quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Se a moda hoje é jogar pedras no Cunha, antes já foi atirar beijos


Construído para legisladores, o
Congresso Nacional cada vez mais
tem sido palco de dramalhões
políticos e, é claro, jornalísticos
No caso Cunha, os territórios vão se definindo. A oposição (leia-se DEM, PPS, PR e PSDB) de um lado, bombardeando o presidente da Câmara e pedindo seu cargo. Do outro, o governo, que não sabe bem o que faz (aquela história de Dilma como liderança foi retórica do Lula, apenas isso), mas parece prudente em relação a Cunha, tanto para o bem, quanto para o mal. Morde e sopra, morde e sopra. 

O PSOL tomou a iniciativa e quer não apenas o cargo do deputado carioca, mas sua cabeça, ou seja, o seu mandato. Esse partido tem demonstrado as melhores práticas e as melhores propostas, entre todos os demais, creio eu. 

O mundo como folhetim
Trata-se de mais uma telenovela, já que esse modelo é o hegemônico na cultura jornalística brasileira: as grandes empresas do ramo operam, simplesmente, com uma distribuição básica de conteúdos dramáticos diversos, objetivando evocar a emoção, não a razão. Trata-se do padrão criado pelo folhetim, uma mídia cultural que não quedava presa de formalidades próprias das manifestações culturais intelectualizadas, de elite. O folhetim não esperava o público, ia às ruas encontrá-lo com apelos diversos, sempre em torno de um centro: a trágica luta entre o bem e o mal. 


O modelo folhetinesco da mídia tem um poder tão grande que contamina. No caso Cunha, tanto a situação quanto a oposição parecem jogar para a plateia, isto é, demonstram não acreditar muito no que dizem e a revolta contra Cunha parece encenação. Aliás, isso acontece com quase todo político. Para saber que papel representarão, os dignos parlamentares consultam pesquisas de opinião e coisas assim, para “medir a temperatura” do eleitorado. Isso significa que boa parte do que dizem é exatamente, precisamente, o que acreditam que a maioria dos eleitores quer ouvir. 



Nathalia Timberg e Amilton Fernandes em
"O Direito de Nascer", um clássico da
teledramaturgia brasileira, que parece um
modelo muito usado pelo jornalismo político
A “moda” hoje é dar bordoada no Cunha, afinal o homem é poderoso e a justiça brasileira o está prestes a crucificar, com indícios, evidências e provas, tudo indica. Qualquer outro deputado pode até simpatizar com o colega, tentar ser solidário, mas não deve contrariar a moda. Trata-se de um caso no qual ser visto de bem com Cunha equivale a uma maldição. Dizem até que muitos deputados preferem falar o mínimo possível com o presidente da casa.  

Hoje, pedras; ontem, beijos
De tudo isso, o mais útil é pensar o quanto trabalhamos com ideias prontas, exteriores a nós, e o quanto essas ideias nos levam a comportamentos e atos dos quais não podemos nos orgulhar, pois não são nossos. Slavoj Zizek usa, em um texto, a imagem de um robotic puppet, um bonequinho robotizado que repete as frases que lhe são programadas, além, é claro, de se comportar conforme o esperado. 

No caso Cunha, se a moda hoje é jogar pedra, antes já foi atirar beijos. Tanto uma coisa como outra nascem da mesma raiz, no caso. 

Preserve a razão, ela é, hoje, o principal espécimen em extinção na fauna humana
Pensando com a pele, com o coração ou com a fantasia não vamos muito longe. A imagem do “Louco”, carta sem número do Tarô, é ilustrativa. Ele vai, alegre, aparentemente despreocupado, seguindo, sem olhar, diretamente para um abismo. 

Na vida real, há muitos abismos imaginários, mas há os reais e é bom olhar à frente para evitá-los. “Olhar à frente” é, neste caso, uma metáfora para o pensar racionalmente. A razão está em baixa na contemporaneidade, não exatamente porque é inútil, mas pelo oposto. Ela é tão útil que tem sido combatida ferozmente por quem tem interesse em nos deixar atolados em fantasias, ilhados entre ideias preconcebidas, para mais facilmente nos coordenar os desejos, emoções, pensamentos, sentimentos e atos, é claro. 

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