quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Nem tão egoístas, nem tão altruístas, assim somos

A questão do “egoísmo humano”, se é algo nato e hereditário e, essencialmente, se predomina no comporta-mento humano, está posta de forma perene. Uns dizem que o ser humano é, acima de tudo, egoísta, ou seja, olha para seu próprio rabo e quer levar vantagem sempre, ou quase sempre. Outros juram que não, que os valores altruístas estão em alta na alma humana e que essa história de egoísmo nato é coisa de vilões capitalistas. 

Para mim, nem uma coisa, nem outra. 

Em primeiro lugar, é claro que há aquilo que chamamos de egoísmo e que é algo forte no humano. Afinal, prezar a própria pele, acima de muitas outras coisas, é algo que bem podemos entender. A dor dói em nós e só nós podemos dizer o quanto dói. Digamos que pensar na própria sorte antes da dos outros é algo saudável, até. Veja que, nas viagens aéreas, há a instrução para que o passageiro cuide primeiro de si em casos de despressurização. Se não o fizer, possivelmente não poderá ajudar crianças e pessoas com deficiências, o que significa tragédia total e absoluta, já que crianças e pessoas deficientes provavelmente não conseguirão cuidar nem de si próprios, quanto mais do passageiro "adulto e eficiente". Em suma: ou este cuida de si primeiro, ou morrem todos. 


A força do ambiente
É possível dizer que o egoísmo predomina no comportamento? Cabe responder a esta questão lembrando que há algo chamado “meio ambiente”, algo que nos circunda e, consequentemente, influi sobremaneira em nós. Assim, é possível afirmar que, em um ambiente que estimula o egoísmo, este tenderá a ser mais pungente na personalidade e a ter maior influência sobre o meu comportamento e, em consequência, também no de outras pessoas. 

Aí que entram os que lembram que o sistema capitalista, essencialmente competitivo, tende a reforçar e incentivar o egoísmo humano, por motivos óbvios. É claro que isso acontece e somente alguém completamente alie-nado é incapaz de perceber isso. O que esse pessoal anticapitalista não pode e não deve fazer é simplesmente creditar o egoísmo humano ao meio ambiente capitalista. Aí, é passar dos limites. 

Assim como um ambiente reforça coisas ruins, como o egoísmo exacerbado, também reforça coisas boas, como uma maior gentileza no trato com o outro, um sentimento de compartilhamento de experiências e a consciência de que com a união todos tendem a ganhar, enquanto com o isolamento promovido pela estúpida competição pela competição todos acabam perdendo, é claro. 


Uns lucram com o pior, outros querem o melhor
Ouvi Ferreira Gullar, o poeta que foi meu vizinho de rua em Copacabana, explicar essa questão de forma magistral, quando disse que o pessoal que trabalha o tempo todo pela concentração de renda, que são os capitalistas ou a “direita” propriamente dita, tendem a reforçar o que há de pior na alma e no comportamento humano. Afinal, esse “pior”, o egoísmo e o consequente desprezo pelo outro, é o combustível que alimentam os “benefícios públicos”, os quais o liberal acredita piamente serem impossíveis se não houver os vícios privados. Desse modo, o progresso socioeconômico depende do pior que há em nós. Esse é o pensamento da chamada “direita”, e isso é corroborado por Norberto Bobbio no seu livro sobre os conceitos de “direita” e “esquerda”.  

Gullar explicou, ainda, que aderia à “esquerda” pela proposta que traz, de melhorar e qualificar o ser humano não em tema pontuais e produtivos para o desenvolvimento cancerígeno do capital. Ele dizia que precisamos acreditar que somos melhores do que somos, que temos qualidades morais e éticas para não apenas tornar nossa vida melhor e mais qualitativa, mas ir mais além de construir um mundo mais justo e melhor. E, mais: em primeiro lugar está o humano, não um ser humano em especial, seja eu ou qualquer outro... A proposta da chamada “esquerda” não pode se resumir ao puramente financeiro, deve ir além e propor que a sociedade funcione para o ser humano, não para poucos humanos. 



Ferreira Gullar
Tudo dentro de nós
Egoísmo aqui e altruísmo ali, o debate continua e parece que não terá fim enquanto se quiser uma resposta definitiva exultando um lado ou o outro. Tomando um vértice, apenas lamento os que resumem a vida à competição e que não hesitam em fazer mal a seus oponentes, simplesmente porque são seus oponentes, e que concentra sua autoestima na necessidade de derrubar o adversário e feri-lo mortalmente. Vendo por outro ângulo, também lamento os que acreditam numa bondade humana idealizada e inexistente, ao menos nessa plenitude imaginada. 

Nem um, nem outro, parecem entender sequer do que ocorre no interior de si próprios, onde há tantas coisas boas, tantas riquezas, mas também tanto mal, tanta mesquinharia e arrogância. No equilíbrio e na administração desses recursos tão diversos é que nos construímos enquanto humanos. Egoístas demais às vezes, generosos ao extremo em outras vezes. Não temos duas caras, mas milhares, e todas são nossas, compondo a beleza de sermos o que somos. 

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