quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os novos ricos no poder sujaram o nome da esquerda

Nouveau richisme: uma praga que assola 
o governo que se diz "de esquerda" 
Na novela da crise brasileira o governo brasileiro está novamente em foco. Precisa cortar seus gastos e, entre comprar prataria para os regabofes palacianos e pagar os servidores do estado, prefere a primeira opção. É uma opção que diz muito mais do que aparenta. 

Curiosamente, a senhora presidente Dilma Rousseff, provavelmente o pior governante que já pisou o Planalto e certamente “a” pior governante que lá pôs seus pés, disse, há uma semana, que o governo já havia cortado tudo o que poderia ser cortado. Eis que, de surpresa, anuncia cortes que atingem o pessoal que trabalha não para ela, mas para o Estado, mas mantém a aquisição de prataria ao custo de alguns milhares de reais e, é claro, inúmeros outros privilégios para o pessoal que trabalha para ela. 

Há um interessante jogo no governo. Muitos ministros acumulam suas importantes funções com a participação nos conselhos de instituições públicas. Já não basta terem tanto para fazer nos seus cargos, ainda precisam dar uma contribuição na administração da casa dos colegas, me disse alguém, um governista, um dia, acrescentando que o governo petista é “um time integrado”. “Sei...”, lhe respondi. A integração governista se assemelha mais àquela boa vontade que os membros de uma família, uma seita, uma sociedade comercial ou uma quadrilha costumam cultivar entre si. Um ajuda o outro, mas quem financia esse amor fraternal somos nós, que não fazemos parte da família, da seita, da sociedade comercial ou da quadrilha. E isso não é justo. 


Nouveau Riche: o quasímodo que quer sempre se dar bem
A mentalidade dos governistas é aquela do novo rico, a do “eu hoje vou me dar bem”. E todos sabemos que pobres e ricos são uma coisa, mas o novo rico é outra, uma deturpação quasimodesca. O pobre é pobre, se vira com o que tem, sonha ter mais, e tende a se integrar em sua comunidade, pois instintivamente sabe que quem se une fica mais forte. O rico, este não precisa se preocupar muito com a sobrevivência, tem o suficiente para pagar as contas e, se é realmente rico, para multiplicar sua riqueza. Usualmente se integra, mas em pequenos grupos e se esconde dos grandes grupos por motivos óbvios. Até mesmo discrimina, por motivos também compreensíveis, inclusive por segurança. 


O ex-presidente Lula
é um exemplo da
encarnação do
espírito nouveau riche
 
Já o novo rico, este é uma praga que não gosta de ser pobre e quer ser rico, mas não apenas: quer ser superior, mesmo que à força, e, para isso, precisa esbanjar, para pôr os pobres no seu devido lugar e para mostrar aos ricos que também merece atenção. Mais que tudo, escolhe não mais sequer andar no mesmo lado da calçada de seus antigos vizinhos e interpõe, entre si e eles, uma barreira construída pelos valores monetários e financeiros. Como não pertence ao “outro lado”, como não é rico, torna-se uma caricatura, pois exagera na produção de símbolos de riqueza. 

O novo rico, parece claro, é um fenômeno porque consegue algo bastante difícil: passar de uma classe social a outra durante o período de uma vida, ao menos no que diz respeito a valores monetários e financeiros. Para isso, não raro, tem que recorrer a todos os recursos disponíveis, inclusive escusos, mas não sempre, é claro. No entanto, costuma haver sempre uma certa malandragem embutida nas atividades que garantem a ascensão do novo rico, muitas vezes malandragens admitidas ou toleradas por lei. Por exemplo: conheci um médico que era, e ele próprio se dizia, “o rei da fimose”. Segundo o mesmo, bastava um menino entrar no seu consultório para sair com uma indicação – usualmente um agendamento – para uma operação de fimose. Não era o caso de pensar ou perguntar acerca da necessidade da cirurgia, era o caso de simplesmente “faturar” mais uma fimose e pronto. É que, para subir na vida e se sustentar no alto, o novo rico tem que inventar de tudo ou quase tudo. Atos ilícitos são admitidos, contanto que não sejam descobertos e/ou recebam punição. 

Ganhos dos banqueiros e outros parasitas dão goleada nos ganhos dos “bolsistas”
O governo pensa como novo rico. A prova disso está na Lava Jato, nos ministros que trocam, entre si, nos jetons de participação em conselhos diversos, na condução da política baseada nas estratégias de permanência no pode, custe o que custar, e, last but not least, na lógica estúpida com a qual o governo conduziu a economia brasileira durante os últimos 12 anos, priorizando o consumo e não a articulação política e cidadã. 

O novo rico pensa assim: para que pensar em política? O negócio é se dar bem e quero a minha parte em dinheiro. Os governantes petistas têm mostrado, há doze anos, que seguem esse receituário, assim como os governantes que os precederam, mas, tudo indica, com gana jamais vista, vide o sangramento da Petrobras. O trágico é pensar que, no passado, esses mesmos governantes eram não os sócios que aparentam ser hoje, mas militantes irmanados por uma nobre causa, a da organização social e política e, como referência, a da distribuição da riqueza. 

Chegaram ao poder e esqueceram suas raízes. Distribuição de riqueza passou a ser, para eles, mero mote de campanha, porque, efetivamente, jamais os ricos ganharam tanto e jamais os banqueiros tiveram tanta lucratividade quanto nos governos petistas. Se os programas sociais foram efetivados, não passam de esmolas, se observarmos os ganhos dos mais aquinhoados durante o governo petista. Tome-se, como exemplo, os gastos com os pagamentos aos banqueiros, por conta da dívida pública, comparados com os gastos com o Bolsa Família em 2013: o placar assinala mais de 1,4 trilhão para os banqueiros X menos de 30 bilhões para os “bolsistas”. É goleada. 

O que foi feito foi taxar exorbitantemente as camadas médias, que tiveram que pagar as suas contas e a maior parte das do governo, ou, melhor dizendo, as dos banqueiros credores do governo. Os mais ricos continuam navegando na calmaria fiscal, enquanto os assalariados enfrentam as tormentas. 

Mas, na campanha de 2014, o governo se pôs como a solução de continuidade de uma distribuição de renda que não houve. E teve muita gente votando no governo por essa ação, que é meramente fictícia... 

Bem, há quem diga que a vitória dos tucanos seria pior. Eu, sinceramente, não sei. Mas sei que houve um claro estelionato eleitoral e que, por conta disso e da incompetência dos petistas, o governo eleito não chegará ao fim do mandato. 

PT nunca foi esquerda e não distribuiu riqueza
Não me canso de lembrar e vou fazê-lo novamente, da frase de Florestan Fernandes que definia o pessoal do PT como sindicalistas que queriam, apenas, melhorar de vida, jamais como membros da esquerda. 

Podem até não ser “da esquerda”, mas sempre se disseram assim e, tudo indica, que o exemplo que esses representantes “da esquerda” deram e estão dando não é, definitivamente, para ser seguido e pode deixar marcas indeléveis na consciência da população. O PT pode passar para a história como o partido que descreditou definitivamente a esquerda entre nós, ainda que sua práxis não tenha sido quase nunca, digna do que seja “a esquerda”. 

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