sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cria corvos e poderás ficar sem olhos... ou sem mandato

Certa vez, ouvi um dito que fala sobre a estultice. Como usualmente ocorre, o tal dito é atribuído à sabedoria oriental, talvez chinesa. Diz algo assim: “O idiota, quando aponta para a lua, só consegue ver  próprio dedo”. 

Hoje, no Brasil, muitos defensores do governo reeleito demonstram uma grave preocupação com uma tal “direita reacionária” que estaria, segundo eles, tentando tomar conta do país. Ora, eu diria a esse pessoal que, dada a prática do governo nos últimos 12 anos, de reforço do que há de pior na política brasileira, eu não temeria exatamente a “direita reacionária”. 

O pessoal que foi para as ruas pedir intervenção militar, golpe e/ou impeachment da senhora presidenta é mais caricatural do que ameaçador. As reivindicações que gritaram parecem provar isso. É algo próximo do cúmulo do ridículo pedir que os militares deem um “golpe” no estilo 1964, quando naquele tempo havia condições absolutamente propícias para isso, não apenas no Brasil como em toda a América do Sul (tanto é verdade, que isso aconteceu, efetivamente, em todo ou quase todo o continente). Eles mostram desconhecer a história e idealizam o papel dos milicos no golpe. Os militares cumpriram ordens, como sempre fazem. 

Neste momento histórico, é muito improvável que ordens de golpe sejam dadas, embora não seja impossível, é claro. Ainda mais que há quem diga que, em política, o impossível é aquilo que ainda ninguém achou conveniente fazer por falta de condições históricas. 

De todo modo, o alerta é para que o pessoal que teme a “direita reacionária” não a tema tanto, porque o que está posto de forma tão explícita não deve preocupar tanto quanto aquilo que age em silêncio. É o caso do cachorro que não late, do homem que não fala e do diabo sem rabo e chifres. Também é o caso do câncer, doença que surge e se desenvolve silenciosamente e, por conta disso, é tão perigosa e fatal. 

Os manifestantes que gritam vitupérios iracundos contra o Partido dos Trabalhadores (PT), Lula (chamado por eles de Luladrão) e Dilma (Dilmalandra, segundo os mesmos) têm, de acordo com seu ângulo de visão, suas razões e algumas são até justas. O que chama a atenção é que atribuam todo o mal do país ou do mundo a um partido ou a uma ou duas pessoas ligadas a esse partido, enquanto as opções que usualmente apresentam e/ou apoiam são, em boa parte, iguais ou piores. Em suma, agem como se o país antes do PT fosse um mar de rosas ou como se todo o mal tivesse se materializado no PT e que bastaria se livrar dele para instituir o paraíso terrestre.

Não vou dizer que não devam ser levados a sério, mas que não devem ser levados tão a sério. São cães que ladram ruidosamente, homens (e mulheres) que falam (até demais), diabos com chifres e rabo. Movimentos assim são claros, ruidosos, eloquentes. Não parecem poder ser comparados ao silencioso e letal câncer. 

Se eu fosse do governo, ou interessado em seu prestígio e manutenção, temeria os inimigos ocultos, aqueles que oferecem uma das mãos para o cumprimento, mas mantêm uma adaga na outra, estrategicamente oculta nas costas. Há figuras emblemáticas e habilidosas no ofício da dissimulação, como o ex-presidente Sarney, que foi filmado votando no número 45, apesar de usar adesivo com o número 13 na lapela, e há o vice da presidenta, o paulista Michel Temer, que dizem as más línguas, conspira contra Dilma desde o primeiro dia de mandato. Ambos, Sarney e Temer, são de um partido “amigo”, o PMDB. 

Se eu fosse, então, um dos interessados em manter Dilma e o PT no poder, temeria mais os amigos do que os inimigos e lembraria aquele dito, supostamente oriental, que fala do tolo que aponta a lua. Tudo indica que se está observando mais uma fantasia, a da suposta força dos “reacionários”, do que a realidade, a real força deles. Isso, em parte, é reforçado convenientemente pelos próprios dirigentes petistas, que forçam a polarização do debate político como forma de esvaziá-lo e de ocultar suas próprias verves reacionárias, já que não operaram qualquer mudança significativa no modelo do governo que os antecedeu, o dos tucanos com Fernando Henrique Cardoso (FHC) à frente, chamado por eles de “reacionário” e classificado como “de direita”. Até as iniciativas assistencialistas dos governos petistas, as “bolsas”, foram criadas no tempo de FHC... 

Mais que tudo isso, a quem deseja realmente garantir o mandato de Dilma e Cia, eu lembraria outro dito, desta vez espanhol, bem mais apropriado para o caso: “Cría cuervos, y te sacarán los ojos”(1). 

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(1) “Cria corvos e eles te arrancarão os olhos” é um dito que fala da ingenuidade daqueles que confiam em quem não deveriam. Há quem use a expressão “criar cobras”, com o mesmo sentido. 

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