sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Para FHC, Serra e Cia, “chegou a hora” de mudar para manter tudo na mesma

Aécio, FHC e Serra prontos para o golpe fatal no segundo mandato de Dilma
Veja que situação: FHC, o ex-presidente, escreveu artigo “Chegou a hora”, bastante preocupado com “as dificuldades que o povo enfrentará e com a perda de oportunidades históricas” do país. Ele, que se pôs em decúbito ventral diante do capital, que entregou o país adernado em 2002 a Lula, que chamou genericamente os aposentados de “vagabundos”, embora tenha se aposentado bem jovem, hoje, em 2015, encontra moral para criticar o atual governo. 

Interessante observar que o que FHC critica no atual governo petista, pode, da mesma forma, servir como crítica ao seu próprio governo e, não é bom esquecer, a governos de companheiros seus: 

  • Ele fala que a “falta de água e seus desdobramentos energéticos continuarão a ocupar as manchetes”. Sim, é verdade, aliás, ocupam as manchetes desde 2000, se não me falha a memória, quando seu governo promoveu um racionamento de energia, com limites de consumo e multas para quem descumprisse as metas. Depois, não custa dizer que é um partidário do PSDB o atual governador de São Paulo e que a péssima política energética do governo FHC foi mantida e prestigiada por Lula e Dilma.
  • Diz que a dívida interna chega a R$ 3 trilhões, quando foi em seu governo que o desequilíbrio começou. É verdade que, com Lula, a situação se agravou muito, com a dívida sendo quintuplicada e com Dilma o drama continua. No total, desde FHC, o Brasil já rasgou e jogou no ralo algo em torno de R$ 13 trilhões (em cálculo rápido, sujeito a pequenas correções para cima), sendo que no tempo tucano, foram algo em torno de R$ 3 trilhões de “amortizações” e pagamentos de juros. O motivo de pôr amortizações entre aspas é que essa tal dívida é anualmente amortizada, mas só cresce e cresce, consumindo quase 50% da arrecadação federal. Só em 2015, mais de R$ 1,5 trilhão será queimado com essa dívida. Com o aumento dos juros, a coisa pode ficar pior ainda, pois se Lula diz ter quitado a conta com o FMI, o fez com a engorda da dívida pública, que trabalha com esses juros. E, na verdade, a conta com o FMI não foi quitada, embora o pessoal que fez campanha para a Dilma tenha usado esse fato inexistente como bordão. 
  • Lembra dos “desequilíbrios dos balanços da Petrobrás e das empresas elétricas, a diminuição da arrecadação federal, o início de desemprego, especialmente nas manufaturas, o aumento das taxas de juros, as tarifas subindo, as metas de inflação sendo ultrapassadas” e usa esses dados para falar dos “prognósticos negativos do crescimento da economia”, como se não tivesse nada a ver com isso. Está certo que a memória anda cada vez mais curta, mas assim já é demais. 

A proposta de FHC, Serra et caterva parece ser tirar Dilma do poder, ou melhor, tirar o PT do poder. A questão complicadora é que quem ocupará o Planalto será o PMDB de Temer, um partido forte, grande e razoavelmente organizado em todo o país. Eminência parda há décadas, desde a saída de Sarney, o PMDB pode voltar a ocupar o Estado brasileiro e se lá entrar, pode não sair tão cedo, dizem alguns, que completam lembrando que isso não está sendo debatido claramente, embora esteja “na cara”. 

Oposição conta com "fogo amigo" das hostes governistas

Certamente muitas coisas estão acontecendo por trás dos tapumes que isolam os gabinetes da Capital Federal do resto do Brasil. Parece claro, no entanto, que, como enuncia o artigo de FHC, há um grupo entendendo que “chegou a hora” de agir. Entre eles, dizem, está até mesmo outro ex-presidente, o Lula, que parece avaliar que a continuar como está, o destino das eleições de 2018 será indesejável para o seu partido. Aos que dizem que com a queda de Dilma o PT naufragará junto, cabe lembrar que Lula é maior do que o PT e pode ser a locomotiva que, para a opinião pública, puxará o partido para fora da lama na qual mergulhará caso o "golpe branco" tenha sucesso. 

De certo modo, a saída de Dilma e seu grupo seria benéfica para muita gente que tem muito poder, inclusive para alguns “companheiros”. Com a “Lava-Jato” espirrando sujeira para todos os lados, mas principalmente para os lados petistas, depois da denúncia recente de que o partido teria embolsado R$ 200 milhões no esquema da Petrobras, está afastada a necessidade de um golpe militar, com a inevitável vitimização dos governistas. 


Durante 2014, foi frequente ver o adesivo
contra Dilma e o PT em carros e residências,
ajudando a "criar o clima" para o golpe;
muitos chegaram a sair às ruas conclamando
as Forças Armadas a agir, reeditando, como
farsa, a marcha da família com Deus de 1964
Mensagem clara

Golpe, se houver, será branco, ou seja, oficial, lavrado em cartório e votado pelo Congresso. Há quem aposte que ainda este ano. Vamos ver. Parece improvável, não impossível. E leia, para concluir esta conversa, o que diz FHC, quase ao final de seu artigo: 
Nada se consertará sem uma profunda revisão do sistema político e mais especificamente do sistema partidário e eleitoral. Com uma base fragmentada e alimentando os que o sustentam com partes do orçamento, o Governo atual não tem condições para liderar tal mudança. E ninguém em sã consciência acredita no sistema prevalecente. Daí minha insistência: ou há uma regeneração “por dentro”, Governo e partidos reagem e alteram o que se sabe que deve ser alterado nas leis eleitorais e partidárias, ou a mudança virá “de fora”. No passado, seriam golpes militares. Não é o caso, não é desejável nem se vêm sinais.
A mensagem parece clara e as declarações de Serra falando em impeachment, além do parecer de Ives Gandra, fundamentando a medida extrema completam o mosaico. Teremos um ano de muitas emoções, pois a condução da politica econômica do governo petista chegou à saturação e o edifício financeiro começa a desmoronar. 

A situação chegou a um nível tal que até FHC, mesmo sem muita moral para criticar o atual governo (ou você pensa que o esquema "petrolão" começou ontem?), começa a mostrar as garras. Ele, Serra, Gandra e tantos outros tentam um "golpe de sorte" que não necessariamente tem a ver com os discursos de combate à corrupção. De certo modo, propõem mudar para que tudo fique na mesma, com outros personagens, que não farão nada muito diferente do que a presidente atual está fazendo. 

Sempre lembro uma frase escrita por Paulo Francis na década de 1980: "O Brasil é uma republiqueta governada por um jeca". O jeca da vez era Sarney, mas os que o sucederam não fizeram muito para escapar da pecha. Na prática, porém, somos nós os jecas. Nós que, por medo, conveniência ou preguiça, ficamos "deitados em berço esplêndido" assistindo a banda passar, enquanto governo e Congresso ditam as regras que interessam a eles e aos seus patrões. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário