quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Liberais de todo o mundo, uni-vos para responder a estas críticas ao Liberalismo


A "dupla face" do liberal
Todo liberal que se preze deve defender o livre mercado, se for o caso, com o custo da própria vida. O livre mercado, o Mercado, é o Deus Todo-Poderoso e a tudo deve regular em torno de si. Fora isso, o que há é o caos, a servidão. Não é à toa que o livro que sustentou a proposta do neoliberalismo se chamou “O Caminho da Servidão”. A tal Servidão é imposta pelo Estado, notadamente o Estado keynesiano e, mais ainda, o socialista. É contra esse Estado forte que o liberal se levanta, bravamente. 

O Mercado é moral e eticamente divino, nessa perspectiva, pois encarna o conjunto de todos os cidadãos, ou de todos os humanos, ou, melhor ainda, de todos os consumidores, pois o liberalismo trabalha com a noção central do consumo gerando a circulação do dinheiro e sua distribuição. Quanto mais consumidores, quanto mais consumo, melhor, mais benefícios públicos gerados pelos vícios privados que geram o consumo. A ubiquidade do Deus Mercado é, assim, naturalmente reguladora e essencialmente benéfica para todos, ao distribuir, justamente, a riqueza. E, para o liberal, o justo é haver a desigualdade, que, usualmente, deve ser até mesmo incentivada para gerar a luta que aquece a dinâmica de circulação de mercadorias e riquezas.

A mão que tudo vê, mas que não é vista por ninguém
É um mecanismo engenhoso. A tal “mão invisível”, uma metáfora criada por Adam Smith para representar a força de regulação e equilíbrio na circulação de mercadorias e riqueza, controla tudo e garante o equilíbrio. Este, com certeza, não é igualitário, nem pode ser numa realidade em que a competição dá o tom das relações entre humanos. Até aí, tudo bem. Igualitarismo total e completo não pode existir mesmo, até porque para isso acontecer seria necessário haver uma situação absolutamente artificial. O problema começa quando o liberal jura com a mão invisível sobre a bíblia do Deus Mercado que a proposta político-econômica que abraça se funda na igualdade de oportunidades.

Igualdade de oportunidades pode existir, é claro, mas não no mundo proposto pelo liberal. Se a medida das relações é o dinheiro, ou seja, um elemento quantificador, que cria facilidades, quando abunda, e dificuldades, quando falta, parece óbvio dizer que quem o tem sai na frente e, como falamos de uma competição, inevitavelmente terá que usar seu poder para barrar o caminho do competidor. Afinal, guerra é guerra.


Na imagem, o liberal como aquele que passa
por cima de todos para conseguir o que quer
Na lógica do Deus Mercado, poucos falam por muitos
Outra sombra no discurso liberal é o princípio de não intervenção do Estado. Se não estou enganado pela minha memória, é Karl Polanyi que explica o quanto o liberal odeia que o Estado se meta nos seus negócios... até o momento em que eles vão mal. Aí o liberal esquece seus princípios e apela, até mesmo exige, que o Estado garanta a normalidade que lhe trará o lucro ou a possiblidade de obtê-lo. É a filosofia do “farinha pouca, meu pirão primeiro” posta em leis econômicas.

Por fim, embora a conversa não acabe aqui, é preciso dizer que o tal Mercado pode até representar “todos” os consumidores do planeta, mas é difícil negar que apenas uma minúscula fatia desses consumidores tem força para falar em nome do tal Mercado e conduzir seus movimentos a favor deles próprios. Em outras palavras, o Mercado não fala por todos, mas por uma pequena elite que o controla mais do que a imensa maioria dos consumidores, pois detém mais de 50% do capital circulante no mundo. Os outros são falados por esse pequeno “escol”, que não vai além de 1% do total, mas reúne poder suficiente para falar por todos.

Esperteza e malandragem demais só atrapalham
Exatamente pelo exposto, tendo a entender o liberal como uma espécie de esperto, de malandro enrolador. Trata-se, tudo indica, de um sujeito que manipula a realidade e os discursos de modo a se dar bem. Fala em livre concorrência, quando só um tolo pode acreditar que exista isso num mundo liberal; fala em não intervencionismo do Estado, mas alardeia que é preciso que este esteja vigilante para garantir as regras que, na prática, lhe dão vantagens sobre os competidores, ou, pior ainda, que garantam a competição.

Ora, se acontece da competição ficar inviável, não necessariamente isso ocorre por problemas causados por críticos do Liberalismo ou por algum fora-da-lei. Pode ser que a proposta liberal que se funda na total livre competição, sem peias ou regulações, não tenha como viver equilibradamente, exatamente porque a “mão invisível” não é cega e distribui mais para uns e menos para outros, o que gera crises terríveis que levam sofrimento a milhares ou milhões, como se deu na quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, e na eclosão dos movimentos totalitários, como o fascismo e o nazismo, que se ergueram fundamentalmente contra a tal regulação do Mercado, que pune os mais pobres e dá vantagens inegáveis aos mais aquinhoados.

Convocando ao debate, não à ofensa
Escrevo tudo isso, confesso, esperando que alguém, algum dia, se digne a responder a estas ponderações críticas, principalmente se isso ocorrer sem ofensas. Normalmente, quando expresso essas impressões contidas neste texto, as respostas são mal humoradas e agressivas. Os supostos liberais que tentam “argumentar”, usualmente acusam este que vos escreve de estar falseando a realidade ou mesmo de ser “comunista”. Não é o caso.


O que pretendo, garanto, é que as afirmações postas, acima, possam ser discutidas e, se possível, que alguém mostre que estão erradas ou, em último caso, que reconheça abertamente que estão corretas. Admito até mesmo quem possa discutir essas questões sem ofensas e diga que, apesar de todos os males, o Liberalismo, como a Democracia, seria o “menos ruim” dos sistemas econômicos. Isso pode acontecer, afinal em um mundo essencialmente contingente, acidental e pouco controlável, nada é total ou completamente bom ou mau...  

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