terça-feira, 20 de outubro de 2015

Em que cruz atiramos tantas pedras para ter que aturar isso?

A troca de farpas entre a presidenta e o presidente da Câmara é um tanto ou quanto ridícula, convenhamos. Não se trata de uma troca de acusações, bem se diga, pois as acusações ficam subentendidas, meio na fantasia, meio com vínculos em fatos reais. O que Cunha e Dilma fazem é um repente de mau gosto. 

A presidenta já demonstrou que não é boa de fala, mas imagino a tensão na qual deve viver a senhora. Isso desnorteia um pouco e, como não domina a retórica e não parece paciente o suficiente para pensar antes de falar, acaba dizendo o que não deve e dando margem a ouvir as malcriações do deputado carioca, que, pelo menos, sabe falar e consegue ser cínico como ninguém. 



Leonel Brizola
Saudades do que não vivemos
Não há dúvidas de que estamos em desvantagem em relação ao passado, pois soubemos que já houve célebres debates, no Palácio Tiradentes, à época Câmara Federal, entre Leonel Brizola e Carlos Lacerda, por exemplo, e a bela oratória de Rui Barbosa, que, no entanto, há quem diga ter sido somente oratória. 

Agora, somos praticamente obrigados a ouvir a dona Dilma e o seu Cunha a lançar impropérios, não um contra o outro, mas contra a inteligência. Dilma lamentou que fosse com um brasileiro exatamente o quê? Cunha é brasileiro e está sendo investigado e processado no Brasil, até onde sei. Ela lamentou por envolver os suíços na investigação? Por “manchar” o nome do País, até por conta da posição de Cunha? Sei lá, deve ter sido isso. Só cheira a maledicência jeca. 

Já o deputado veio com a de que lamenta um governo brasileiro envolvido no maior escândalo de corrupção do mundo. É, ele sabe falar e aproveita a imprudência de Dilma para se dar bem. Ela, cheia de moral, tenta responder, depois de dizer que não iria responder, lembrando que não é o governo que está envolvido, que está sendo acusado, mas pessoas que já foram presas etc. Como se tudo tivesse ocorrido nas nuvens, certo. Ou como se houvesse umas maçãs podres no cesto, que já foram retiradas, algo acidental. 



Carlos Lacerda
A gente até poderia acreditar nisso se vivesse no País das Maravilhas, é certo. A presidenta chutou a bola na arquibancada. Até porque ela sabe que não é assim, com certeza. Tanto que, há pouco menos de um ano, segredou simpaticamente a um senador que se todos os envolvidos na Lava Jato caíssem, não seria apenas eles, mas a República. 

Cunha somente gracejou: não sabia que a Petrobras não era do governo... 

Enroscado
Não foi à toa que muitos simpatizaram com o tipo quando ele bateu de frente com Dilma e todo o governo, desconhecendo as práticas nada aconselháveis das quais o deputado está sendo acusado e que, segundo indícios e evidências que estão sendo exibidas, provavelmente acabará condenado e execrado. 

Do Rio, fonte me garante que não passa de um dos muitos aventureiros (a fonte chama de "pequenos pilantras") que entraram na onda do “eu vou me dar bem” e inclui na lista o ex-governador Cabral e outros que não ouso citar. Não me comprometo, embora tenha crescido perto do Serginho e, confesso, o considerava um pilantrinha quando petiz, mas isso é subjetivo, claro, coisa de adolescente. De modo que não sei se assumiu ou aprimorou as más qualidades que eu via nele, mas seu governo antipopular e a revolta popular que enfrentou no seu mandato não são bons advogados de defesa. 

O fato é que Cunha está enroscado e somente usando o poder do sangue de cristo escapará. E dizem que ele tem boas relações com o homem, pois parece que até importou um carrão importado no nome do Salvador. É o que circula por aí... 

Por quê? Por quê?
De todo modo, as farpas e tapas demonstram certa intimidade, ou, mais precisamente, boa integração entre os dois, Cunha e Dilma. Chegamos até a nos sentir tentados a dizer que se merecem. 

No fim, só lamentamos e nos perguntamos o que fizemos para ter que aturar isso.

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