quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O afogamento em um tempo líquido

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman dá entrevista à MGMagazine e sugere que esta situação instável na qual estamos vivendo pode ser parte de uma grande transformação revolucionária. 

Melhor que seja assim. Ao menos podemos nos consolar dizendo que a burrice crônica e a canalhice deslavada de nossos tempos têm um aroma menos sórdido e até mesmo algo nobre. Afinal, se é para mudar, para melhorar, dá para aturar tudo, ou quase. O problema é que no meio do turbilhão dessa tal “revolução” não é possível saber exatamente o que vai melhorar e o que vai piorar. 

Bauman, que tem 89 anos, concorda conosco que a coisa tá bem complicada do que se poderia imaginar, mas que há vantagens no processo: nos sentimos mais impotentes do que nunca, mas temos maior liberdade, por mais contraditório que isso possa ser. “Todos sentimos a desagradável experiência de ser incapazes de mudar qualquer coisa. Somos um conjunto de indivíduos com boas intenções, mas entre as intenções e os projetos e a realidade tem muita distância. Todos sofremos agora mais do que em qualquer outro momento pela falta total de agentes, de instituições coletivas capazes de atuar efetivamente”, diz.

O sociólogo lembra que os governantes se mostram completamente incapazes de melhorar as coisas, ou, pior, "nunca cumprem o que prometem". Dizem os experts no assunto que a última eleição presidencial brasileira pode muito bem confirmar isso. É que parece que a vencedora reeleita acabou fazendo exatamente o que dizia que o candidato da oposição iria fazer, numa ilustração típica do que é estelionato, vide o texto do famoso Artigo 171: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”. Esse crime, conforme previsto no Código Penal, determina, como pena, reclusão, de 1 a 5 anos e multa. Mas, parece que nestes tempos é exatamente o crime que compensa e quem o comete acaba recebendo comenda polpuda e medalha de ouro. 


O importante é pontuar que vivemos numa instabilidade constante e enervante ou, pior, desesperadora para muitos. Nada parece sólido e é por isso que Bauman gosta do termo “líquido” e o aplica a tudo: “modernidade líquida”, “cultura líquida”, “realidade líquida”, “amor líquido” etc. Outros usam outros conceitos parecidos, como o de pós-modernidade (Lyotard e outros), hipermodernidade (Lipovetsky) e modernidade tardia (Giddens). 

Nada mau para quem reclamava da rigidez dos tempos modernos, mas muito terrificante para quem reclamava e descobriu que se era ruim com toda repressão, sem ela a coisa é pior ainda. “Que saudade do ‘papai sabe tudo’”, dizem alguns. Hoje, os papais costumam ser eternos filhos e sabem tanto quanto nós a respeito de sexo, drogas, rock'n'roll e sobre como viver "forever young". Tanto pais como filhos se tornaram estereótipos do "Homem Medíocre" de Jose Ingenieros ou clones do "Zé Ninguém" de Wilhelm Reich. 

Tudo é incerto e nada será como sonhávamos

Tomara que Bauman esteja certo e nós, que estamos nesta esbórnia, sejamos lembrados como heróis que viveram tempos difíceis, mas profícuos para o futuro. Tempos revolucionários, decerto, é o que esperamos, mas há quem jure que é um momento não exatamente de revolução, mas do estabelecimento de uma nova ordem, mais reacionária do que todas as outras na história humana. 

Há os que falam do “governo mundial”, que reivindicam uma revisão histórica de inúmeros fatos passados, que, segundo esse pessoal, foram interpretados com base em uma versão única e deturpada. Há os que falam de um Império e de uma Multidão, sendo que esta substitui o antigo “povo”, que não existe mais a não ser em discursos de políticos jecas. O povo supõe a Nação e esta é algo tão fora de moda quanto espartilhos ou anáguas. Não existe Nação, há, isso sim, o Mercado, peça icônica que serve para ocultar as ações de um grupo pequeno, muito pequeno em relação ao todo da humanidade. Uma personagem do romance Arlequim, de Morris West, descreveu esse grupelho como “uma quadrilha”. 

Revolucionários ou reacionários? Já não sabemos bem que tempos são estes e a instabilidade é grande, muito grande. A sociedade humana se assemelha, cada vez mais, a um espelho: tudo é visto de forma invertida e o que está de um lado aparece, subitamente, do outro lado. O bem aparece como o mal, o mal como o bem e a esquerda e a direita política trocam de lugar de acordo com a oportunidade. Homem vira mulher, mulher vira homem e o que está em cima deve ser posto abaixo. Não adianta usar bússola nesses casos. 

Tudo indica que estamos em um moinho, que, com certeza, está triturando nossos sonhos mais mesquinhos. Torçamos para que tudo isso valha a pena no futuro. 

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