sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Não, você não é um(a) esquizofrênico(a), mas há os psicopatas que tentam fazer você acreditar nisso


Só mesmo no cinema o
psicopata tem cara de louco
Por trás de tudo, há sempre o lucro, sempre o "eu hoje vou me dar bem". Antigamente, o malandro de rua era quem agia assim. Mas ele foi perseguido e exterminado. Os que restaram, como o Chico Buarque já cantou há muito, hoje trabalham e chacoalham no trem da Central. O novo malandro usa terno bacana e gravata de seda. É muito mais nocivo à sociedade do que o antigo, mas é idolatrado como empreendedor, é chamado de doutor e sai na coluna social.

Aliás, falando em esquizofrenia e em mudanças no tempo, pense que, antanho, o esquizofrênico, o doido de pedra, era um problema, só um problema. Por isso, era jogado em depósitos e trancado com malfeitores e leprosos.

O tempo passou e se descobriu que o maluco podia ser uma boa fonte de poder e de renda e inventou-se a Psiquiatria, com seus manicômios, que, apesar de diferirem pouco dos depósitos, se diziam revolucionários, porque objetivavam curar a maluquice. Faziam isso com torturas, drogas e banhos de água gelada, mas faziam e tudo o que se faz pela cura é nobre ou pelo menos parece ser. Ainda que a cura não seja cura, quem diz trabalhar por ela sempre terá crédito.


Na vida real, o psicopata se assemelha mais ao
padrão dos modelos da imagem acima: é o tipo
pelo qual você se apaixonaria e para o qual daria,
quem sabe, tudo o que tem em troca de atenção
e carinho (foto meramente ilustrativa)
Doideira controlada

Mais um tempo passou e o poder entendeu que não cabe tratar o esquizofrênico, mas dirigir seus delírios para objetos aceitáveis, de modo que o sistema de compra e venda, ou seja, de consumo, pudesse incorporar esses doidos e lucrar com eles. E, sob essa ótica, cabe, mais ainda, agir para que todos possam ser esquizofrênicos, pois que a esquizofrenia deve ser democrática como a posse de televisores e telefones celulares.

Tudo isso para a felicidade geral das empresas, essas entidades abstratas que emitem o gás venenoso que transforma cidadãos em consumidores, e do Mercado, esse ícone deificado mantido vivo, em grande parte, por aqueles a quem serve, ou seja, uma pequena e genial quadrilha que consegue dominar a mão invisível e dirigi-la sempre para o bolso dos outros.

Assim, modelou-se a sociedade para a esquizofrenia e a personalidade fragmentada pós-moderna não passa de um projeto de esquizofrenização controlada. Vivem-se os papéis mais diversos e mesmo contraditórios, pois quanto menos integrada a personalidade, creem os atacadistas e varejistas do consumo, mais produtos diferentes serão desejados e adquiridos. Foi Beatriz Sarlo que disse que por trás dos fragmentos da pós-modernidade está o Mercado.

Pense que a mente singular e integrada é saudável e pode conseguir prazer através do improviso – e é por isso que o improviso está vedado na sociedade de consumo, assim como todo e qualquer tipo de liberdade e singularidade. Tudo que há nessa sociedade é pensado e dado previamente, como os produtos diversos oferecidos em supermercados, lojas e camelôs. Adorno e Horkheimer já disseram isso bem antes de mim.


Arthur Schopenhauer (1788-1860)
Demônios atormentadores e almas atormentadas se entendem bem

A psicopatia, por sua vez, classicamente conhecida como “distúrbio de comportamento”, é entendida por muitos como uma radical defesa contra a fragmentação esquizoide. Assim, parte de nós descobre que pode escapar da esquizofrenia cultivando a esperteza e a referência total e absoluta centrada no eu, que não deve aceitar ou cumprir regras e leis coletivas. E, com essa mentalidade, muitos passam a agir referidos apenas nos interesses próprios e tentam, para melhor conseguir seus objetivos, fazer com que mais pessoas funcionem para servir aos seus (deles, psicopatas) interesses próprios.

Sob esse ponto de vista, o psicopata pode ser visto como aquele que ascendeu do poço da esquizofrenia mas, como, apesar disso, mantém a pobreza subjetiva que caracteriza o esquizofrênico clássico, só pode enxergar esquizofrênicos em sua volta, como se o mundo fosse feito à sua imagem e semelhança. Assim, como não tem acuidade visual ou sensitiva para perceber que muitos de nós não são esquizofrênicos, ou não são apenas esquizofrênicos, age como se todos estivéssemos naquele mesmo poço. E como os que lá estão são considerados inferiores pelo esperto psicopata, este age como se pudessem ser transformados em objetos cuja existência é satisfazer os superiores, ou seja, a classe dos psicopatas, que, por motivos óbvios, é desunida, mas consegue se integrar no objetivo de escravizar os otários esquizofrênicos.

Assim se configura parte do enredo deste inferno que é a sociedade de consumo. Como sugeria Schopenhauer, falando do mundo de forma geral, um enredo formado por demônios atormentadores e almas atormentadas – creio que no livro “As dores do mundo”, logo no início.


Psicopatas e esquizofrênicos, uni-vos! 

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