sexta-feira, 29 de maio de 2015

Se temos dois lados, estamos em contradição permanente

Segundo muita gente, há uma dicotomia fundamental que permeia nossa vida, uma divisão semelhante àquela representada em quadrinhos pelo anjo e pelo demônio que disputam nossa atenção e tentam influenciar nossas escolhas e ações em geral. 

Por um lado, temos uma parte iluminada pelo sol da vida, dourada pelo ouro da riqueza espiritual. Por outro, no entanto, somos trevas, noite escura e fria, dissabor e aridez. Leonardo Boff, em texto de 2014 sobre a cordialidade do povo brasileiro, fala em uma dimensão sim-bólica (que une) e em uma dimensão dia-bólica (que divide) e Freud, muito tempo antes, havia postulado duas forças presentes na alma humana, que ficaram conhecidas como “pulsão de vida” e “pulsão de morte”, representando aproximadamente as dimensões propostas por Boff. 

Edgar Morin falou de um homo sapiens-demens, ou seja, de uma criatura meio sapiente, meio demente. E essa criatura sou eu e é você, como parece óbvio, e também Morin e todo outro ser humano. Todo mundo cortado ao meio e oscilando entre razão e impulso, bondade e maldade. O problema, muitas vezes, é identificar o que, efetivamente, pode ser considerado racional ou irracional, bom ou mau...

Para incrementar essa dúvida, o cristianismo, de forma geral, diz que nossa divisão está posta entre santidade e pecado e Santo Agostinho, lá na Idade das Trevas, tentou iluminar tudo com a proposta de que somos, ao mesmo tempo, Adão e Cristo, ou seja, temos uma parte de nós fraca e pecaminosa, facilmente induzível pelo mal, e outra divina e virtuosa, que segue a linha do bem. 


Saia dessa se puder. Você está cortado ou cortada em duas partes, fatiado ou fatiada pela metade. E a coisa no Ocidente não funciona como no outro lado do mundo, no Oriente. Lá, graças à dimensão dinâmica e polar que conjuga Yin e Yang, tudo se integra numa espécie de unidualidade, coisa que não acontece no lado de cá do mundo. Para o sujeito ocidental clássico, uma coisa é ou não é e não há negociação. Parmênides já dizia que as coisas eram assim há muito, muito tempo atrás: se o ser é, o não-ser não é e ponto final. 

O problema desse ponto de vista dicotômico e excludente (há o “ou”, não o “e”) é que os seus itens sempre necessitarão de seus opostos para ter identidade. E, desse modo, a coisa fica no nível especular. De modo que, ao escolher um lado, você também valida a existência do outro, sempre. Talvez por isso, sejamos necessariamente tão contraditórios em nossos atos. Quando dizemos sim, também estamos dizendo, em outra modalidade sonora, não. Há quem ouça isso, há quem seja completamente surdo (ou surda) para tanto. 

Posta nesse nível, a questão não é ser ou não contraditório. A questão é saber da contradição permanente à qual estamos expostos e conseguir lidar com isso. Pensada dessa forma, a coerência assume outra forma, bem mais complexa do que o resultado de uma simples e consciente escolha. 

Quando há apenas dois lados, é fácil escolher. O problema é saber que a escolha ilumina um deles e oculta o outro e, assim, este que fica escondido não deixa de existir, muito menos de exercer influência sobre nossa vida. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Sim, o brasileiro é cordial

A cordialidade em cartaz
A cordialidade referida por Sergio Buarque de Hollanda como apanágio do brasileiro é usualmente mal compreendida...

Uma vez, Sérgio Buarque de Holanda postulou: "O brasileiro é cordial". Pronto, bastou essa frase para que se criasse uma confusão, uma confusão bem grande e que dá margens a inúmeros equívocos. 

A "cordialidade" do brasileiro, segundo Holanda, não é relativa à bondade, à graça da educação e da "finesse". Não tem nada a ver com polidez, muito pelo contrário. A cordialidade referida está posta no sentido de "relativo ao coração". E, assim, refere exatamente ao oposto da polidez. 

"O brasileiro é cordial" significa que o brasileiro não pauta suas ações pela racionalidade, pela etiqueta. Se orienta, assim, pela emoção, pelos impulsos. 

Assim, toda vez que você ler alguém desmentir Sergio Buarque de Holanda dizendo que o brasileiro não é cordial porque é violento, mal criado, agressivo, esse alguém está dando razão ao eminente historiador brasileiro. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

Medicina publicitária

Em entrevista a uma rede de TV paranaense, um médico geriatra fala sobre a importância da vacina contra a gripe. Aliás, não se pode dizer bem que falou, mas que fez um angustiado discurso propagandístico, com direito a sorrisos ao falar dos benefícios e referências à morte de idosos se não tomarem a tal vacina (é claro que não de forma clara e direta). 

Não sei se o sujeito é bom médico, mas eu não arriscaria recorrer a ele, pois certos publicitários não me parecem confiáveis, já que tentam realçar o lado bom de algo, mas também tentam obstinadamente ocultar o lado ruim. E se o lado bom é bom, o ruim pode ser péssimo. Comprar um carro de um publicitário eficiente pode ser perigoso, imagine tomar um remédio (ou vacina) indicado por ele...

É claro que se trata de impressão pessoal, insubstituível, inalienável e singular. Não se pode generalizar e há publicitários muito boa gente, embora a profissão, em si, no âmbito do que o tal "mercado" incentiva, seja tendenciosamente amoral e até mesmo aética em certas ocasiões. Assim como 17 policiais paranaenses mostraram dignidade ao se negar a massacrar professores, há publicitários que mostram a mesma virtude ao não pautar a vida profissional pela mera prestidigitação da publicidade (no sentido clássico de "tornar algo público"). 

Além de tudo, medicina é medicina, propaganda é propaganda. Mas, nos tempos pós-modernos descritos por Jean-François Lyotard, efetivamente não parece ter havido exatamente o fim das grandes narrativas, mas a substituição delas por uma enorme narrativa, a econômica e, mais especificamente, a do "mercado". 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A direita em pele de cordeiro

Sou brasileiro, nasci em um tempo em que havia alguma esperança, embora um tanto fantasiosa, num país grande, na suposta imensidão da força de uma nação que sempre foi anunciada como “do futuro”. 

Já vivi muito, mais de meio século. Sempre no Brasil, a maior parte no Rio de Janeiro, outra parte em Curitiba e também um curto tempo em Brasília. Posso, assim, pelo menos sob o ponto de vista da experiência de vida, do tempo vivido, falar um pouco dessa tal Nação que tem grande extensão territorial, muitos sotaques e variadas culturas. Posso e devo, creio, pois, embora possa estar enganado em muita coisa, em algo devo estar certo e posso ajudar aos que viveram menos que eu. 

Como falar de tudo isso é muita coisa para tão pouco tempo e capacidade, vou focar a atenção em um tópico, um tanto burlesco: o Brasil, como disse um presidente francês, parece não ser um país sério, embora isso mais nos soe como tragédia que como comédia. 

Veja uma coisa importante que está acontecendo agora, neste momento, e que nos faz perceber o quanto é surrealista ou mesmo absurda a lógica proposta pelo governo brasileiro no campo da economia. E, veja: o atual governo brasileiro não difere substancialmente dos anteriores, embora seja um governo que é dito e se diz “de esquerda”, ao contrário dos anteriores, que são ditos “de direita” por muita gente. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Araucarian Blackmail

Corre à boca pequena pela capital paranaense que o governador atual não é tão incompetente ou burro quanto parece. É que, segundo se conta, ele estaria sendo pesadamente chantageado, inclusive por membros de seu primeiro escalão. Assim, o seu governo desastroso assim o seria porque ele tem que aturar tudo, ou quase tudo, para pagar os chantagistas... Pagar com o erário, é claro, isto é, com o meu e o seu dinheiro, aquele que suamos para conseguir a duras custas. 

O objeto da chantagem seria um grave erro do passado, do tempo em que era apenas prefeito da capital e que envolveu um acidente e mortes. 

Até um certo momento, a sua participação era referida apenas em ambientes fechados, entre sussurros. Hoje, com a revolta que cresce contra o senhor governador, não apenas no Paraná como em todo o país, as línguas vão se afrouxando... No Facebook, há quem comece a falar nisso abertamente.  

Mas, será mesmo verdade? E de que acidente se fala, afinal? Você sabe? 

Talvez isso não seja sério. Quem sabe não passe de uma grande fantasia... uma forma de criar uma novela policial para dar um tom de mistério a um governo que afunda dia a dia, mais por inequívocos atos burlescos do que por suposições trágicas. Talvez, talvez. Há quem defenda essa tese. 

Já eu não ponho a mão no fogo por ninguém, muito menos pelo atual inquilino do Palácio Iguaçu. Jamais compraria um carro usado dele. O sujeito não parece confiável e, depois do que aconteceu no dia 29 de abril, mostrou que, além de tudo, é covarde. Manda a polícia bater em gente desarmada e se esconde. Com certeza, quando criança, era daqueles moleques que jogava pedra e se escondia atrás do pai. E o pai era também político, dizem que honesto e correto... Será um caso raro em que a semente caiu longe do pé? 

EUA: as ilusões do “Poder Negro”

Por Keeanga-Yamahtta Taylor, no In These Times | Tradução Inês Castilho - 07/05/2015 (Outras palavras)

Nunca houve tantos afroamericanos em postos de governo. Mas revolta de Baltimore revela que, apesar disso, desigualdade, preconceito e discriminação persistem

Este ano marca o 50º aniversário de vários dos mais significativos eventos da Luta pela Liberdade Negra nos Estados Unidos, nos anos 1960s. Dois anos atrás, celebramos a Marcha sobre Washington; ano passado rememoramos o Ato dos Direitos Civis de 1964, que acabou com o apartheid de Jim Crow no Sul. Este ano, já assistimos às comemorações do aniversário do Voting Rights Act (Leis dos Direitos de Voto), e o fim do verão norte-americano verá o 50º aniversário do Watts Rebellion (Tumultos de Watts) em Los Angeles.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Pílulas para não dormir - Medida Provisória 665

País carnavalesco: no passado, boa parte dos deputados
que bateram panelas contra a medida provisória 665
eram acusados pelos deputados governistas (quando estes
não eram governistas) de serem contra os trabalhadores;
hoje os governistas aprovaram a medida provisória 665,
o que os coloca claramente contra os trabalhadores. 


Parece mesmo que o Brasil não é um país sério,
como sugeriu, há décadas um presidente francês... 
Tirando os direitos dos trabalhadores
Alguém lembra que as propostas do governo para equilibrar a economia avariada pela sua política populista tiram direitos dos trabalhadores. E alguém lembra, ainda, que o partido que está no governo se diz “dos trabalhadores”. 

Enquanto isso...
Enquanto os defensores dos trabalhadores dizem defendê-los lhes tirando direitos, os credores da Dívida Pública, que consumirá quase 50% da arrecadação federal este ano, brindam com champanhe. 

Como funciona a coisa
Dizem que José Guimarães, deputado petista do Ceará e líder do governo na Câmara Federal, prometeu ao PMDB os cargos dos pedetistas dissidentes. No pano verde, o Ministério do Trabalho e suas Delegacias Regionais. O velho jogo do toma-lá-dá-cá tornado regra. 

É a versão nada franciscana do "dando que se recebe", slogan utilizado pelos deputados da tal "direita" nos tempos da Constituinte, década de 1980, customizado para os deputados da tal "esquerda" que, na época faziam belos discursos éticos contra essa prática. 

Bote na balança
Quanto foi gasto com as políticas sociais e quanto foi gasto com repasses aos credores da Dívida Pública? Bote na balança e diga se o governo “dos trabalhadores” é de esquerda. Em tempo: segundo Norberto Bobbio, de esquerda é aquele que distribui riqueza, não aquele que ajuda a concentrá-la. No caso, parece claro que os tais credores são ricos e, com os juros e “amortizações” pagas a eles pelo governo, estão ficando cada vez mais ricos. 

Não é preciso
Com um governo de esquerda como esse, se dispensam os de direita. 

A mão invisível conhece o caminho para o seu bolso

Há quem jure que as medidas propostas pelo governo para sair da crise, ou seja, resolver alguns graves problemas econômicos e sociais, vai sair pela culatra. O ministro da Fazenda da petista Dilma Rousseff é ex-funcionário do Bradesco e do FMI, tem curriculum carimbado. É bom, só pode ser, mas joga para o mercado, assim como o presidente da Câmara Federal, o que significa, para muitos, que é algo assim como o testa de ferro de um grupo que alguns comparam a uma quadrilha. Os pessimistas dizem que o sucesso do plano do governo, assim como o sucesso do FMI ou das instituições financeiras, significa desgraça para a maioria de nós, que seremos taxados com mais voracidade e perderemos direitos. Se não os perdermos diretamente, sofreremos as consequências da perda de direitos de outros, certamente. 

A felicidade do FMI, do Bradesco e do governo, argumentam uns meus conhecidos, é a nossa infelicidade. Pela lógica do Capital, garantem os marxistas, ou marxianos, como alguns se autodenominam, o sistema produtivo é um sistema de afanação: o empregador lucra sobre a perda do empregado e nunca vi uma contestação decente a essa assertiva. A coisa realmente parece funcionar assim e, se é desse jeito no sistema produtivo, imagine você no financeiro. É aí que a “mão invisível” liberal entra sem medo de ser feliz no nosso bolso. 

Grupos ou quadrilhas?
A questão central parece ser a Dívida Pública. Deve-se aproximadamente R$ 2,5 trilhões, o que é muito. Mas, tudo indica que os governos FHC, Lula e Dilma já pagaram algo em torno de R$ 15 trilhões. É um buraco sem fundo que não foi sequer citado na última campanha, aquela dos estelionatos. Cheguei a ouvir de uma criatura cândida, pura e eleitora do PT que a Dívida Pública era algo assim como uma forma do governo se financiar. Ok, mas se é isso, não está financiando nada mais que os lucros de meia dúzia de grupos, ou quadrilhas, como querem alguns. 

Não sei mesmo se são bandidos, se podem ser realmente chamados assim, mas são parasitas, ah isso são. Todo o mercado financeiro é um grande intestino cheio de vermes, parece claro. As circulações se fazem no modelo “cassino”, como um teórico chamado Robert Kurz sugeriu e nesse modelo há tudo, menos ética e justiça. Quem controla as apostas ganha sempre, porque há sempre quem apostará errado. E é muito fácil apostar errado quando fortes grupos trabalham naturalmente para controlar os fluxos. Se você não faz parte de nenhum desses grupos, estará no meio do tiroteio sem ter onde se esconder. Em outros termos, se você não controla as apostas... corra da mesa. 

Ah, sim, esses grupos, você sabe, são muitas vezes comparados a quadrilhas de bandidos que, por terem grande poder e recursos, roubam muito, mas de forma suave e lenta, como parasitas. Diferenciam-se das verdadeiras quadrilhas, aquelas que a imprensa chama diretamente de quadrilhas, porque estas roubam pouco, mas de uma vez e violentamente. Estas são as quadrilhas de pobres, aquelas as dos ricos, os que lucram com a desgraça daqueles que os pobres também roubam, as camadas médias da sociedade, a genericamente chamada “classe média”, aquela da qual você que está lendo isto faz parte, uma grande multidão, dispersa em suas qualidades, mas unificada pelos defeitos. 

Segundo o que se conta e se diz por aí, no novo modelo do capitalismo contemporâneo, não há proletários como os do século XIX. Há o consumidor e este sempre sairá perdendo, ganhe quem ganhar na guerra de quadrilhas do mundo econômico-financeiro. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Para PM, cinegrafista mordeu o pitbull

Imagem mostra o momento exato em que o
cinegrafista agrediu os dentes do cão com sua perna
O repórter-cinematográfico Luiz Carlos Jesus foi atacado por um pitbull da PM paranaense no dia 29 e teve que passar por cirurgia. Hoje, esteve em Brasília para prestar depoimento no Senado Federal, mais especificamente na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH).

Segundo ele, a Polícia Militar costuma acusar os profissionais de imprensa pelas agressões que sofrem da Polícia Militar. “Agora querem dizer que eu mordi o cachorro”, ironiza. Ele trabalha na Band.

Foram convidados para a audiência pública Carlos Alberto Richa, governador do Paraná; Francisco Francischini, secretário estadual de Segurança; coronel Adilson Castilho Casitas, Chefe da Casa Militar; Hermes Leão, representando o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná; Celso Augusto Schröder, representante da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaje); Marcus Vinicius Furtado Coelho, presidente do Conselho Federal da OAB; Pepe Vargas, ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República; e Átila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional.

Segundo informações, Richa não vai pois se afogou na serragem que produziu ao fazer a barba hoje pela manhã e os seus áulicos resolveram também não comparecer, em solidariedade. 

29 de abril, o dia do massacre dos professores do Paraná

O paranaense sabe, desde o dia 29 de abril, que o “Dia do Professor” não é mais 15 de outubro. Pode ser até que esta data tenha algum significado fora do Paraná, mas no estado o 29 de abril certamente será lembrado a cada ano como uma data que marca a coragem e a luta de uma categoria e que, assim como outras datas históricas, relembra um massacre. 

Pois, no 29 de abril, os aproximadamente mil policiais que se concentravam no Centro Cívico, em Curitiba (local onde fica o Palácio Iguaçu, sede do Poder Executivo estadual, a Assembleia Legislativa, o Poder Legislativo, e alguns prédios do Poder Judiciário) atacaram, sem qualquer medida, com requintes de violência jamais vistos na cidade ou no estado, os professores que ali se reuniam para protestar contra uma reforma proposta pelo governador Carlos Alberto Richa, cuja marca eleitoral (ou eleitoreira) é “Beto Richa”.