quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Se achar “a” melhor é tolice, mas tentar imbecilizar o eleitor é outra conversa


Há pouco, ouvi alguém dizer que o governo é socialista pois socializa
entre si as riquezas nacionais e a Petrobras parece ser um bom exemplo disso
Em entrevista recente, dada durante o seminário "Brazil Infrastructure Summit", no Rio, a presidente respondeu aos que criticam a estratégia de seu partido para reelegê-la, que consiste em utilizar o velho mote fascista do “comigo tudo estará bem, mas com os outros virá o caos”. 

Ela disse o seguinte: "Qualquer ser humano pode raciocinar comigo, eu integrei o governo, coordenei os programas de governo, participei diretamente de todos os grandes projetos do governo Lula, então não há terrorismo nenhum em acharmos que quem representa melhor a continuidade somos nós"

Não, dona presidente, claro que o fato de a senhora, ou quem mais vier, acreditar que é a melhor opção parece realmente humano, embora geralmente deva ser considerado tolo, aquele que se acha “o” ou “a” melhor. Mas, o problema não é esse. 

O problema, claramente, é a tentativa de imbecilização do eleitor, ou seja, do cidadão por esse discurso fascistoide. Usualmente, quem utiliza esse recurso espúrio o faz por imbecilidade, desespero ou canalhice mesmo. 

De certo modo, considerando os escândalos que envolvem a Petrobras, a tática parece destinada claramente a certificar o governo como daqueles que, mesmo praticando suas falcatruas, mesmo enriquecendo meia dúzia no mesmo movimento em que diz retirar milhões da pobreza, ainda é digno de confiança. 

Para um partido que tanto criticou, no passado, o "rouba mas faz", parece haver, no presente, demasiada intimidade com essa lógica. 

“Pobre o caralho, consumo o justo porque defendo minha liberdade”, diz Mujica

Pepe Mujica andou sendo visto e ouvido recentemente no Rio Grande do Sul. O homem tem coisas a dizer. Entre elas, que é mentira que não há dinheiro para acabar com a pobreza. “Gastamos 1 milhão de dólares por minuto em recursos militares no mundo e dizem que não temos recursos para acabar com a pobreza”, disse, segundo matéria da revista Fórum. Pior, não é nem o caso de mentir, é puro descaso: “Sabemos o que fazer, temos a ciência, temos os meios econômicos, entretanto continuamos olhando para o outro lado”, analisou.

Ele também demonstra saber como funcionam os grupos que disputam o poder, que não estão nem um pouco interessados em governar a não ser que isso signifique bom faturamento e boa vida às custas dos outros. Diz que, provavelmente por isso, só se preocupam em ganhar as eleições. 

Estamos observando isso, no Brasil, aliás. Não somente o grupo que ocupa o Planalto se mostra muito mais interessado em ganhar a eleição do que em efetivamente governar para quem precisa de governo, embora esse mesmo grupo jure que isso é prioridade. Não é preciso falar de coisas feias, como os esquemas “mensalão” – tudo indica que oriundo de antigas falcatruas que vitimaram dois prefeitos do partido, segundo se conta – ou o recente “petróleo”. É a mentalidade jeca do “eu vou é me dar bem”. 

Se formos observar, proporcionalmente a grana embolsada parece bem mais significativa do que a destinada a governar. Se levarmos em conta o pago inutilmente a banqueiros, fruto do "pagamento" ao FMI cantado em prosa e verso pelo ex-presidente Lula, responsável por esse "pagamento", a balança se desequilibra radicalmente. 

Mujica sugere, também, que a busca pelo desenvolvimento, a riqueza nacional, essas coisas que os governantes dizem almejar, é danosa, pois a lógica do “eu vou me dar bem” parece mais forte nos países fortes. Tem lógica, pois quanto mais rica a casa, mais atrai ladrões. 

A vida voltada para a acumulação de dinheiro ganhou um torpedo certeiro: “A nossa civilização prega a acumulação de capital acima de todas as coisas e devemos consumir e consumir e inventar porcarias e passar a vida toda pagando”. 

Nada a acrescentar. Mas, para fechar o assunto, Mujica ainda disse o seguinte: “Dizem que sou o presidente pobre. Sou pobre o ‘caralho’. Pobre é aquele que precisa de muito. Eu consumo o justo porque defendo minha liberdade”. 

Cá para nós, era um sujeito mais ou menos assim que eu queria ver no Planalto. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A revista Poli, da Fiocruz, publica "O Placar da Copa" e diz que verdadeiro legado foi participação popular nos protestos

A revista Poli, editada pela Fiocruz, publicou um interessante “Placar da Copa”. Aproveitando o resultado do inesquecível jogo no qual a seleção brasileira foi goleada pela Alemanha, a revista lista sete vergonhas e um ponto positivo em relação à realização do certame. 

Seguem, abaixo, os sete gols contra, com alguns comentários. Não é exatamente o texto publicado na revista, aviso, mas integralmente baseado nele e complementado por mim. 

1. 170 mil pessoas foram removidas de suas casas. 

Isso aconteceu usualmente com violência policial desmedida. O Estado brasileiro, tanto o federal quanto os estaduais e municipais, mostraram todo o seu desprezo pelo cidadão. Foi provavelmente a maior vergonha que passamos, algo inaceitável que a maioria das pessoas prefere não comentar ou esquecer. Só por isso, os governantes que estiveram por trás dessa nojeira deveriam ser considerados réus e “avaliados” por júri popular, não apenas pela falta de votos. 

2. 8 operários foram mortos nas obras dos estádios. 

A revista aponta para o fato de que os trabalhadores envolvidos nas construções e reformas denunciaram sobrecarga e superexploração. 

3. Mais de R$ 1 bilhão deixou de ser arrecadado em impostos por conta da isenção concedida à Fifa, seus parceiros comerciais e patrocinadores.

Essa imoralidade deve ser bem avaliada por você, que trabalha quase metade do ano somente para pagar os impostos que atingem, principalmente, quem menos ganha. O que a Budweiser, por exemplo, não pagou, você paga. 



Carro alegórico, Alemanha 
4. Dezenas de cidadãos que se manifestaram publicamente, de modo democrático, pois que democracia é povo na rua com voz, foram presos e processados sem provas.

Um morador de rua foi preso por porte de Pinho Sol e condenado a não sei mais quantos anos de cadeia. Vídeos mostram claramente policiais militares forjando provas para a prisão de manifestantes e as agressões animalescas foram mais comuns do que se pode pensar. Nem na ditadura a arbitrariedade e falta de vergonha foi tão grande. Até uma clínica médica sofreu ataques da tropa de dominação colonial que é a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Foram lançadas bombas de gás dentro da clínica. 

Evidentemente não todos, mas boa parte dos quebra-quebras ocorridos em manifestações parecem ter sido realizados por “infiltrados” e há fortes suspeitas de que a famigerada P2 teria participação nisso. Fora esse possível fato, um jornalista que cobriu as manifestações disse que a tropa de choque sempre agiu de forma peculiar, deixando que houvesse os quebra-quebras para, depois, agredir os manifestantes, não os tais vândalos. 

E o time do Governo Federal é de um partido que nasceu popular e nas ruas, enfrentando a ditadura militar. No que diz respeito à Copa, parecem ter se transformado no opressor. Não é nada tão estranho assim, ainda mais se for levado em conta que a filha de Freud, Anna, já havia conceituado esse mecanismo como “identificação com o agressor”. Erich Fromm também falou sobre esse fenômeno de “vira-casaca”, definindo-o como típico do caráter rebelde, que, ao contrário do revolucionário, não quer mudar nada: somente almeja o poder e quando o alcança, se torna igualzinho aos que o tinham anteriormente e eram, é claro, criticados pelo rebelde. 

5. R$ 25 bilhões foi o montante do dinheiro público (que é o resultado do tempo que eu e você gastamos trabalhando para pagar os absolutamente injustos impostos brasileiros) gasto com a Copa. A Poli alerta que se você somar a isenção fiscal e os gastos com a Fifa Fan Fest, a conta pula para R$ 34 bilhões. 

Sem comentários.

6. A Fifa lucrou R$ 7 bilhões com a Copa no Brasil. Segundo a Fundação Heirinch Böll, citada pela revista, um recorde absoluto em se tratando de mundiais. 

A Copa foi certamente um grande negócio... para a Fifa, seus amigos, o governo brasileiros e seus amigos e aliados. O resto somente pagou a conta – e continuará pagando. 

7. O aparato de Segurança Pública da Copa, que o governo que tenta se reeleger usa na campanha como se isso fosse bonito, mas que, em minha opinião, se equivale a uma Gestapo tupiniquim, custou quase R$ 2 bilhões. Cresceram os casos de violência policial, incentivados pelos governos. 

E ainda se diz por aí que estamos em um regime democrático...



É assim que o governo brasileiro trata os cidadãos e cidadãs.
Vergonha para todos nós, condenações em todo o mundo.
O verdadeiro legado

Depois dessa goleada de nojeiras praticadas pelo Poder Público, cabe falar do gol de honra do Brasil. 

Segundo a revista, centenas de milhares de pessoas foram às ruas em protesto contra os gastos públicos e a violência estatal promovida pela Copa. O refrão “Da Copa eu abro mão, quer é saúde e educação” foi ouvido em todo o país e até mesmo fora dele. A ação de movimentos sociais levou inclusive a Fifa a ter que se explicar e que denúncias de “esquemas” e arbitrariedades evitassem males maiores para todos nós. 

Pós-jogo

A seleção não jogou nada em momento nenhum, merecia ter perdido o primeiro jogo e só sobreviveu na competição, chegando até a semifinal, por conta da ajuda de um ou outro juiz, da habilidade individual de alguns jogadores e de sorte. 

O governo brasileiro deu um dos maiores vexames da história da República, ao aceitar realizar e pagar um evento que não gerou nem um terço do que se esperava em benefícios para as populações urbanas. Mostrou ser subserviente e inepto quando se trata de defender a cidadania. Foi o pior da competição e pagará com a derrota nas eleições. 

A sociedade brasileira, porém, se não atingiu um nível de mobilização democrática suficiente para peitar as arbitrariedades da Polícia Militar (uma tropa de dominação colonial com a validade vencida) e mesmo para acabar com a militarização na polícia, já percebe que não há sentido no uso de um exército armado contra a população. 

Além disso, a multidão parece ter acordado para exigir que os governantes não se mostrem tão afeitos à corrupção moral e financeira e mostrou que despertou para a luta. Esse, sem qualquer dúvida, foi o legado da Copa. 

Link para download da revista: http://www.epsjv.fiocruz.br/upload/EdicoesRevistaPoli/R42.pdf 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Aos sócios, tudo e um pouco mais; para a plebe, impostos e o rigor da Lei


É uma bela foto, não? Se não quiser saber dessa história da Petrobras
ter se transformado num excelente negócio para meia dúzia de amigos
da realeza e um péssimo negócio para todos nós, pelos menos pode
fazer download da imagem e usar como wallpaper. Aproveite a ocasião!
TCU bota o olho na Petrobras e mostra que, enquanto os amigos do rei (ou rainha) têm todas as regalias, a plebe (nós) paga os impostos e tem que cumprir a lei. 

Não bastasse o inferno astral que se abateu sobre o Planalto, depois da queda do avião de Eduardo Campos*, agora surge mais um torpedo a abater o ânimo do pessoal empregado no núcleo do poder federal. O TCU** parece ter detectado irregularidades em contratos da Petrobras. Segundo auditoria desse órgão de controle, pode ter havido “risco de favorecimento indevido” e “possibilidade de ingerência” em licitações. É que havia parentes de parentes envolvidos nos negócios e, é claro, ganhando os certames. Faturando na maciota, entendeu?  

Segundo o repórter Euclides Lucas Garcia, do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba (PR), o TCU analisou contratos da Petrobras com dez empresas durante o período de novembro de 2009, ainda no governo de Lula, e novembro de 2011, já nos tempos de dona Dilma, a presidenta. Como resultado, a auditoria apontou que há indícios de que tenha havido o desrespeito ao contido no Decreto 7.203/2010, aquele que veta sumariamente que a administração federal contrate empresas cujo administrador ou sócio seja parente até o terceiro grau de funcionários com cargo em comissão ou função de confiança no Poder Público. 

Parece que alguns espertos andam faturando o dinheiro que você e eu suamos para pagar ao Estado...

Um comentário feito acerca da matéria do jornal citado, de um cidadão chamado Irineu Q. Santos, é sintético e traça, em poucas palavras, uma definição precisa do que parece ocorrer: “Porque muitos partidos se dizem socialistas? Resposta simples: se tornam "sócios" das estatais e das estruturas governamentais, aos amigos do Rei, tudo. Para a plebe, impostos e a lei!”. 

Quer dinheiro fácil? Indique uma empresa de um parente e ganhe uma licitação

Pela matéria já citada, o TCU aponta que foram feitos 81 contratos com 25 empresas ligadas a parentes de pelo menos 19 servidores “públicos” (com interesses bem privados, aparentemente) da Petrobras. O total dos contratos passa de R$ 712 milhões. Além disso, 20 funcionários da estatal mantinham participação societária com mais de 10% da propriedade de empresas contratadas. Aí, então, se somam mais 31 contratos que envolvem aproximadamente R$ 20 milhões. 

A auditoria detectou, ainda, funcionários terceirizados fiscalizando empresas para as quais já haviam trabalhado e, mais: a fiscalização de serviços de engenharia estava sendo realizada por trabalhadores sem registro no Conselho de Arquitetura e Urbanismo.

Tem gente ultrajada com isso e eu creio que eu e você devemos ficar também. A expectativa é que o governo que assumirá em 2015 leve a sério a investigação acerca do que ocorreu nos últimos governos na Petrobras e que apoie e promova a auditoria da dívida pública. Se não fizer pelo menos isso, inevitavelmente cairá em descrédito e correrá o risco de confessar sua cumplicidade com os prováveis crimes cometidos. 

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Notas:

* Foi um acidente grave e atípico: matou duas candidaturas de uma só vez. A de Eduardo Campos e a de Aécio Neves. Pior: a terceira vítima encontra-se com ferimentos graves e, de barbada no primeiro turno, passou a azarão no segundo. 

** O TCU, cujo nome completo é Tribunal de Contas da União, tem a missão de controlar e auditar a movimentação financeira do Governo Federal. Fica de olho o tempo todo, ou deveria, em que e como o governo gasta, investe e, em alguns casos, desvia o dinheiro público. Esse tal dinheiro que é público, você sabe, é aquele que você, eu e todos os cidadãos residentes no país pagamos ao Estado brasileiro para que este nos ofereça serviços, para que dê sustentação aos que necessitam de ajuda para sobreviver e/ou viver, promova a saúde de todos, sem distinção e ofereça segurança e uma educação digna, pois que a educação, parece claro desde o tempo dos sofistas gregos, é a base de uma sociedade democrática. Há outras destinações que bem podem ser citadas, mas em boa parte dos casos, não redundam em benefícios para nós, cidadãos. 

Para ler a matéria que serviu de fonte a este texto, acesse http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml?tl=1&id=1495715&tit=Nepotismo-poe-sob-suspeita-contratos-da-Petrobras-de-R$-732-milhoes

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Marina desponta como favorita e anima eleição

Marina: de vice de Campos, um político
pouco conhecido, a candidata que desponta para a vitória
Os destroços do avião de Eduardo Campos ainda fumegavam quando eu disse a algumas pessoas próximas: “A faixa presidencial caiu repentinamente do céu e encaixou em Marina”. Uma dessas pessoas ponderou: “Ainda é cedo, ainda é cedo”. Sim, certamente era cedo, mas o sinistro ocorrido com o candidato Campos, do qual Marina era vice, prenunciava o que estava por vir: a ascensão quase irresistível de Marina na corrida presidencial. 

Dizem por aí que os tucanos já estão em clima de velório e a candidatura de Aécio Neves está deitada, de dedos entrelaçados, aguardando apenas o momento do juízo final. O pessoal do PT, por sua vez, tem esperanças e promete se lançar ferrenhamente à luta, mas tudo indica que também não estão muito animados. A esperança de alguns é que Lula aceite concorrer, mas corre à boca pequena que mesmo Lula teria sérias dificuldades para encarar Marina. A moça está surfando na onda eleitoral com tanta força que o desânimo é grande entre os concorrentes. 

Rejeição alta para Dilma

O pessoal petista tem um motivo extra para desanimar: segundo os entendidos, Dilma terá, no máximo, 40% dos votos válidos, o que significa que será muito difícil a reeleição da senhora presidenta. Com uma concorrente como Marina, então, é muito improvável. Dilma tem rejeição alta, algo em torno de 35% ou mais, quem sabe 40%. Ela e o PT, diga-se. Também, a senhora presidenta é mau humorada e transmite isso a quem a ouve. O partido também tem sua dose de responsabilidade na rejeição. Está há 12 anos no poder e ganhou muitos inimigos durante esse tempo. 

Dizem que Marina representa os anseios do pessoal que foi para as ruas em junho de 2013. É possível. Mas, creio que Marina tem como trunfo o fato de não ser nem PT, nem PSDB, pois o pessoal anda ressabiado por ter apenas a opção bipartidária. Esse bipartidarismo tosco gera, via-de-regra, um debate mais adequado a estádios de futebol e bares do que a palanques e debates políticos e costuma afastar o eleitor que não carrega bandeiras. Os militantes se assanham, mas o cidadão comum se entedia com as ofensas e xingamentos frequentes no embate PT X PSDB. Na prática, parece briga de compadre e a impressão que se tem é que ganhe um ou outro, nada mudará na essência. 

Com a presença da “terceira via” personificada em Marina, há uma perspectiva de mudança, ainda que seja bem possível que isso acabe, como em outras vezes, em decepção. 

Quadro favorável para Marina

Um ponto positivo para Marina é o fato de que foi do PT e saiu de lá atirando, discordando da política praticada pelo partido. Ganha pontos entre o pessoal que acreditou no PT, mas se transformou em crítico mordaz durante os últimos 12 anos. Assim como essas pessoas, Marina também não gosta mais do PT e quer ver o partido longe do poder. Isso facilita a identificação de um bom número de eleitores com ela. 

Nada está decidido, é claro, mas, ao observar a conjuntura, se vê de forma mais ou menos nítida que Dilma e Aécio terão muita dificuldade para reverter o quadro. Deve dar Marina, que certamente terá muitas dificuldades para governar por conta do poder petista acumulado nestes últimos anos e, é claro, também por conta da oposição tucana. Esse é talvez o maior desafio que terá. Com certeza, a maior dificuldade que se apresenta neste momento. Porque a eleição, embora ainda não definida, parece sorrir para a acreana e já não parece tão morna ou definida quanto parecia antes. 

Há gente ganhando entusiasmo com a candidatura da moça e, mesmo que se considere que todo entusiasmo arrefece em determinado momento, não sei se será suficiente para mudar o quadro que vai se formando e que é francamente favorável a Marina e desfavorável a Dilma. 

Já Aécio não parece ter mais chances. Parece fora, definitivamente, da disputa. 

"As Bolsas Plebiscito de Dilma e Marina", por Elio Gaspari

Publicado originalmente na Folha de São Paulo (link no final)

Marina Silva merece todos os aplausos. Anunciou em seu programa o que pretende fazer se for eleita. Ela quer criar uma "democracia de alta intensidade". 

O que é isso, não se sabe. Lendo-a vê-se que, sob o guarda chuva de uma expressão bonita –"democracia direta"–, deseja uma nova ordem constitucional.

Apontando mazelas do sistema eleitoral vigente, propõe outro, plebiscitário, com coisas assim: "Os instrumentos de participação –mecanismos de participação da democracia representativa, como plebiscitos e consultas populares, conselhos sociais ou de gestão de políticas públicas, orçamento democrático, conferências temáticas e de segmentos específicos– se destinam a melhorar a qualidade da democracia."
A proposta de encaminhamento plebiscitário de uma reforma política só não é bolivariana porque vem a ser um truque muito mais velho que a bagunça venezuelana. Em 1934, Benito Mussolini fez a reforma política dos sonhos dos comissariados
Marina parte da premissa de que "o atual modelo de democracia (está) em evidente crise". Falta provar que esteja em crise evidente uma democracia na qual elegeu-se senadora, foi ministra e, em poucas semanas, tornou-se virtual favorita numa eleição presidencial. Ela diz que nesse país em crise "a representação não se dá de forma equilibrada, excluindo grupos inteiros de cidadãos, como índigenas, negros, quilombolas e mulheres". Isso numa eleição que, hoje, as duas favoritas são mulheres, uma delas autodefinida como negra.

Marina quer "democratizar a democracia". O jogo de palavras é belo, mas é sempre bom lembrar que na noite de 13 de dezembro de 1968, quando os ministros do marechal Costa e Silva aprovaram a edição do Ato Institucional nº 5, a democracia foi a exaltada dezenove vezes. Deu numa ditadura de dez anos e dezoito dias. A candidata, com sua biografia, é produto da ordem democrática. Ela nunca a ofendeu, mas seu programa vê no Congresso um estorvo. Se o PT apresentasse um programa desses, a doutora Dilma seria crucificada de cabeça para baixo.

Marina não está sozinha com seu projeto de reestruturação plebiscitária. Durante o debate da Band, Aécio Neves criticou a proposta de Dilma de realizar uma reforma política por meio de um plebiscito, rotulando-a de "bolivariana", numa alusão às mudanças de Hugo Chávez na Venezuela. Ela respondeu o seguinte:

"Se plebiscitos forem instrumentos bolivarianos, então a Califórnia pratica o bolivarianismo".

Que todos os santos de Roma e D'África protejam a doutora. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Desde janeiro de 2010, a Califórnia fez 338 plebiscitos e aprovou 112 iniciativas. O mais famoso deles ocorreu em 1978 e tratava do congelamento do imposto sobre propriedades, associado à exigência de dois terços das assembleias estaduais para aprovar aumento de impostos. Tratava-se de responder "sim" ou "não". Deu 65% a 35% e atribui-se a esse episódio um dos maiores sinais do renascimento do conservadorismo americano (em 1980, Ronald Reagan foi eleito presidente dos Estados Unidos).

No Brasil já se realizaram três grandes plebiscitos. Em 1963 e 1993 o povo escolheu entre parlamentarismo e presidencialismo. Ganhou o presidencialismo. 

Em 2005, a urna perguntava: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?" O "não" teve 64% dos votos.

A sério, um plebiscito é simples: "Sim" ou Não"? "Parlamentarismo" ou "Presidencialismo"? Essa é uma prática da democracia direta porque é simples.

A proposta de encaminhamento plebiscitário de uma reforma política só não é bolivariana porque vem a ser um truque muito mais velho que a bagunça venezuelana. Em 1934, Benito Mussolini fez a reforma política dos sonhos dos comissariados. Os eleitores recebiam uma lista de nomes com a composição do Parlamento e podiam votar "sim" ou "não". Il Duce levou por 99,84% a 0,15%.

A República brasileira não está em crise, pelo contrário. Seus poderes Executivo e Legislativo serão renovados numa eleição em que Marina vê vícios profundos, ainda que não os veja na possibilidade de ser eleita. Sua proposta de reordenamento do Estado pode encarnar a vontade do eleitorado mas, na melhor das hipóteses, dá em nada. Na pior, em cesarismo plebiscitário.

http://rota2014.blogspot.com.br/2014/08/as-bolsas-plebiscito-de-dilma-e-marina.html 

PIB no fundo do poço: prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém

O Produto Interno Bruto, o PIB, é um índice que mede o valor de tudo o que o país produz, incluindo bens e serviços da indústria e do setor agropecuário. Ele permite avaliar com relativa precisão, embora genericamente, a atividade econômica e a riqueza de uma localidade ou de todo um país. Se há produção, há geração de riqueza, que tende a ser distribuída (não necessariamente de forma justa) e, assim, incremento dos investimentos, do consumo e das transações econômicas de modo geral. 

No caso brasileiro, neste momento, o PIB indica que podemos estar entrando em uma recessão, pois está caindo repetidamente neste ano. O termo “recessão”, é bom lembrar, significa retração da atividade econômica, ou seja, queda na produção, que repercute na redução dos investimentos, do consumo e das transações econômicas de modo geral. Em outros termos, é melhor abrir o olho porque o bicho pode pegar mais cedo do que se espera. 

Uma sociedade que foca o seu sistema econômico na circulação de crédito a partir do consumo corre sérios riscos quando ocorre uma recessão. Isso porque as operações de crédito se caracterizam por certo nível de “alavancagem financeira”, ou seja, uma interdependência entre os agentes econômicos por meio do endividamento. 

Dívidas e mais dívidas

O sistema de crédito não é mais do que um sistema que funciona sobre o endividamento, gerando dívidas e dívidas e quantas mais dívidas se puder gerar. Nessa perspectiva, o devedor precisa pagar para que o credor fature, isso sem contar nos intermediários costumeiramente presentes na transação, como as instituições que administram os cartões de crédito. Se o devedor não pagar, nem o credor, nem o intermediário recebem. Assim, não há lucratividade e, pelo contrário, há prejuízo, se for levado em conta o valor pago pelo credor pelo produto repassado ou pelo custo do serviço prestado. 
Uma sociedade que foca o seu sistema econômico na circulação de crédito a partir do consumo corre sérios riscos quando ocorre uma recessão. Isso porque as operações de crédito se caracterizam por certo nível de “alavancagem financeira”, ou seja, uma interdependência entre os agentes econômicos por meio do endividamento
Em uma recessão, inevitavelmente há mais riscos de calote nos pagamentos resultantes das operações de crédito, por dois motivos possíveis: em primeiro lugar, por incapacidade de cumprir os compromissos financeiros assumidos por falta de recursos; em segundo, a assunção de dívidas em níveis muito acima da capacidade de pagamento, quanto há recursos, mas não suficientes para cumprir os compromissos. Em ambos os casos, a situação é grave tanto para o devedor quanto para o credor. 

Alavancagem financeira

O que se quer dizer é que no sistema de crédito, estão amarrados no mesmo poste o devedor e o credor, sendo que este depende daquele. Se muitos devedores não pagam, os credores, no sistema de alavancagem financeira, também não pagam suas dívidas e os credores dos credores fazem o mesmo. Quando os credores dos credores dos credores e seus credores não pagam suas dívidas, ocorre algo semelhante ao que ocorreu em outros momentos da história, mas que teve no ano de 1929 o seu marco histórico provavelmente de maior gravidade relativa, pois foi a primeira grande e grave crise do capitalismo. Ocorre a quebra do sistema e a consequente depressão num processo que, para ser bem entendido, pode ser visualizado no "efeito dominó", vide imagem ilustrativa. 

Tenho lido textos de vários analistas econômicos. Alguns apostam na tragédia, claramente, mas não o parecem fazer com leviandade. Os números andam apontando o pior, embora ainda não se possa garantir com certeza que o pior realmente virá. 

Há os que tentam vender produtos que garantem um know how especial e específico para situações de crise, falam em confisco de salários e poupanças e apontam um projeto de um deputado piauiense, ligado ao partido do governo, o PT, que está no Congresso Nacional há muito tempo, aparentemente sem ser votado ou arquivado. 

Observando o projeto, bem se percebe que, no melhor espírito bolivariano, o tal parlamentar petista tenta definir a criação de uma “poupança fraterna”, com o confisco de salários e poupanças, no mesmo molde praticado durante o governo Collor de Mello. É claro que há uma grande probabilidade desse projeto não passar de uma fantasia delirante de um indivíduo supostamente socialista, mas nunca se sabe o que pode vir. Quando Collor de Mello levou a eleição de 1989 se poderia esperar de tudo, ou quase tudo, menos o que efetivamente aconteceu com o confisco. É dessas incertezas que se alimenta o medo e é quando se sente medo que se cometem mais desatinos. 

Atenção redobrada

Embora sem pânico, o momento é de alerta, até porque o país tem sua economia fraturada por uma dívida pública que consome quase metade do que se arrecada. Logo, se a produção cai do jeito que cai, com a obrigação da manutenção mensal de um superávit primário capaz de sustentar o pagamento dessa dívida pública, cairão drasticamente os investimentos estatais, além dos privados, bem como, assim, a atividade econômica de modo geral. O Brasil parece ser um país que ainda depende muito dos cofres públicos para funcionar. Se levarmos em conta a situação parasitária característica de parte significativa do empresariado, que parece agir como sanguessuga em relação ao erário, a coisa parece ainda mais séria e mesmo grave. 

Não creio em tragédias, embora saiba que elas existem e podem ocorrer a qualquer momento. “Não há nada tão ruim que não possa piorar”, me disse uma vez um amigo. Não é o caso de desespero, ainda. Mas... 

Prudência e canja de galinha não costumam fazer mal a ninguém. PIB baixo não é um bom sinal, ainda mais numa economia alavancada financeiramente. Não se trata de otimismo ou pessimismo, mas a consciência de que há algo para além dos discursos e que a realidade existe e é preciso lidar com ela.