quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Debate entre o bem e o mal não ajuda ninguém - a não ser os que olham para o próprio umbigo

Antes ou depois de mais um debate inexistente, os candidatos posam
O “debate” eleitoral foi formulado sobre ideias gerais, adjetivações e a rasteira mentalidade infantil da idealização do bem e do mal. Nada se aprende nessas circunstâncias e o preconceito sai prestigiado.

Do rescaldo eleitoral ficam muitas impressões. Foi um processo no qual a polarização fez os estragos que usualmente faz. De um lado, o bem, do outro, o mal. Isso visto em mão dupla, pois ambos os lados se consideram, sempre, o bem supremo, o caminho para a salvação. 

Não parece ter havido sequer um debate profícuo durante todo o período de campanha eleitoral. Se o eleitor brasileiro aprendeu algo novo acerca do conceito de política, não foi certamente por incentivo dos partidos que detêm a hegemonia política. Eles parecem mais ter tentado, por todo o tempo, evitar que o cidadão pensasse. Houve raras exceções, é claro, mas a predominância do besteirol maniqueísta não deixa dúvidas da má intenção. Mas, não há apenas más intenções, há muita ignorância e muita burrice justificando esse tipo de coisa - de todos os lados, diga-se. 

Deliberadamente, o Partido dos Trabalhadores (PT), cuja candidata conseguiu a reeleição, usou desses recursos sobejamente durante a campanha. Não apenas o PT, é claro, mas note-se que esse recurso caracterizou o discurso desse partido. Assim, a candidatura de Marina Silva, que emergiu de um estranho acidente com o titular de sua chapa, Eduardo Campos, como favorita, foi “desconstruída”, segundo termo bastante utilizado nessa campanha, ou bombardeada ferozmente com estereótipos de baixo calão, conforme outras interpretações. 

No caso de Marina, essa “argumentação” de baixo nível intelectual até que foi útil para o eleitor, mas num sentido negativo: mostrou as fragilidades da candidata, sem que fossem necessariamente discutidas as virtudes dos agressores. 

No caso de Aécio Neves, já no segundo turno, o PT conseguiu viabilizar o discurso do retrocesso ligado ao candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Se os tucanos (mascote do PSDB) fossem eleitos, viria o retrocesso, dizia esse discurso, embora claramente o governo petista seja uma continuação do governo peessedebista – Fernando Henrique Cardoso (FHC) do PSDB governou o país de 1995 a 2002, tendo passado a faixa e o mesmo modelo econômico a Lula, do PT, que a passou, em 2011, a Dilma Rousseff, que agora se reelegeu. 

O mesmo modelo venceu, mas parece esgotado

Na prática, o modelo econômico-político atual nasceu com Fernando Collor de Mello, em 1990, e pode ser definido como um modelo economicamente dependente e baseado em investimentos externos, que chegam ao país não exatamente para a elevação da capacidade produtiva, mas para a especulação. Essa é a sua estrutura básica, não há como negar, o que coloca as diferenças entre os governos do PSDB e do PT concentradas na estratégia populista mais eficaz deste. Essa estratégia põe uma bela azeitona na empadinha petista, pois consiste na melhoria das condições de consumo de boa parte da população. Mas, parece se resumir nisso e não leva em conta a cidadania, a não ser se esta for resumida ao conceito de "consumo como manifestação cidadã", habilmente defendido por muitos como, por exemplo, o argentino Néstor-García Canclini na década de 1990. 

Assim, em um curto prazo, a estratégia petista é mais atraente, mas em um prazo mais dilatado, pode resultar em tragédia. O custo de uma economia centrada no consumo é alto e, notadamente por conta de um pesado endividamento assumido durante esse período de 20 anos de governo “PTucano” e pela preocupante queda da produção industrial, as previsões não são das melhores. 

Do outro lado, os tucanos não parecem mostrar competência sequer para argumentar em defesa do governo de FHC, de mostrar como os doze anos petistas apenas continuaram o projeto que já havia nascido mesmo antes do período tucano (à época, materializado simbólica e praticamente na adesão a um plano, o Consenso de Washington), que foi responsável pela reforma monetária, pelo fim da inflação e pela privatização de parte das grandes empresas nacionais, mas também pela instituição do assistencialismo das “bolsas”, necessário e até elogiável em condições extremas – como as que caracterizaram e, em muitas conjunturas, ainda caracterizam – a realidade econômica brasileira. 

As bolsas, assim, nasceram com os tucanos, que, no entanto, parecem historicamente incapazes de transmitir essa ideia de forma clara e de receber os louros por conta da iniciativa que nasceu tímida com eles, mas se constituiu na locomotiva política de manutenção do petismo – alguns preferem “lulismo” – no poder. Dos oito anos de FHC, que “prepararam a cama” econômica para o PT, só sobraram más lembranças e os tucanos se mostram totalmente incapazes de mudar esse quadro. Não mereceram, assim, melhor sorte por três eleições. Por não conseguirem mostrar que não podem ser tão ruins quanto parecem, acabaram ficando com a imagem do mal e amargaram derrotas sucessivas. Não conseguiram, assim, promover um choque de ideias mais profícuo, se não para vencer, pelo menos para fazer o eleitor pensar. 

Um debate fundamentado sobre a oposição do bem contra o mal não ajuda a ninguém, nem aos vencedores do debate. 

Divisão

Parece haver um descompasso crescente entre as representações políticas disponíveis e as demandas de uma significativa parte da população. Cabe lembrar a diferença entre os candidatos, de pouco mais de 3 milhões de votos: Dilma teve 54.501.118 votos (51,63%) e Aécio 51.041.155 (48,36%).  O número de votos “inválidos” merece registro especial: 

- abstenções: 30,1 milhões de eleitores não foram às urnas para votar (21,10%);
- votos nulos: 5,2 milhões (4,63%); 
- votos brancos: 1,9 milhão (1,71%). 

Num total de 142,8 eleitores, 37,2 milhões não votaram ou se manifestaram contra os candidatos do PT e do PSDB, em um percentual aproximado e nada desprezível de 26%. No Rio de Janeiro, 35,8%, 4.348.950 milhões de eleitores, ou não votaram ou votaram nulo ou branco, enquanto o governador reeleito, um tal Pezão, conseguiu 4.343.950 votos, exatos 5 mil a menos, segundo informações de portais de notícias. 

O outro lado por este lado

Contra a interpretação exposta aqui, de que há uma continuidade entre os governos de PSDB e PT – daí o termo PTucano – há outra, a de que o governo peessedebista foi “neoliberal” e o governo lulista foi uma retomada do “nacional-desenvolvimentismo” caracterizado anteriormente nos governos de Getúlio Vargas. 

Esse argumento não parece plausível, pois não parece que tenha havido desenvolvimento econômico sustentável nesse período. A queda da produção industrial vem sendo denunciada por economistas há bastante tempo e os bons resultados econômicos parecem mais fruto de três fatores:

1. condições econômicas extremamente favoráveis, notadamente até 2009, e submissão aos ditames do capital financeiro, manifesta notadamente na explosão da Dívida Pública a partir de 2005, o que garante, num momento inicial, a calmaria e mesmo bons ventos vindos da especulação financeira – o problema com esse fator é que durante o governo de Dilma perdeu força e começou a esgarçar a sustentabilidade do modelo; 

2. o endividamento da população, do “mercado interno” ao qual, acertadamente, o petismo focou suas forças, não apenas para manter a máquina funcionando, apesar de tudo, mas para gerar a sensação de que a economia vai muito bem, obrigado – com algo índice de endividamento e parco investimento do capital produtivo, novamente é questionável a sustentabilidade;

3. os programas assistencialistas básicos e, proporcionalmente, baratos, como as “bolsas”, que jamais haviam sido aplicados com tamanho sucesso como em nossos dias, recomendados inclusive pelas instituições financeiras de peso, como o Banco Mundial – o problema, que para o governo foi solução, é que nas bolsas somem grande parte dos desempregados que minguam nas estatísticas oficiais. 

Assistencialismo produtivo e conservadorismo crescente

É preciso dizer que esses programas assistencialistas melhoram as condições de vida de uma parte considerável da população, o que é bom, mas em detrimento de uma outra, a camada média, que, na prática, sustenta o governo e seus projetos, enquanto o andar de cima goza de privilégios e multiplica fortunas, como a Revista Forbes já mostrou, o que é ruim. Foi essa camada média que liderou os votos raivosos anti-PT nessas eleições, usualmente com um discurso tonto e preconceituoso que não consegue expressar a realidade fiscal injusta e acaba por reforçar o argumento petista do “bem contra o mal”, dos “avanços contra o retrocesso”. 

Tudo indica que o Congresso Nacional “conservador” que surgiu das eleições deste ano é fruto da incapacidade de nossos representantes políticos de promover o bom combate de ideias. Parte desses conservadores fundamentam suas noções em preconceitos, contribuindo com o esvaziamento do debate, e parte deles representam o antipetismo cego, aquele que apenas inverte o discurso petista do bem dos “avanços” contra o mal do “retrocesso”. Tirando os que apresentam fundamentos plausíveis para seus posicionamentos, o resto parece buscar a crescente imbecilização do debate e, é claro, tem em comum o fato de olhar constantemente para o próprio umbigo. 

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