terça-feira, 4 de agosto de 2015

A Paideia e a cultura drogada: o nobre e o esdrúxulo não costumam se misturar a não ser em farsa

A sociedade grega da Antiguidade contava com uma estrutura de formação educacional e cultural invejável e, embora as sociedades gregas sejam modelo para as atuais, estas parecem estar indo no sentido oposto no que diz respeito a isso. Essa estrutura ganhou o nome de Paideia e é tratada com grande atenção por Werner Jaeger em livro. 

A palavra grega paidos significa, em nosso idioma, “criança” e é do tempo da Paideia o nascimento da Pedagogia, termo que vem da palavra παιδαγωγία (paidagōgia), que podemos traduzir como “guiar as crianças”. 

Elevação política e espiritual
Os gregos, segundo se sabe, não queriam ensinar ofícios para as crianças. Queriam, isso sim, que as crianças fossem futuros cidadãos, e a cidadania tinha valor especial por representar a razão de ser da comunidade e, é claro, a elevação da qualidade de vida e também do espírito de todos. O cidadão era aquele que decidia não apenas o seu destino, mas o de toda a comunidade. Se fosse um sujeito elevado culturalmente, se tivesse o espírito enriquecido, melhor seria sua capacidade de decidir o melhor e melhor seria a realidade para si próprio, sua família, seu grupo social e, em termos gerais, para toda a sociedade. 

A participação política não era uma prerrogativa do cidadão, era uma obrigação. Essa diferenciação é importante pois, hoje, o que compreendemos como cidadão tem cada vez mais a prerrogativa da participação política e não a obrigatoriedade de participar dos rumos da comunidade. O cidadão contemporâneo, definido pelo pensamento liberal (nascido no século XVIII e ressuscitado como novidade – neo – na virada para a segunda metade do século XX), tem participação política limitada naquilo que podemos chamar por “democracia representativa”. A democracia grega, na verdade a democracia ateniense, não era representativa, não se elegiam representantes para tomar as decisões, que eram tomadas em grandes debates que se realizavam numa grande praça chamada ágora. A democracia ateniense era “direta”, ou seja, a consulta e a decisão eram feitas diretamente aos cidadãos. 


A cultura do melhor
Na prática, a Paideia era o que hoje podemos designar como a cultura. Este termo designa a constelação de conhecimentos, saberes e crenças, preceitos morais, costumes e hábitos cultivados por uma determinada sociedade ou comunidade. Curiosamente, há outro sentido para o termo cultura: o conjunto de coisas, ideias, sentimentos e, acima de tudo, obras de arte, que são consideradas como de alto valor espiritual. 

Como se pode supor, o sentido da elevação do espírito cultivado pelos gregos se mantém intocado, porém fracionado em duas partes. Uma geral, de valor neutro e imparcial, que designa o conjunto de tudo o que define uma sociedade ou comunidade no plano subjetivo. Outra, mais específica e parcial, que toma esse todo no que ele teria de melhor, selecionando aquilo que faz os cidadãos serem melhores. 

E para tornar as pessoas melhores, os gregos acreditavam que elas deveriam ter acesso aos mais elevados conhecimentos e manifestações artísticas. Ensinavam às crianças gramática, retórica, música, matemática, geografia, história natural e filosofia, isso sem falar nas artes de movimentar e aprimorar o corpo, ligadas à ginástica. Havia a crença lógica de que a formação da pessoa redundaria em uma melhor qualidade de vida e, por conseguinte, numa sociedade mais justa e com capacidade de desenvolver os melhores predicados dos cidadãos. 


A cultura da droga
Cá para nós, sabendo disso e vivendo no Brasil, em 2015, fica a impressão de que estamos falando de um conto de fadas. Tudo indica que, aqui, hoje, a cultura não pode ser chamada de cultura, ao menos no que diz respeito ao culto de produtos que elevam o espírito. 

Muito pelo contrário, as forças de promoção e produção cultural exaltam o que há de pior e isso pode se explicar pelo fato de que oferecendo o pior, lucra-se muito a longo prazo, notadamente pela insatisfação que o mau produto cultural causa, o que leva a pessoa a buscar mais e mais produtos, que usualmente são de má qualidade, já que os produtos de má qualidade estão disponíveis com mais facilidade. 

Cultura não é entretenimento, cultura não é um bem de consumo cultural. Não é, de jeito nenhum. Cultura é, na prática, como dito anteriormente, “a constelação de conhecimentos, saberes e crenças, preceitos morais, costumes e hábitos cultivados por uma determinada sociedade ou comunidade”. Melhor ainda se esses valores, conhecimentos etc. fazem com que não apenas o indivíduo se sinta e se torne melhor como pessoa, mas faz bem e agrada a toda a comunidade na qual vive. 

O problema é quando se confunde o bem-estar relacionado à realização dos melhores valores humanos com a sensação de plenitude que acompanha a fantasia do uso ou consumo de algum produto que ilude com a promoção da posse falsa de bens espirituais, sempre de modo rápido e fácil. E essa é a diferença entre o bem cultural e a droga. 


Quando falamos em droga ou drogas, neste contexto, cabe dizer que não se trata da velha e surrada condenação moralista ao uso de substâncias que Aldous Huxley deixou claro serem fundamentais para o ser humano, mesmo em uso recreativo. As drogas sempre foram usadas e sempre serão, pelo que se pode entender, ainda mais que sempre tiveram importância fundamental em rituais diversos e expressam valores dentro de parâmetros controlados. 

A questão é que o uso da droga, hoje, está disseminado irrestritamente e não tem qualquer relação com recreação, embora usualmente se pense assim. O que parece recreativo pode ser algo torturante, segundo o ponto de vista. 

O uso da droga, qualquer uma, tem, hoje, uma conotação de consumo e, portanto, comercial. É a droga pela droga, ou a droga por um prazer fugidio e fugaz que satisfaz apenas ao ego, esse folião fantasiado de senhor de si que nada vale, mas se acredita poderoso na mesma proporção de sua impotência. 

A droga “ego”
Assim como todo e qualquer bem cultural, a droga, qualquer uma, tem uma inserção precisa no contexto subjetivo. A droga representa uma negação de uma realidade enfadonha ou desfavorável por qualquer motivo e também uma aposta em uma realidade não real que, no entanto, a droga ajuda a disfarçar como real na medida em que obnubila momentaneamente o senso de julgamento. 

Historicamente, talvez seja possível dizer que a droga não eleva a cultura, mas compõe o bojo desta e a ajuda a sobreviver, na medida em que oferece “férias da realidade” ou por outros motivos. No entanto, se tomada como tem sido, como mero objeto fetichista de adoração narcísica de uma ficção, o eu, torna-se digna do uso que o vulgo dá ao termo “droga”: uma coisa ruim, imprestável, algo desprezível. 

Afinal, o que é o ego do sujeito consumidor senão algo ruim, imprestável e desprezível do qual se está sempre tentando escapar pelo consumo de seja lá o que for? 

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