segunda-feira, 20 de abril de 2015

Jair Ferreira dos Santos e a Fragmentação


Não, não é Jair Ferreira dos Santos,
é James Joyce, cujo romance "Ulisses"
é um ícone da fragmentação literária
Há décadas, ao final dos anos 1970, fui apresentado a um sujeito chamado Jair Ferreira dos Santos. Lembro bem dele porque me chamou a atenção, na ocasião, seu nome, dado assim, por extenso, por quem me apresentou. Foi na casa de Sergio, Sergio Bitencourt, não o filho do Jacó do Bandolim, outro, poeta, mineiro, amigo de um grande amigo com o qual hoje não falo, creio que temporariamente, pois de tempo em tempo, brigamos e ficamos sem nos falar. Sergio trabalhava no Banco do Brasil e Jair Ferreira dos Santos, também. Isso significava, para mim, naquele período histórico, que eram ricos, ou quase. 

Depois de um tempo, observei que ele era escritor, pois, em uma visita a um sebo, vi um livro seu, “Kafka na Cama”, de contos, sendo vendido. Acho que não o comprei, pois nunca mais o vi. Mais tarde, soube, por conta de um amigo publicitário, acho que Flávio (não sei o sobrenome), que prestava serviços para o Centro Cultural do Banco do Brasil, que Jair Ferreira dos Santos estava envolvido no trabalho de tocar o tal Centro, que hoje está estabelecido. 

Mais tarde ainda, li um artigo seu, que propunha uma reflexão acerca das pichações, no qual o termo vago “Vrog”, quem sabe o apelido de um pichador, ganhou proeminência inesperada, exatamente por ser vago e não significar muita coisa além de sua presença nos muros. Se bem me recordo, “Vrog”, para Jair Ferreira dos Santos, conotava a falta de sentido que se avizinhava no tempo futuro, isso na década de 1980. Não sei se “Vrog” era isso mesmo, mas sei que a quebra do sentido veio para valer - a fragmentação do sentido, para ser mais exato. 

E o mesmo autor falou sobre esta nossa época de pouco sentido e de muita fragmentação em um livreto que nasceu, segundo ele, de uma dissertação abortada: “O que é Pós-Moderno?”. Esse livro devo ter em algum lugar. 

A fragmentação
Bem, mas para que todo esse histórico acerca de Jair Ferreira dos Santos? É que, ontem, quando fui ao teatro com amada e amadinha, peguei uma publicação da Biblioteca Pública do Paraná, um tabloide chamado “Cândido”. Lá, sob a égide da abordagem do tema da fragmentação, estava Jair Ferreira dos Santos, mais uma vez. 

Fragmentação que é de nosso tempo, que Beatriz Sarlo disse ocultar, entre seus cacos, o tal mercado e que Jair Ferreira dos Santos também crê ser o “vetor soberano do capital”, afirmação que o coloca conceitualmente próximo de Beatriz, creio. 

Fragmentação que é, curiosamente, de minha percepção do caminho dele, Jair Ferreira dos Santos, que, curiosamente, começou quando alguém me apresentou a ele utilizando o nome inteiro. Não sei por que motivo gravei esse nome na memória durante tanto tempo, mas suspeito que houve pouco tempo entre a apresentação e a ciência de que se tratava de um sujeito que certamente gostava de Kafka, a quem amei intensamente naquele período de minha vida. Depois de saber o nome (é um nome com certo impacto sonoro), de sabê-lo escritor e supostamente amante de Kafka e de ouvir novamente o seu nome, por extenso, do publicitário amigo, o Flávio, cujo sobrenome não sei ou não lembro, acabei sabendo, sem querer saber, de sua vida entre fragmentos, pequenos fragmentos, aliás. 

Enfim... 
Chegando ao final deste pensamento posto em palavras escritas, palavras de um mundo em ruínas, o mundo literário, mas que, com certeza, ainda perdurará por séculos, mesmo que nos subterrâneos malditos dos desvios ao padrão, apresento o trecho de Jair Ferreira dos Santos no tabloide Cândido. 

De certo modo, bastava tê-lo logo reescrito, ou mesmo fazer uma breve introdução para apresentá-lo, do tipo, “olha que legal isto aqui” ou, em versão enciclopédica, “republico trecho de texto de Jair Ferreira dos Santos que fala clara e rapidamente de nossos tempos pós-modernos, que entendo como tragicamente desinteressantes e um tanto desgraçados sob o ponto de vista da riqueza do espírito humano”. Poderia ter feito muitas coisas, é vero, mas fiz este texto, que termina e culmina com o tal trecho, que gostaria que você lesse e que é bem mais interessante e importante do que o trajeto fragmentário de meu conhecimento da biografia do autor dessas linhas: 
Desconheço assunto mais chato do que as maravilhas do mundo virtual, a internet e Steve Jobs. Mas a era do livro, da cultura letrada, infelizmente está chegando ao fim. A velocidade imposta pelos computadores, um dos aceleradores do retorno do capital, aparentemente é incompatível com a reflexão, a contemplação. O mundo atual é pura efetuação, pura ação comunicacional, pouco importa o conteúdo, e isto é a apoteose da razão instrumental: os fatos da tecnologia dispensam o sentido. Imagino que uma nova cultura vá surgir com novas formas de produção e consumo literários, mas dificilmente elas terão o mesmo prestígio alcançado pelo livro, que realizou todo o trabalho do Iluminismo. A fragmentação hoje é em escala individual, os indivíduos estão sós com seus tablets, seus PCs, seus egos que são uma colagem de grifes, mas dispõem dos primeiros socorros das coletividades virtuais que são as redes. Tudo está sendo reescrito no código digital, a língua do capitalismo triunfante.
Obrigado pela paciência e espero que o trecho que deu origem a todo este blábláblá tenha compensado o blábláblá. Pense nisso, no que Jair Ferreira dos Santos disse. De certo modo, ele ilumina uma parte importante do “deserto do real”. 

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