quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O óbvio está em tudo, mas nem tudo é óbvio

Tem dias que a gente acorda para ouvir ou ler o óbvio. Tudo bem, o óbvio é algo, muitas vezes, difícil de acreditar e/ou de entender, por incrível que pareça. Há situações em que ele está ali, diante de você, pulando, acenando e assobiando, mas você não o vê. Nelson Rodrigues cunhou, para casos como esse, o conceito do “óbvio ululante”, ou seja, aquele óbvio que está diante de nossos narizes, gritando, urrando, implorando para ser visto. 

Logo, embora a primeira reação diante da enunciação do óbvio seja a de enfado, acompanhado por alguma expressão do tipo “Nossa! Só contaram pra você!” ou “Não diga!”, é preciso lembrar que é absolutamente saudável a reiteração cansativa, obstinada e insistente do óbvio, como num mantra. 


Mesmo que inconveniente ou chata, essa repetição nos acaba sendo útil. Assim como se diz que uma mentira repetida mil vezes se transforma na mais límpida e segura verdade, certamente o óbvio, se repetido as mesmas mil vezes, será finalmente levado a sério. 

O óbvio de hoje vem através de uma frase de um chargista chamado Matheus Ribs. Ele diz: “Informação é controlada pelos monopólios da mídia” e a citação é o título de matéria escrita por Fania Rodrigues, do Rio de Janeiro (RJ), publicada no portal Brasil de Fato.  

Grandes empresas de comunicação não cumprem função social e é óbvio que isso não deveria ser assim
O chargista exalta o papel da arte em um país no qual a circulação de informações é controlada por um monopólio pernóstico das empresas de comunicação. Estas, tudo indica, não cumprem com a função que lhes foi delegada pela sociedade, qual seja a de informar de forma correta, com a maior isenção possível e imparcialidade, o que significa não exatamente transmitir o fato como ele aconteceu, com fidedignidade absoluta, o que é impossível, mas noticiar sempre observando pelo menos dois pontos de vista, de preferência opostos. Isso significa dar ao leitor a oportunidade de pesar as informações, refletir, debater, repensar e agir conforme a sua opinião, formada nesse processo de interação com a notícia. 

Ao espaço e à dinâmica sob a qual se dá todo esse processo Jürgen Habermas chama de “Esfera Pública”. Pergunte a qualquer jornalista o que ele tem a dizer sobre isso e poucos terão algo a dizer. Alguns nem compreenderão a pergunta. 

Boa parte dos colegas com os quais convivi durante minha vida responderão com o velho e gasto refrão da imparcialidade e objetividade, sem saber muito bem o que isso significa (eles respondem a qualquer crítica do mesmo modo). Boa parte, é óbvio, não todos. Há tolos, mas não só tolos no jornalismo. Tem muita gente com bala na agulha. 

Poetas fora!
Segundo Ribs, a arte é um elemento que tem a capacidade de romper com o bloqueio imposto, despertando o espírito crítico. Creio que tem razão, pois a expressão dita artística, aquela que escapa aos discursos racionais e, principalmente, aos racionalistas, sempre abre brechas nas certezas que temos. 

De certa maneira, foi por conta disso que Platão disse que os poetas não teriam lugar na sua República. Ele, como bom aristocrata que era, inimigo da democracia ateniense e simpatizante do belicismo militar espartano, acreditava no mundo dos entes perfeitos, puros, belos e essencialmente bons e na educação que levasse em conta apenas o acesso a esse mundo, fundada na sua filosofia metafísica. 

O compromisso do poeta, ou de qualquer artista, não pode estar preso a esses princípios etéreos, é óbvio, o compromisso do poeta é com a sensibilidade e a criatividade, o que inclui, muitas vezes, dizer ou escrever algo de sentido nada racional. Platão reconhecia o valor estético e o deleite que as obras de poetas, como Homero e Hesíodo, por exemplo, lhe proporcionavam, e isso é dito em seu texto por seu mais importante personagem, Sócrates. Porém, apesar de tudo, Platão os considerava um perigo para a juventude, pois os textos poéticos poderiam desvirtuar, com sua irracionalidade, a importante formação dos futuros cidadãos. Para elevar a relação entre o cidadão e a cidade, caberia uma formação estritamente filosófica, ele pensava. 

Quem sabe, depois de formados, cidadãos feitos, então poderiam “curtir” uma boa poesia, daquelas bem fora de contexto e noção, com deuses inseguros e emocionalmente instáveis se intrometendo nas guerras e nas vidas dos mortais. Pelo que se depreende do texto platônico, aí, tudo bem, a poesia seria aceitável, uma espécie de mal até mesmo necessário. 

Óbvios óbvios
O cartunista e Platão são de épocas diferentes, mas nos sentimos liberados para imaginar que, estivesse Platão hoje vivo, não se incomodaria tanto assim com o tal monopólio das empresas de comunicação - ele mesmo propunha um monopólio, o do saber pelos filósofos. 

Platão, pelo que se deduz de tudo o que lemos, era francamente favorável à censura, contanto que o censurado fossem apenas mensagens, discursos e textos irracionais, carregados de emoção e criadores de uma realidade própria e fantasiosa. Ele seria contra as telenovelas, contra os programas de auditório e, inclusive, contra a forma irracional utilizada pelo jornalismo contemporâneo, que não excita a razão, apenas a emoção rasteira. 

Em suma, o óbvio parece estar em tudo, mas nem tudo é óbvio. 

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