terça-feira, 26 de maio de 2015

Medicina publicitária

Em entrevista a uma rede de TV paranaense, um médico geriatra fala sobre a importância da vacina contra a gripe. Aliás, não se pode dizer bem que falou, mas que fez um angustiado discurso propagandístico, com direito a sorrisos ao falar dos benefícios e referências à morte de idosos se não tomarem a tal vacina (é claro que não de forma clara e direta). 

Não sei se o sujeito é bom médico, mas eu não arriscaria recorrer a ele, pois certos publicitários não me parecem confiáveis, já que tentam realçar o lado bom de algo, mas também tentam obstinadamente ocultar o lado ruim. E se o lado bom é bom, o ruim pode ser péssimo. Comprar um carro de um publicitário eficiente pode ser perigoso, imagine tomar um remédio (ou vacina) indicado por ele...

É claro que se trata de impressão pessoal, insubstituível, inalienável e singular. Não se pode generalizar e há publicitários muito boa gente, embora a profissão, em si, no âmbito do que o tal "mercado" incentiva, seja tendenciosamente amoral e até mesmo aética em certas ocasiões. Assim como 17 policiais paranaenses mostraram dignidade ao se negar a massacrar professores, há publicitários que mostram a mesma virtude ao não pautar a vida profissional pela mera prestidigitação da publicidade (no sentido clássico de "tornar algo público"). 

Além de tudo, medicina é medicina, propaganda é propaganda. Mas, nos tempos pós-modernos descritos por Jean-François Lyotard, efetivamente não parece ter havido exatamente o fim das grandes narrativas, mas a substituição delas por uma enorme narrativa, a econômica e, mais especificamente, a do "mercado". 

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