sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2015 não parece muito animador para as esquerdas, os contribuintes e o governo

De todos os anos eleitorais que vivi, o de 2014 foi, sem dúvida, o mais empolgante (1). 

Pois é, mas se a empolgação da campanha de 2014 foi de aplaudir, o nível foi de chorar. 

Se nós, chamados genericamente “eleitores”, podemos ter uma certeza neste momento (estamos nos primeiros dias de 2015), essa certeza é que a campanha não debateu a realidade, mas se fundou na fantasia estúpida e fascista do bem contra o mal, ou, como se pôde notar nas redes sociais, do ruim contra o pior. 

No final das contas, como lembra um sujeito chamado Gilberto Maringoni (jornalista, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC e ex-candidato do PSOL ao governo do estado de São Paulo), que muito bem se expressou ao definir o que estamos vivendo, no pós-campanha de 2014, em texto da Carta Capital: 
Pessoas podem mudar de opinião, de acordo com as transformações de seu entorno. Nada demais aí. Mas mudanças bruscas, em se tratando de figuras públicas, confundem e tendem a revoltar setores importantes da sociedade. Marina e Aécio foram derrotados por explicitar o que fariam. Marina foi massacrada por suas ligações com uma herdeira minoritária do Banco Itaú. Dilma está fazendo exatamente o que acusou seus oponentes de perpetrar, caso fossem eleitos.Ou seja, se os dois candidatos à direita pecaram por sinceridade, Dilma chegou lá pedalando um rosário de inverdades. Algo como Collor de Mello que, na campanha de 1989, acusou Lula de querer confiscar a poupança dos brasileiros. Em palácio, apressou-se em baixar exatamente esta medida.
De certo modo, isso tem nome e este tem sido bem repetido por aí: estelionato, no caso um estelionato eleitoral. O candidato promete fazer o contrário do que vai fazer e acusa seus oponentes de querer fazer o que ele não faria “nem que a vaca tussa” (conforme expressão usada pela presidente Dilma quando disse, em campanha, que jamais tocaria em direitos trabalhistas – exatamente o oposto do que acabou de fazer, no final do ano). 


Amigos, amigos; negócios à parte. Votos, votos, tossidas de vacas à parte. 
Num processo criminal, haveria enquadramento no Artigo 171 do Código Penal (CP): 
Artigo 171 – Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento (CP - Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940). 
O texto é claro e não admite contestações. Durante a campanha, Dilma acusou seus adversários, Marina e Aécio, de terem, em seus planos, intenções de “mexer em direitos trabalhistas” e de adotar medidas comprometidas com o mercado financeiro e não com a população. Ora, logo após se eleger, nomeou um funcionário do Bradesco para ministro, além de outras “personalidades políticas” ligadas a setores sempre interessados em “mexer em direitos trabalhistas” e de adotar medidas comprometidas com o mercado financeiro e não com a população. Conforme diz Jorge Oliveira, em artigo intitulado “Novo ministro do Esporte é figura carimbada na Polícia Federal e na Receita”: 
O ministério que a Dilma escolheu para começar seus trabalhos do segundo mandato em 2015 é o pior da história do Brasil. Nem o Collor, com a primeira escolha dos seus auxiliares, conseguiu tal proeza. Com exceção de alguns, é uma composição para atender legendas de aluguel e aproveitar políticos que não foram legitimados nas suas bases pelo voto. Na área econômica, o caso é mais sério ainda. Os nomes foram impostos pelo sistema financeiro. O ministro da Fazenda Levy Fidelis e seus principais auxiliares saíram das baias do Bradesco, que agora, finalmente, inaugura uma de suas filiais, a mais importante, dentro do Palácio do Planalto.
Aguardo as contestações à afirmação de que se trata de um nítido ato para ser enquadrado no Artigo 171 do CP. E digo que há coisas que não precisam ser lembradas todo momento. Mas, se for preciso, posso sugerir a lembrança de que foram os votos do pessoal que acreditou que a presidente não mexeria nos direitos trabalhistas que a elegeram na reta final da eleição. 

Contra um eleitorado oposicionista histérico (2), o PT e sua candidata cara-de-pau se voltaram para o eleitorado “de esquerda”, ou seja, os movimentos de trabalhadores e outros agentes sociais discriminados na distribuição de riqueza. Foram eles que, no frigir dos ovos, parecem ter levado Dilma e sua turma à vitória. 

Mal fizeram isso, a presidente reeleita lhes deferiu várias punhaladas pelas costas, antes mesmo de tomar posse do segundo mandato. 


Atos do governo confirmam críticas dos manifestantes de 2013: políticos não são confiáveis
Avanços sociais

Boa parte dos argumentos adotados por esse pessoal “de esquerda” e agora desiludido com o PT (que nunca foi “de esquerda”) foi que houve “avanços sociais” nos doze anos petistas. Ora, houve, é claro. Houve também no governo de FHC, não é possível negar. E não é errado lembrar que a base desses avanços foi dada no mandato do tucano, com as bolsas disso e daquilo, recicladas e massificadas por Lula e pelo PT. 

Não houve, na estrutura, qualquer mudança substantiva entre os governos tucanos e petistas, o que nos leva a definir esse período que iniciou em 1995 e segue, infelizmente, até hoje, como PTucano. Há a identidade nos programas sociais, que assumem a nítida característica de esmolas, e no privilégio às camadas ultra ricas, o “andar de cima” de Elio Gaspari. Aliás, se há alguém lúcido no processos de análise das “relações secretas” do partido que se diz “dos trabalhadores” mas não honra o nome, esse é Gaspari. Ele diz, há pelo menos uma década, que PT, PSDB e DEM “juntam-se na cobiça do andar de cima e no descaso pelo andar de baixo” (vide texto de 2005, “A coligação PT-PSDB-PFL”, que você, se quiser, pode ler em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2707200517.htm). 

Gaspari também lembrou, mais recentemente, quando a senhora presidente se exibiu na abertura da Copa do Mundo e foi vaiada e mandada para lugares pouco recomendáveis, que há dois ódios nítidos na atual política brasileira, ou melhor, um ódio só, com dois lados odientos: “O ódio ao PT e o ódio do PT”. E diz: 
Lula tem toda razão. Existe uma campanha de ódio contra o PT. Esqueceu-se de dizer que existe também uma campanha de ódio do PT. Uma expôs-se no insulto à doutora Dilma na abertura da Copa. Argumente-se que o grito foi típico da descortesia dos estádios. O deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, influente aliado do candidato Aécio Neves, endossou-o durante um evento do tucanato: “O povo mandou ela para o lugar que tinha que mandar.” Essa é a campanha de ódio contra o PT. Ela pode ser identificada na generalização das acusações contra seus quadros e, sobretudo, na desqualificação de seus eleitores. Nesse ódio, pessoas chocadas pela proteção que Lula e o partido deram a corruptos misturam-se a demófobos que não gostam de ver “gente diferenciada” nos aeroportos ou matriculada nas universidades públicas graças ao sistema de cotas.
O ódio do PT é outro, velho. Lula diz que nunca se valeu de palavrões para desqualificar presidentes da República. Falso. Numa conversa com jornalistas, chamou o então presidente Itamar Franco de “filho da puta” e nunca pediu desculpas. O ódio petista expôs-se em situações como a hostilização ao ministro Joaquim Barbosa num bar de Brasília e na proliferação de acusações contra o candidato Aécio Neves na internet. Se a rede for usada como posto de observação, os dois ódios equivalem-se, e pouco há a fazer.
Lula antevê uma campanha eleitoral “violenta”, pois a elite “está conseguindo despertar o ódio de classes”. Manipulação astuciosa, recicla o ódio do PT, transformando-o no ódio ao PT. Pode-se admitir que a elite não gosta do PT, mas bem outra coisa é rotular como elite todo aquele que do PT não gosta. Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras que entesourou US$ 23 milhões em bancos suíços, certamente pertence à elite e no seu depoimento à CPI viu-se que gosta do PT e o PT gosta dele (leia mais em http://oglobo.globo.com/opiniao/o-odio-ao-pt-o-odio-do-pt-12904204).
Na prática, os tais “avanços sociais” são fruto de um ciclo iniciado, na verdade, com Collor de Mello, em 1990. O plano é a inclusão, não a exclusão dos que o próprio Collor chamava de “descamisados”. Inclusão pela via do consumo, não pela cidadania, como dizia, em vida, a saudosa Teresa Urban; pela taxação, não pela oferta de direitos ou benefícios. Exatamente o que o PT fez nos seus doze anos de mandato e exatamente, ou quase, o que os tucanos fizeram nos oito anos em que estiveram no Planalto. Conforme o mesmo Gaspari, no mesmo texto, pagamos “impostos europeus por serviços africanos”. 

É bom lembrar que o poeta Ferreira Gullar, historicamente um sujeito com compromissos “à esquerda” do plano político e que abandonou o barco petista há muito, denunciou, ainda na eleição de 2010, que as bolsas petistas serviam para comprar a consciência dos mais pobres. Isso está publicado em http://www.publico.pt/mundo/noticia/lula-comprou-os-pobres-do-brasil-1462597 e é prudente meditar sobre essa factualidade.  

Futuro nada promissor

Diante desse quadro, o que vem por aí não parece nada animador. 

Quando um governo que não é definitivamente “de esquerda” (3) (mas se diz como tal, é reconhecido por muita gente como tal e venceu uma eleição falando como tal) toma atitudes características de uma índole política subserviente e conspurca o conceito do que seja, afinal, essa tal “esquerda” igualitária, tudo de ruim se pode esperar. É algo como quebrar um espelho e todos sabemos o azar que dá isso. 

O futuro, assim, não parece promissor para nós, os tais “contribuintes” que gastamos como ricos para ter serviços pobres. E não parece promissor também para o governo “de esquerda” que toma atitudes “de direita”. Basta dizer que, historicamente, há dois péssimos exemplos de governantes que tentaram agradar a oposição baixando as calças e se deram mal: Getúlio, que teve que meter uma bala no coração para salvar a própria honra e o país, retardando por dez anos o golpe das elites brasileiras jecas, para as quais a pronúncia anasalada do inglês estadunidense é música; e João Goulart, que mostrou ser apenas um playboy, casado com uma bela mulher e desejoso de uma boa vida. Quando o bicho pegou, enfiou o rabo entre as pernas e saiu fora, crendo que conseguiria a paz que tanto almejava. Acabou morto pelos que tentou apaziguar com sua aparente covardia. 

Se alguém me perguntar, digo: a chance de Dilma chegar ao fim do mandato é a mesma que o Fluminense vencer o Campeonato Brasileiro de 2015. E digo que torço para que as duas coisas aconteçam, mas não boto muita fé. 

Epílogo

Mas, como ninguém me perguntou, vou ser muito sincero: Dilma não pode chegar ao fim do segundo mandato simplesmente porque não assumiu nem o primeiro. É, tudo indica, uma boneca de ventríloquo e por trás de seu claro despreparo está, não esqueçamos, o maior partido do Brasil, o PMDB, que, na prática, parece ser quem governa o país. E Temer, o lorde inglês, pode já ser, “de fato”, o presidente, o que é bem melhor do que ser, “de direito”. 

Enquanto a presidente "de direito" leva a pedrada, o presidente "de fato" curte a vida. 

Assim, se for conveniente, Dilma ficará onde está, como peça decorativa na estante do poder. Mera boneca a receber impropérios no lugar dos que efetivamente os merecem. Mas, essa é a função dos políticos, já dizia Jean Baudrillard: representar o papel do mal e da corrupção em uma sociedade essencialmente maldosa e corrupta. 

Em suma, nem nós, "contribuintes" (trabalhadores, pois quem paga mais imposto é o trabalhador), que continuaremos a pagar pelo que não recebemos, nem as esquerdas que apoiaram Dilma, nem o PT, que falou grosso na campanha, mas agora fala fino, se curva e mostra os fundilhos, devem estar muito otimistas para 2015. 

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Notas

(1) É certo que deixei de viver inúmeros “anos eleitorais”, pois vivi no tempo da ditadura militar, o período da imbecilidade tornada regra, no qual não havia eleições, ou, se havia, eram minoritárias e pouco importantes no contexto geral, na “macropolítica”. Mas, mesmo considerando a falta de tantas emoções durante esse período nada democrático, posso dizer que assisti a diversas eleições e que esta, a de 2014 para a Presidência da República, foi a mais acirrada e mais tumultuada de minha história. Antes, certamente a eleição de 1989, quando Collor de Mello foi eleito presidente vencendo Brizola no primeiro turno e Lula no segundo turno, tinha sido a mais animada. 

(2) Oposição histérica em parte por conta de sua histórica formação sórdida, como aponta João Paulo Cunha, um ex-jornalista do Estado de Minas, no texto “Síndrome de Capitu”, que lhe valeu uma censura e a honrosa iniciativa de se demitir do jornal – leia em http://www.cartacapital.com.br/blogs/midiatico/apos-criticar-oposicao-jornalista-e-impedido-de-escrever-sobre-politica-em-mg-9668.html. Mas, em parte com razão, pois o governo petista produziu, nos últimos doze anos, um quadro político e econômico que se sustenta sobre a alta taxação do trabalho e do empreendedorismo e na blandícia quando se trata de regular a sanha do ganho financeiro, como bem denuncia o pessoal que luta pela Auditoria Cidadã da Dívida (http://www.auditoriacidada.org.br). 

(3) Se considerarmos o que define Norberto Bobbio como “esquerda”, a tendência a priorizar o igualitário em detrimento da liberdade – vide o livro “Esquerda e direita: razões e significados de uma distinção”, de 1994 e que pode ser encontrado no endereço http://www.libertarianismo.org/livros/nbdee.pdf

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