terça-feira, 20 de outubro de 2015

Jornalismo agoniza por ingestão de veneno

Gene Policinski é jornalista e dirige um instituto chamado Newseum, na verdade um museu do jornalismo que fica em Washington DC. Ele veio ao Brasil falar sobre um tema que tem sido muito falado recentemente, o fim do jornalismo, notadamente o impresso, que com o acesso fácil de todos a informações curtas e rápidas parece realmente em dificuldades. Os jornalistas que o digam, pois muitos têm sido demitidos e não encontram outros empregos na área. 

O sujeito tem 45 anos de profissão, logo não é um foca, como se chamavam os jovens jornalistas no passado. Para mim, até hoje pela manhã era um ilustre desconhecido, mas devo dizer que conheço uma de suas obras, o jornal USA Today, que ajudou a fundar no início da década de 1980. 

Não me proponho a englobar, aqui, o que Policinski pensa sobre o jornalismo. Apenas aproveito o seu mote para uma breve reflexão sobre o jornalismo que conheci e conheço. 


Sem gente experiente, perde-se a perspectiva, a qualidade e tudo o que define o bom jornalismo
Policinski diz que não se trata apenas de uma crise localizada, em um tipo de jornalismo, mas de um esgotamento, uma situação crítica, que atinge o jornalismo no coração, principalmente porque os primeiros demitidos são os profissionais mais experientes. Sem eles, deixa claro, se perde experiência e perspectiva, naturalmente. 

Sem o velho jornalista, o que já viveu, o que sabe os atalhos e traz consigo os saberes que formam a sabedoria da tradição, ficam os novos, que, por melhor texto que tenham, não têm tarimba e, apesar de certamente fazer o melhor que podem, deixam o jornal vazio, sem miolo. Na virada das décadas de 1980/1990, o Jornal do Brasil do Rio de Janeiro parece ter passado por uma situação na qual, por medidas de economia, velhos profissionais foram defenestrados e jovens meninos e meninas tomaram o seu lugar. O resultado? Muitas palavras, muitas frases, algumas com bom efeito nos textos, citações a títulos de livros e filmes etc. Ficou até um jornal bem esperto e cheio de ginga. Mas, faltava algo e todo mundo, ou quase, reparou nisso e as vendas do jornal caíram ainda mais do que já tinham caído. 

Jornal ruim encalha
Trata-se de um círculo vicioso pernóstico, no qual o jornal vende menos porque é ruinzinho e é ruinzinho porque vende menos.  

Naquele tempo foi que percebi que o jornalismo tinha se aproximado perigosamente da publicidade, essa estratégia empresarial que quer convencer para vender e apenas vender.  

As frases com duplo sentido, que se usadas numa matéria jornalística podem produzir boas ideias, mas que devem ser usadas com parcimônia, passaram a ser a regra e a recorrência muito frequente a elas causaram enfado para o leitor, pelo menos para mim e para outros leitores com os quais conversei. 

Ali estava um jornalismo ruim, mas que muitas vezes era feito por bons profissionais, embora jovens e, em virtude disso, incapazes de inserir no texto mais do que informações. E digo que, sim, o bom jornalista passa mais que a informação, ele a contextualiza, subjetiva e/ou politicamente. Um texto bem escrito nem sempre tem alma, diga-se, e a alma depende muito da experiência, embora não apenas. 

Jornalismo tem mostrado toda a burrice do sistema que destrói a alma 
Na verdade, cá para nós, o jornalismo é uma área na qual fica claro que o capitalismo pode até ser um sistema engenhoso e, alguns dizem, absolutamente necessário, mas é burro, absolutamente burro, ou tem se mostrado, nos últimos tempos, assim. Talvez o sistema tenha nascido inteligente e esperto lá nos idos do passado, mas tenha emburrecido com o passar do tempo e com as propostas para radicalizá-lo. 

O jornalismo denuncia essa burrice porque lida diretamente com a alma humana. É através do jornalismo que a alma se alimenta de informações, conhecimentos e saberes no cotidiano, corriqueiramente. Se cai o nível do jornalismo, cai a qualidade com a qual alimentamos nossa alma e caímos nós na imbecilidade e, caídos, somos menos exigentes, pensamos menos, nos contentamos com o pior e corremos para nos distrair e entreter em outros campos, como a TV e os inúmeros recursos informáticos bem ilustram. 

Ao atacar e mesmo destruir as qualidades humanas que qualificam a vida, o jornalismo ataca e destrói em primeiro lugar a si próprio. O jornalismo nasceu para qualificar a vida humana, não para transformá-la num pastiche de animalidade. 

O caminho da servidão... ao lucro
Quero dizer que quanto pior o jornalismo, pior o cidadão, pior a pessoa, pior a sua capacidade de avaliar a realidade, de tomar rumos, de decidir o seu próprio futuro e o dos seus. O jornalismo, para mim, parece morto ou agonizante por ingestão de veneno. O veneno que a mentalidade empresarial tosca e obsedada em realizar lucros tem oferecido a todos nós, em todas as áreas da vida e da cultura humana. Realizar lucro não rima com trabalhar com qualidade ou elevar o espírito, muito pelo contrário. 

Deleuze definiu a empresa como um gás, um gás certamente venenoso, tudo indica. 

Ao entrar na seara simples e direta de lucrar, o empresário do jornalismo pensa em lucrar e, para isso, precisa criar as condições que imagina serem adequadas para lucrar e apenas para lucrar. O lucro, ou a necessidade dele, gerencia a sua vida e, assim, tudo se torna mercadoria, inclusive ele próprio, os que o cercam e, acima de tudo, boa parte do público que atende com a mercadoria jornalismo. 

Gente boi e gente vaca não precisa de jornal
Em resumo, gente é gente, não é bicho ou máquina. Gente quer ser feliz, viver bem, e, para isso, informação ajuda. Mas, se quem transmite a informação descuida em relação à sua qualidade, preferindo olhar os custos e tentar sempre baixá-los, acaba passando a mensagem que gente é essencialmente parva e serve para ser explorada, ou seja . A gente com a qual o empresário sonha é como os bois e vacas de um rebanho, seguem uns aos outros, não têm alma. 

Ironicamente, as pessoas bois e pessoas vacas descem tanto na escala humana que não precisam de jornais que lhe dizem apenas o que um amigo ou vizinho podem fazer mais rapidamente. Os jornais serviam para não apenas divulgar notícias ou informar dados. Iam mais além e propunham a arquitetura de uma opinião. Ao tratar gente como gado, os empresários do jornalismo esqueceram que bois e vacas não precisam ter opinião e que se não precisam disso, necessitam cada vez menos do jornalismo. 

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