quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A revista Poli, da Fiocruz, publica "O Placar da Copa" e diz que verdadeiro legado foi participação popular nos protestos

A revista Poli, editada pela Fiocruz, publicou um interessante “Placar da Copa”. Aproveitando o resultado do inesquecível jogo no qual a seleção brasileira foi goleada pela Alemanha, a revista lista sete vergonhas e um ponto positivo em relação à realização do certame. 

Seguem, abaixo, os sete gols contra, com alguns comentários. Não é exatamente o texto publicado na revista, aviso, mas integralmente baseado nele e complementado por mim. 

1. 170 mil pessoas foram removidas de suas casas. 

Isso aconteceu usualmente com violência policial desmedida. O Estado brasileiro, tanto o federal quanto os estaduais e municipais, mostraram todo o seu desprezo pelo cidadão. Foi provavelmente a maior vergonha que passamos, algo inaceitável que a maioria das pessoas prefere não comentar ou esquecer. Só por isso, os governantes que estiveram por trás dessa nojeira deveriam ser considerados réus e “avaliados” por júri popular, não apenas pela falta de votos. 

2. 8 operários foram mortos nas obras dos estádios. 

A revista aponta para o fato de que os trabalhadores envolvidos nas construções e reformas denunciaram sobrecarga e superexploração. 

3. Mais de R$ 1 bilhão deixou de ser arrecadado em impostos por conta da isenção concedida à Fifa, seus parceiros comerciais e patrocinadores.

Essa imoralidade deve ser bem avaliada por você, que trabalha quase metade do ano somente para pagar os impostos que atingem, principalmente, quem menos ganha. O que a Budweiser, por exemplo, não pagou, você paga. 



Carro alegórico, Alemanha 
4. Dezenas de cidadãos que se manifestaram publicamente, de modo democrático, pois que democracia é povo na rua com voz, foram presos e processados sem provas.

Um morador de rua foi preso por porte de Pinho Sol e condenado a não sei mais quantos anos de cadeia. Vídeos mostram claramente policiais militares forjando provas para a prisão de manifestantes e as agressões animalescas foram mais comuns do que se pode pensar. Nem na ditadura a arbitrariedade e falta de vergonha foi tão grande. Até uma clínica médica sofreu ataques da tropa de dominação colonial que é a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Foram lançadas bombas de gás dentro da clínica. 

Evidentemente não todos, mas boa parte dos quebra-quebras ocorridos em manifestações parecem ter sido realizados por “infiltrados” e há fortes suspeitas de que a famigerada P2 teria participação nisso. Fora esse possível fato, um jornalista que cobriu as manifestações disse que a tropa de choque sempre agiu de forma peculiar, deixando que houvesse os quebra-quebras para, depois, agredir os manifestantes, não os tais vândalos. 

E o time do Governo Federal é de um partido que nasceu popular e nas ruas, enfrentando a ditadura militar. No que diz respeito à Copa, parecem ter se transformado no opressor. Não é nada tão estranho assim, ainda mais se for levado em conta que a filha de Freud, Anna, já havia conceituado esse mecanismo como “identificação com o agressor”. Erich Fromm também falou sobre esse fenômeno de “vira-casaca”, definindo-o como típico do caráter rebelde, que, ao contrário do revolucionário, não quer mudar nada: somente almeja o poder e quando o alcança, se torna igualzinho aos que o tinham anteriormente e eram, é claro, criticados pelo rebelde. 

5. R$ 25 bilhões foi o montante do dinheiro público (que é o resultado do tempo que eu e você gastamos trabalhando para pagar os absolutamente injustos impostos brasileiros) gasto com a Copa. A Poli alerta que se você somar a isenção fiscal e os gastos com a Fifa Fan Fest, a conta pula para R$ 34 bilhões. 

Sem comentários.

6. A Fifa lucrou R$ 7 bilhões com a Copa no Brasil. Segundo a Fundação Heirinch Böll, citada pela revista, um recorde absoluto em se tratando de mundiais. 

A Copa foi certamente um grande negócio... para a Fifa, seus amigos, o governo brasileiros e seus amigos e aliados. O resto somente pagou a conta – e continuará pagando. 

7. O aparato de Segurança Pública da Copa, que o governo que tenta se reeleger usa na campanha como se isso fosse bonito, mas que, em minha opinião, se equivale a uma Gestapo tupiniquim, custou quase R$ 2 bilhões. Cresceram os casos de violência policial, incentivados pelos governos. 

E ainda se diz por aí que estamos em um regime democrático...



É assim que o governo brasileiro trata os cidadãos e cidadãs.
Vergonha para todos nós, condenações em todo o mundo.
O verdadeiro legado

Depois dessa goleada de nojeiras praticadas pelo Poder Público, cabe falar do gol de honra do Brasil. 

Segundo a revista, centenas de milhares de pessoas foram às ruas em protesto contra os gastos públicos e a violência estatal promovida pela Copa. O refrão “Da Copa eu abro mão, quer é saúde e educação” foi ouvido em todo o país e até mesmo fora dele. A ação de movimentos sociais levou inclusive a Fifa a ter que se explicar e que denúncias de “esquemas” e arbitrariedades evitassem males maiores para todos nós. 

Pós-jogo

A seleção não jogou nada em momento nenhum, merecia ter perdido o primeiro jogo e só sobreviveu na competição, chegando até a semifinal, por conta da ajuda de um ou outro juiz, da habilidade individual de alguns jogadores e de sorte. 

O governo brasileiro deu um dos maiores vexames da história da República, ao aceitar realizar e pagar um evento que não gerou nem um terço do que se esperava em benefícios para as populações urbanas. Mostrou ser subserviente e inepto quando se trata de defender a cidadania. Foi o pior da competição e pagará com a derrota nas eleições. 

A sociedade brasileira, porém, se não atingiu um nível de mobilização democrática suficiente para peitar as arbitrariedades da Polícia Militar (uma tropa de dominação colonial com a validade vencida) e mesmo para acabar com a militarização na polícia, já percebe que não há sentido no uso de um exército armado contra a população. 

Além disso, a multidão parece ter acordado para exigir que os governantes não se mostrem tão afeitos à corrupção moral e financeira e mostrou que despertou para a luta. Esse, sem qualquer dúvida, foi o legado da Copa. 

Link para download da revista: http://www.epsjv.fiocruz.br/upload/EdicoesRevistaPoli/R42.pdf 

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