segunda-feira, 1 de setembro de 2014

PIB no fundo do poço: prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém

O Produto Interno Bruto, o PIB, é um índice que mede o valor de tudo o que o país produz, incluindo bens e serviços da indústria e do setor agropecuário. Ele permite avaliar com relativa precisão, embora genericamente, a atividade econômica e a riqueza de uma localidade ou de todo um país. Se há produção, há geração de riqueza, que tende a ser distribuída (não necessariamente de forma justa) e, assim, incremento dos investimentos, do consumo e das transações econômicas de modo geral. 

No caso brasileiro, neste momento, o PIB indica que podemos estar entrando em uma recessão, pois está caindo repetidamente neste ano. O termo “recessão”, é bom lembrar, significa retração da atividade econômica, ou seja, queda na produção, que repercute na redução dos investimentos, do consumo e das transações econômicas de modo geral. Em outros termos, é melhor abrir o olho porque o bicho pode pegar mais cedo do que se espera. 

Uma sociedade que foca o seu sistema econômico na circulação de crédito a partir do consumo corre sérios riscos quando ocorre uma recessão. Isso porque as operações de crédito se caracterizam por certo nível de “alavancagem financeira”, ou seja, uma interdependência entre os agentes econômicos por meio do endividamento. 

Dívidas e mais dívidas

O sistema de crédito não é mais do que um sistema que funciona sobre o endividamento, gerando dívidas e dívidas e quantas mais dívidas se puder gerar. Nessa perspectiva, o devedor precisa pagar para que o credor fature, isso sem contar nos intermediários costumeiramente presentes na transação, como as instituições que administram os cartões de crédito. Se o devedor não pagar, nem o credor, nem o intermediário recebem. Assim, não há lucratividade e, pelo contrário, há prejuízo, se for levado em conta o valor pago pelo credor pelo produto repassado ou pelo custo do serviço prestado. 
Uma sociedade que foca o seu sistema econômico na circulação de crédito a partir do consumo corre sérios riscos quando ocorre uma recessão. Isso porque as operações de crédito se caracterizam por certo nível de “alavancagem financeira”, ou seja, uma interdependência entre os agentes econômicos por meio do endividamento
Em uma recessão, inevitavelmente há mais riscos de calote nos pagamentos resultantes das operações de crédito, por dois motivos possíveis: em primeiro lugar, por incapacidade de cumprir os compromissos financeiros assumidos por falta de recursos; em segundo, a assunção de dívidas em níveis muito acima da capacidade de pagamento, quanto há recursos, mas não suficientes para cumprir os compromissos. Em ambos os casos, a situação é grave tanto para o devedor quanto para o credor. 

Alavancagem financeira

O que se quer dizer é que no sistema de crédito, estão amarrados no mesmo poste o devedor e o credor, sendo que este depende daquele. Se muitos devedores não pagam, os credores, no sistema de alavancagem financeira, também não pagam suas dívidas e os credores dos credores fazem o mesmo. Quando os credores dos credores dos credores e seus credores não pagam suas dívidas, ocorre algo semelhante ao que ocorreu em outros momentos da história, mas que teve no ano de 1929 o seu marco histórico provavelmente de maior gravidade relativa, pois foi a primeira grande e grave crise do capitalismo. Ocorre a quebra do sistema e a consequente depressão num processo que, para ser bem entendido, pode ser visualizado no "efeito dominó", vide imagem ilustrativa. 

Tenho lido textos de vários analistas econômicos. Alguns apostam na tragédia, claramente, mas não o parecem fazer com leviandade. Os números andam apontando o pior, embora ainda não se possa garantir com certeza que o pior realmente virá. 

Há os que tentam vender produtos que garantem um know how especial e específico para situações de crise, falam em confisco de salários e poupanças e apontam um projeto de um deputado piauiense, ligado ao partido do governo, o PT, que está no Congresso Nacional há muito tempo, aparentemente sem ser votado ou arquivado. 

Observando o projeto, bem se percebe que, no melhor espírito bolivariano, o tal parlamentar petista tenta definir a criação de uma “poupança fraterna”, com o confisco de salários e poupanças, no mesmo molde praticado durante o governo Collor de Mello. É claro que há uma grande probabilidade desse projeto não passar de uma fantasia delirante de um indivíduo supostamente socialista, mas nunca se sabe o que pode vir. Quando Collor de Mello levou a eleição de 1989 se poderia esperar de tudo, ou quase tudo, menos o que efetivamente aconteceu com o confisco. É dessas incertezas que se alimenta o medo e é quando se sente medo que se cometem mais desatinos. 

Atenção redobrada

Embora sem pânico, o momento é de alerta, até porque o país tem sua economia fraturada por uma dívida pública que consome quase metade do que se arrecada. Logo, se a produção cai do jeito que cai, com a obrigação da manutenção mensal de um superávit primário capaz de sustentar o pagamento dessa dívida pública, cairão drasticamente os investimentos estatais, além dos privados, bem como, assim, a atividade econômica de modo geral. O Brasil parece ser um país que ainda depende muito dos cofres públicos para funcionar. Se levarmos em conta a situação parasitária característica de parte significativa do empresariado, que parece agir como sanguessuga em relação ao erário, a coisa parece ainda mais séria e mesmo grave. 

Não creio em tragédias, embora saiba que elas existem e podem ocorrer a qualquer momento. “Não há nada tão ruim que não possa piorar”, me disse uma vez um amigo. Não é o caso de desespero, ainda. Mas... 

Prudência e canja de galinha não costumam fazer mal a ninguém. PIB baixo não é um bom sinal, ainda mais numa economia alavancada financeiramente. Não se trata de otimismo ou pessimismo, mas a consciência de que há algo para além dos discursos e que a realidade existe e é preciso lidar com ela. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário