menos parte dele), que, maculado pelos escândalos frequentes, parece se pautar pelos interesses mais mesquinhos e nada exemplares. É claro que não dá para generalizar, mas... 

O caso Cunha parece ser daqueles em que a oposição indivíduo x meio fica obnubilada e a gente não consegue discernir qual a diferença entre um e outro na formação de um e do outro. É a pessoa certa no lugar certo, é o indivíduo formado pelo meio, mas também determinando a forma deste. Cunha personifica de forma admirável a mentalidade de boa parte de seus colegas parlamentares e estes parecem perceber em Cunha um ícone que traduz aquilo que se passa em seus corações. 

A boa administração é determinante e arrasta o fator econômico consigo
Você pode tentar resumir o poder de Cunha e a fidelidade de seus colegas ao poder econômico, mas este não passa de uma linguagem que é utilizada para demarcar e determinar os poderes. Antes de ter dinheiro, o sujeito precisa saber usá-lo, ou não vai adiantar nada ter o cofre cheio. Tão ou mais importante que a economia é a administração e não é à toa que tanto se tem pensado, nos últimos tempos, em estratégias para melhor administrar. Não é por acaso que as teses ligadas à administração têm transformado conceitos pedagógicos e trabalhado com noções filosóficas, ainda que deturpando boa parte delas. Saber administrar, na prática, é tudo e mais um pouco. O econômico parece ser importantíssimo, mas para alicerçar a boa administração. 

Cunha se mantém no poder porque é um administrador competente e o poder econômico, pelo menos em casos como esse, parece vir a reboque, ou, no máximo, andar de mãos dadas com a competência administrativa, lhe fornecendo alento, força e resistência. Pena que o deputado carioca não use seu poder para o bem, como as investigações da justiça vêm sugerindo, e pena que as atitudes dignas de um super-herói estejam tão desmoralizadas hoje em dia, só existindo mesmo na TV ou como firulas encenadas para a plateia. 

Cunha é claramente competente, mas todo mundo deixa falha e/ou deixa furos no percurso. Talvez ele tenha pensado que, sendo "homem do mercado", este, que muitos liberais definem como algo divino, uma entidade acima do bem e do mal, lhe garantiria no topo. Mas, nem sempre a coisa funciona como se quer ou se imagina. 

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