segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A loucura da realidade invertida

Não é agradável dizer isso, muito menos ouvir, mas, claramente, a classe política brasileira não tem tempo ou energia a gastar com questões relativas à população. Em vez disso, olha para o próprio umbigo, luta pelos seus interesses, que são os interesses de seus patrocinadores. A população é, tudo indica, o populacho, o rebanho de escravos que entra em ação na eleição e, durante o intervalo de quatro anos, sustenta economicamente a elite econômica, a que financia (compra) os candidatos, e, é claro, a classe política. 

Em momentos como este, no qual os servidores públicos, servidores do Estado, não do governo, tentam negociar o justo reajuste de seus vencimentos, pode-se perceber que os políticos que ocupam o Executivo não parecem pensar na qualidade dos serviços oferecidos à população. A lógica é a de que o servidor tem estabilidade, tem salário garantido, enquanto o empregado da iniciativa privada não tem nada disso. A questão, porém, é que o servidor é quem mantém os serviços públicos funcionando, não os bambambans do Executivo, que, aliás, ganham polpudos vencimentos e, não raro, têm jogadas disponíveis para ganhar mais, com gratificações, diárias e jetons, quando é o caso. Mas, por manter a máquina funcionando, o servidor é punido e, por não fazer nada para que a máquina funcione, o dirigente é agraciado com vantagens. 

Mas, vamos aproveitar essa constatação para pensar mais sobre nossa louca condição de lidar com uma realidade que parece sempre ser o oposto do que aparenta. 

A realidade no espelho
Em um dia já quase perdido na memória, alguém me disse que tudo neste mundo está invertido e a única forma de entender o que se passa em nossa volta é olhar pelo espelho. Bem, isso parece ser verdade. Salvo casos específicos, que devem ser examinados à parte, quando alguém diz algo, principalmente quando qualifica algo, é preciso que se inverta a afirmação e que se a ponha no espelho, pois usualmente quer dizer o oposto do que pretende. 

Cabe lembrar de alguns exemplos históricos. Foucault lembra que a repressão sexual objetiva excitar, ou seja, cumpre papel exatamente oposto ao que se propõe. Outro exemplo está relacionado aos discursos políticos autoritários, que usualmente juram querer libertar a população de um jugo, mas que, na prática, criam um poder repressor geralmente mais cruel e ferrenho do que aquele que combatem. O fascismo italiano e o nazismo alemão ilustram bem isso. 

Falando nisso, Negri & Hardt, quando falam sobre o Império e a Multidão, conceitos criados por esses autores para tentar entender a contemporaneidade, demonstram o quanto a Multidão gerou o poder eficientemente coercitivo do Império ao lutar contra a coerção dos tempos modernos, aos quais outro pensador, Bauman, chama de “modernidade sólida”, remetendo à rigidez daqueles tempos que se contrapõe à modernidade líquida, essencialmente fluida, mas muito mais eficaz no quesito dominação. 

Talvez, nesse caso, seja útil pensar na diferença entre os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. No primeiro, o sistema é repressor ao extremo, vigilante e violento; no segundo, diferentemente, o sistema de dominação é mais suave, aparentemente se encontrando internalizado nos dominados. De certo modo, o poder de “1984” é o poder da tal modernidade sólida, enquanto o do “Admirável Mundo Novo” parece mais identificado com o sistema que temos em tempos de modernidade líquida (ou pós-modernidade). 

Se eu sou outro, o que fazer?
Quem sabe, então, seja natural que a classe política exista para fazer o contrário do que diz fazer. Talvez essa seja uma condição característica do humano, enxergar tudo pelo sentido oposto. Afinal, segundo Lacan e outros, a identidade, o ego ou o “eu”, se formam especularmente, como resposta à visão e ao discurso de um outro que nos diz quem somos, ou que parâmetros devemos tomar para dizer quem somos. Nessa lógica, quando dizemos “eu” falamos de algo indefinido e alienado pela condição de se supor algo que não pode jamais ser. O que chamamos “eu” seria, assim, o disfarce de nossa própria dominação por um outro. 

Parece difícil pensar coisas assim, mas, da mesma forma, tudo indica que é o melhor modo de pensar a loucura do cotidiano. Melhor que tudo é não tomar tão a sério nossos próprios desejos, vontades, amores e ódios e relativizá-los na sua própria oposição. Se não evita a angústia, pelo menos faz com que estejamos melhor preparados para enfrentar a loucura do dia-a-dia, cheia de imagens e afirmações especulares. 

Assim, tome cuidado: nem tudo que parece, efetivamente é o que parece; geralmente, na prática, é exatamente o oposto do que aparenta. Mas, como os opostos se atraem, cabe buscar um amplo ângulo de visão para perceber melhor o todo. 

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