quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O bom e bem comportado rock’n’roll

Há jornais que publicam cadernos para “jovens”, essa faixa da população também conhecida como “teens” (depois que o inglês passou a ser língua oficial entre nós) e que, usualmente, tem o adolescente congelado Mick Jagger (minha gratidão a Beatriz Sarlo pela imagem) como uma de suas referências. Nessas publicações, sempre há espaço para o “bom e velho” rock’n’roll. 

Uma das matérias que li num desses “cadernos teens” tratava de rebeldias diversas na relação entre fãs e ídolos roqueiros. Havia um box com o título “Tudo nasceu com o rock’n’roll” e o jornalista responsável citava o livro “A Criação da Juventude”, de Jon Savage. 


Visto isso, há dois pontos a considerar: 

Ponto número um: lendo o texto do box, não se sabe bem o que nasceu com o rock’n’roll. 

Ponto número dois: o livro de Savage fala da criação de um conceito, o de “juventude”, e mostra como no frigir dos ovos, esse conceito nasceu artificialmente, depois de um século de manifestações juvenis, e que todo o comportamento “jovem” foi em boa parte inventado, ou melhor, adaptado com base nas manifestações juvenis urbanas, via de regra ligadas à violência e a drogas diversas desde o século XIX, para servir de base para estratégias sociocomerciais. O jornalista provavelmente não leu o livro que citou, contando, quem sabe, com a ignorância dos leitores. 


O "adolescente congelado" e sua banda,
os Rolling Stones, o grupo de rock com
maior longevidade da história, sempre
se adaptando ao mercado para manter a
fama de mau por mais tempo. Só a fama.
Incluindo jovens e mulheres no mercado
Na mesma época, na metade do século XX, jovens e mulheres foram incluídos no mercado de trabalho e consumo, com a cultura roqueira, o único rito iniciático de acesso à vida adulta que o ocidente parece ter criado, embora tardiamente, e o feminismo, que amarrou a revolta das mulheres a lutas adequadas para o desenvolvimento do sistema comercial chamado de “consumo”. 

Em relação às mulheres, tenho que dizer que, embora sendo um ser completamente diferente do homem, em muitos aspectos superior a este, a mulher aceitou a historinha de ter direitos iguais e mesmo de ser (ou pretender ser) igual ao homem, na prática. Nós, os homens que esperavam que as mulheres fossem determinantes na transformação do sistema de poder, ficamos decepcionados ao perceber que elas acabaram não apenas por aceitar esse sistema, como resolveram colaborar com ele, para torná-lo mais legítimo e forte. 

Não há como negar que luta por “direitos iguais” é luta liberal, ou neoliberal, conforme se queira definir. Não que não se deva falar de direitos, mas quem os põe de forma central nas conversas são os liberais, apenas eles. 

Revolta palatável e útil para o sistema de poder
No caso dos jovens, já no século XIX havia as gangues de rua, famosas em Nova York, em Manchester e também em Paris, violentas e incensadas pela mídia da época, já pautada pelo sensacionalismo, como aponta o livro “Vida, o Filme”, de Neal Gabler. Se formos compreender a juventude e o rock’n’roll sob o ponto de vista das manifestações juvenis do século XIX, abordadas por Savage (no livro que o jornalista citou, mas não leu), somos tentados a pensar que a cultura roqueira foi incentivada pela mídia de massa como uma forma ordeira e consumista de canalizar a energia jovem. 

Os jovens do século XIX não consumiam praticamente nada a não ser álcool e não havia um star system pronto para fazê-los canalizar a energia para objetos de consumo. O que se deduz do livro de Savage é que, tanto os jovens daquela época quanto os roqueiros, eram, e são, a contraface dos valores dominantes, “in a raw and highly unpalatable form” ("em uma forma crua e altamente desagradável"), diz Savage. 

Assim, o que nasceu com o rock’n’roll, assim, foi uma nova versão da rebeldia juvenil, desta vez mais palatável, como nicho de consumo e lugar marcado e aceito na sociedade. Aliás, rebeldia é o nome que Erich Fromm deu aos que são “do contra” e querem mudar tudo para que nada mude. Qualquer semelhança com a revolução da galera do rock não é mera coincidência... 

Uma coisa é uma coisa...
Nada disso invalida a música rock'n'roll. Uma coisa é acreditar que o rock foi a trilha sonora de uma grande transformação efetuada pelos jovens. Isso, para mim, é tolice. Outra é gostar de ouvir esse tipo de música, até porque há fantásticos músicos que a executam. 

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