terça-feira, 20 de outubro de 2015

Gilles Deleuze: Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle (trechos selecionados)


Gilles Deleuze, que viveu de 1925 a 1975
Contam que Michel Foucault vaticinou que o mundo seria, um dia, deleuziano. Há quem afirme que foi uma maldição. 

Abaixo, dois parágrafos selecionados do texto "Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle" de Gilles Deleuze. O sujeito que já foi incluído numa estúpida lista dos teóricos "mais imbecis" da história (tive esse livro em mãos, uma peça lastimável do qual, graças ao bom Deus, não sei o nome do autor, nem ganharei muito em saber), mostra, abaixo, que entendeu muito bem a sociedade contemporânea, a "de controle", com seus elementos, como a empresa, o gás que se espraia por todos os espaços da vida, subjetivos e físicos, e as cifras, que modulam e regulam as individualidades de massa (tratei desse tema em dissertação de mestrado, focando a quantificação característica da pós-modernidade). 

Fiz duas divisões de parágrafos, arbitrariamente, pensando naqueles que detestam longos parágrafos. Boa leitura.


===========================================

Gilles Deleuze: Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle (trechos selecionados)



Trocamos a fumaça intoxicante da fábrica...
Os diferentes internatos ou meios de confinamento pelos quais passa o indivíduo são variáveis independentes: supõe-se que a cada vez ele recomece do zero, e a linguagem comum a todos esses meios existe, mas é analógica. Ao passo que os diferentes modos de controle, os controlatos, são variações inseparáveis, formando um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica (o que não quer dizer necessariamente binária). Os confinamentos são moldes, distintas moldagens, mas os controles são uma modulação, como uma moldagem autodeformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro. Isto se vê claramente na questão dos salários: a fábrica era um corpo que levava suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás. 

Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prêmios mas a empresa se esforça mais profundamente em impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cômicos. Se os jogos de televisão mais idiotas têm tanto sucesso é porque exprimem adequadamente a situação de empresa. A fábrica constituía os indivíduos em um só corpo, para a dupla vantagem do patronato que vigiava cada elemento na massa, e dos sindicatos que mobilizavam uma massa de resistência; mas a empresa introduz o tempo todo uma rivalidade inexpiável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo. O princípio modulador do "salário por mérito" tenta a própria Educação nacional: com efeito, assim como a empresa substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola, e o controle contínuo substitui o exame. Este é o meio mais garantido de entregar a escola à empresa.

(...) 



... pelo contagiante e alegre gás empresarial.


"Se os jogos de televisão mais idiotas têm
tanto sucesso é porque exprimem adequadamente
a situação de empresa", diz Gilles Deleuze.
Nas sociedades de controle, ao contrário, o essencial não é mais uma assinatura e nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integração quanto da resistência). A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se "dividuais", divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou "bancos". É o dinheiro que talvez melhor exprima a distinção entre as duas sociedades, visto que a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro - que servia de medida padrão -, ao passo que o controle remete a trocas flutuantes, modulações que fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda. 

A velha toupeira monetária é o animal dos meios de confinamento, mas a serpente o é das sociedades de controle. Passamos de um animal a outro, da toupeira à serpente, no regime em que vivemos, mas também na nossa maneira de viver e nas nossas relações com outrem. O homem da disciplina era um produtor descontínuo de energia, mas o homem do controle é antes ondulatório, funcionando em órbita, num feixe contínuo. Por toda parte o surf já substituiu os antigos esportes.


Nenhum comentário:

Postar um comentário