quinta-feira, 14 de agosto de 2014

"Três caminhos diante de Marina Silva", por Antonio Martins

Um texto oportuno de Antonio Martins, do Outras Palavras. Tudo pode ter mudado com a morte de Campos. Por um trágico capricho do destino, há quem diga que a faixa da Presidência da República pode ter, repentinamente, caído no colo de Marina Silva. Cabe, agora, a busca de informação e o incentivo à reflexão. 

Boa leitura. 

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Três caminhos diante de Marina Silva

Por Antonio Martins – 13/08/2014

Incendiar as eleições? Enquadrar-se às alianças conservadoras? Adiar aposta para 2018? Próximos dias revelarão muito sobre uma política contraditória e um sistema em crise

A morte trágica de Eduardo Campos, a apenas 50 dias das eleições de 3 de outubro, deixa em aberto a disputa pela presidência do Brasil. Volta todas as atenções, num primeiro momento, para Marina Silva, a vice de Eduardo que optou por não concorrer ao Palácio do Planalto há dez meses, quando trocou o posto promissor de segunda colocada nas pesquisas por um projeto de médio prazo – o de construir sua Rede ao abrigo do PSB.

O falecimento de Eduardo frustra este projeto. Obriga a ex-professora secundária a se expor ao eleitorado antes de constituir uma base sólida – e após o desgaste que sofreu perante parte da militância, decepcionada em face de sua escolha pragmática e moderada. Como não há vida para trás, Marina está agora diante de uma oportunidade e uma angústia imensas. Só não disputará a Presidência se não o desejar — porque alijá-la seria desmoralizante para quem o fizesse. Mas que postura assumir, como postulante ao poder? Há três cenários básicos – e uma vasta combinação de possibilidades intermediárias. Vale sondá-los.

Na primeira hipótese, Marina reencarna a condição de candidata anti-establishment, com a qual deixou o ministério do Meio-Ambiente no governo Lula, disputou a presidência em 2010 e angariou uma legião de apoios, em especial entre a juventude desacreditada do sistema político. Ela parte de um patamar importante, caso deseje sustentar esta postura. Nas últimas pesquisas em que foi apresentada aos eleitores, no início de abril, mantinha-se em segundo lugar na corrida ao Planalto, com 27% das preferências – doze pontos acima de Aécio Neves. Além disso, estava em ascensão.

Assumir esta postura radical até outubro reconciliaria a candidata com seus apoiadores históricos. Permitiria-lhe, além disso, eletrizar uma eleição até agora morna, do ponto de vista do debate programático. Ao enfrentar o sistema político tradicional e suas contradições, a acreana seria certamente abandonada e hostilizada – pela mídia, pelos financiadores de campanha, por ao menos alguns de seus atuais correligionários e aliados. Precisaria contar, essencialmente, com sua capacidade de comunicação, carisma e mobilização. Seria obrigada a provocar debate sobre grandes temas nacionais. Em certa medida, obrigaria tanto Dilma quanto Aécio a fazer o mesmo.

Mas se depararia com suas próprias contradições. Como manter tal atitude, por exemplo, diante do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin – um aliado que ela não escolheu, mas aceitou? Como conciliá-la com o conservadorismo do eleitorado evangélico e seus “pastores”?

O segundo cenário é oposto ao primeiro e expõe outra face da candidata. Nesta hipótese, Marina opta por um casamento com, digamos, o lado obscuro de sua força. Nele entram não apenas o governador de São Paulo e os bispos intolerantes, mas também os economistas francamente neoliberais de que a ex-ministra se cercou, ainda antes de se aliar a Eduardo Campos. Por este caminho, ela utiliza sua fortíssima base de votos para apresentar-se, para todos os efeitos, como “grande esperança branca” contra Dilma. Atrairá muito apoio financeiro e será querida pela mídia.

Mas enfrentará grandes obstáculos e riscos – embora de outra natureza. Como convencer os antigos “marineiros”? Esperando que não se deem conta da mudança, durante campanha tão curta? Como reagiria o PT? Desafiado, não tenderia ele próprio a politizar a disputa, para manter seu eleitorado tradicional? Que representaria, para Marina, a hipótese de perder as eleições, mesmo concedendo tanto? Seria possível manter o capital político, após tal desconstrução de projeto e imagem?

O terceiro cenário é o mais imobilista. Nele, Marina assume a candidatura para ganhar tempo e “guardar lugar” – focada não em 3 de outubro, mas em 2018. Mantém-se nos próximos 50 dias como uma espécie de vice. Renuncia ao papel de protagonista. Acalenta o projeto de priorizar a construção da Rede, após as eleições. Ao invés de incendiá-las, contribuiu para o banho-maria.

Porém até esta hipótese conservadora guarda riscos. Como os seguidores da candidata, de um e de outro lado do espectro político, o interpretarão? Como esforço válido para ganhar tempo? Ou hesitação e recuo, diante de oportunidade histórica?

* * *

Os dilemas de Marina serão decisivos para sua trajetória pessoal. Mas lançam luz sobre algo muito mais importante: o declínio dos sistemas políticos atuais, da democracia de “baixa intensidade” que ainda não fomos capazes de superar.

Como aceitar que o debate permaneça tão pobre, limitado e dependente de escolhas individuais, numa época em que se abrem tantas oportunidades de diálogo direto entre os cidadãos? Por que assistimos, em todo o mundo, ao igualamento progressivo dos partidos, à captura da política pelo poder econômico – e não somos capazes, ainda, de apresentar alternativas?

Será ótimo se pudermos, além de assistir à luta de Marina ante seus impasses, caminhar alguns passos para superar os nossos.

http://outraspalavras.net/brasil/tres-caminhos-diante-de-marina-silva/ 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"O poder e a finança internacional", por José Luís Fiori

Segue texto didático para entender a origem do "poder financeiro". 

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O poder e a finança internacional

12 de agosto de 2014 - José Luís Fiori

"Enquanto se mantiver a centralidade internacional da moeda norte-americana, e dos mercados financeiros dos EUA e da Inglaterra, as finanças dos dois países seguirão operando como instrumentos fundamentais da reprodução e expansão do poder global e da hegemonia econômica das duas potencias anglo-saxônicos", escreve José Luís Fiori, em artigo publicado por Carta Maior, 10-08-2014.

A decisão norte-americana de romper com o acordo de Bretton Woods, e de desregular seus mercados financeiros, tomada na década de 70, junto com a Inglaterra, provocou um efeito em cadeia, nos demais mercados do mundo capitalista, desencadeando um intenso processo de liberalização e globalização financeira, e uma enorme concentração da riqueza líquida mundial, nas mãos dos bancos e instituições afins. Este processo de “financeirização” da riqueza capitalista se repetiu em todos os níveis e em todos os mercados nacionais, promovendo uma forte convergência dos interesses da finança em todo mundo. Mas esta convergência não homogenizou o poder dos bancos e dos mercados, nem mudou a natureza hierárquica e competitiva do sistema monetário e financeiro internacional.

Os bancos centrais e as grandes instituições financeiras privadas que lideraram este processo e que detêm um poder real de coerção sobre a politica econômica dos estados nacionais têm nome e sobrenome anglo-saxão, e tem sua riqueza nominada - em última instância - na moeda emitida pelos seus dois estados nacionais, ou seja, a Libra e o Dólar. O crescimento acelerado e aparentemente anônimo destes bancos e destes mercados financeiros obscurece muitas vezes o fato de que: 

- não existe poder financeiro que não esteja referido a alguma moeda nacional, e que não esteja submetido em última instancia ao poder do estado emissor desta moeda; 

- não existem moedas, bancos ou mercados globais, o que existe são moedas e bancos nacionais com poder de circulação e arbitragem supranacional;

- estas moedas de referencia regional ou internacional nunca foram apenas uma escolha do mercado, e sempre envolveram uma prolongada luta e competição entre os estados e suas moedas nacionais, pela conquista e dominação de territórios econômicos supranacionais cada vez mais amplos; 

- é parte do poder dos bancos, agências e instituições financeiras associadas  as moedas vencedoras, impor aos estados e moedas menos poderosos, as regras e condutas compatíveis com o aumento do seu próprio poder, transferindo os custos de seus ajustes internos para sua periferia monetário-financeira. 

Por razões diferentes, vários autores liberais e marxistas costumam sublinhar a grande autonomia contemporânea do capital financeiro e a sua capacidade de submeter os estados nacionais e suas políticas econômicas. Como se existisse um “capital financeiro em geral”, e também existisse uma relação idêntica e homogênea entre este capital e os estados nacionais “em geral”. Quando na verdade se trata de uma relação diferenciada e hierarquizada, como sempre foi através de toda a história do sistema da finança e da economia capitalista.  Uma história que começou por volta do século XIV, com o poder  dos “príncipes” de  impor aos seus súditos o valor dos tributos a serem pagos e o valor da moeda com que deveriam pagá-los, e que também serviam como referencia para todas as demais moedas e títulos utilizados nos mercados que começaram a se expandir nesta época à sombra das conquistas territoriais dos “príncipes” que cunhavam as moedas . Esta relação inicial entre tributos, moedas e trocas, aumentou de intensidade com a expansão das guerras e a necessidade dos príncipes recorrerem ao endividamento junto aos seus comerciantes-banqueiros, num mercado cada vez mais extenso de títulos e moedas onde nasce o primeiro embrião do capital financeiro, na  “senhoriagem” das moedas e dos títulos dos poderes ganhadores. 

Esta história deu um passo gigantesco e um salto qualitativo, nos séculos XVII e XVIII, com a consolidação do poder dos primeiros estados nacionais europeus, e com a “revolução financeira” provocada pela administração e pela negociação das suas “dívidas de guerra”, que estão na origem do capital financeiro moderno, e do próprio capitalismo europeu. Esta revolução começou na Holanda, no século XVII e se completou na Inglaterra, no século XVIII. Os dois países centralizaram seus sistemas de tributação e criaram bancos públicos responsáveis pela administração conjunta, da dívida soberana, na forma de bônus do estado, e da dívida privada, na forma de letras de cambio, que se transformam na base de um sistema de credito cada vez mais elástico, criativo e diversificado, mas sempre referido, em última instancia, à moeda de conta nacional. E não há duvida que a fusão entre esta nova finança holandesa e inglesa, a partir de 1689, teve um papel decisivo no fortalecimento e na vitória colonial da Inglaterra, e na projeção internacional da moeda inglesa, a Libra, que foi hegemônica em todo o mundo até sua “quase-fusão’ com o Dólar norte-americano, durante o século XX. Numa espécie de sucessão “hereditária”, que partiu da Holanda e da Inglaterra, e se prolongou nos Estados Unidos, mantendo a supremacia monetário-financeira anglo-saxônica, inquestionável durante os quatro séculos de história deste capitalismo moderno. 

Resumindo: dentro do sistema interestatal capitalista só existiram até hoje, de fato, duas moedas de referencia global: a Libra e o Dólar – uma vez que o Florim, a moeda holandesa, jamais teve a dimensão de uma moeda de circulação internacional - e as duas tiveram e seguem tendo um papel decisivo  na construção e na reprodução do poder  global e associado das duas grandes potencias anglo-saxônicas. Mas nenhuma das duas – nem a Libra nem o Dólar - se transformou em moeda de referência da noite para o dia. Pelo contrário, a Libra só se generalizou como uma moeda de referencia dentro e fora da Europa, a partir de 1870, quase dois séculos depois do início da escalada do poder da Inglaterra dentro e fora da Europa. E o Dólar só se transformou numa moeda de referência internacional depois da II Guerra Mundial, mais de um século depois do início da escalada internacional do poder americano. 

Durante o período em que estas duas “moedas internacionais” tiveram uma base fictícia de referência metálica, a Libra e o Dólar tiveram de fato, uma restrição financeira intransponível, imposta pela necessidade de equilíbrio do Balanço de Pagamentos do país emissor da moeda de referência. Mas depois do fim do Sistema de Bretton Woods, em 1973, esta restrição desapareceu, com o novo sistema monetário internacional “dólar-flexível” que não tem nenhum tipo de padrão metálico de referencia.

Por isto, se costuma dizer que ocorreu uma “revolução financeira” na década de 1980, mas esta revolução provocou de fato um retorno às origens da relação entre o poder, a moeda e o crédito. Os EUA voltaram a definir, de forma soberana e isolada - com base apenas no seu poder - o valor da sua moeda e dos seus títulos da dívida pública que se transformaram numa referencia de circulação e liquidez internacional quase automática. E a mais recente “financeirização do capitalismo” cumpriu um papel decisivo na gigantesca acumulação de poder do estado norte-americano, das duas últimas décadas do século XX. 

Concluindo: enquanto se mantiver a centralidade internacional da moeda norte-americana, e dos mercados financeiros dos EUA e da Inglaterra, as finanças dos dois países seguirão operando como instrumentos fundamentais da reprodução e expansão do poder global e da hegemonia econômica das duas potencias anglo-saxônicos.

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/O-poder-e-a-financa-internacional/7/31587 
http://blogdeumsem-mdia.blogspot.com.br/2014/08/economia-o-poder-e-financa-internacional.html 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

"UPPs: uma estranha forma de mediar conflitos", por Gabriel Bayarri


Um agente pacificador em ação
O mundo político brasileiro parece feito, em grande parte, por pessoas que creem as outras meros debiloides, imbecis ou coisa que o valha. Só assim é possível tentar entender a quantidade de asneiras que os tais "homens públicos" (mas, não são apenas homens, infelizmente) nos dizem e o volume de dinheiro que gastam com inutilidades absolutas, que, ao contrário de resolver alguns problemas, não raro os agravam e/ou criam outros maiores ainda. Assim são as tais Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, implantadas nas comunidades pobres no Rio de Janeiro (costumeiramente chamadas de "favelas", um termo inicialmente pejorativo que com o tempo ganhou até mesmo glamour). 

A primeira coisa que se pensa é se polícia pode ser, em alguma situação, pacificadora, ainda mais sendo uma polícia militarizada, fruto de um tempo colonial no qual a mentalidade do colonizador era domar os impulsos dos colonizados na base do soco, pontapé e do tiro (pois os colonizados eram compreendidos como claramente burros e inferiores em tudo, claro). Parece que, observando a realidade, uma polícia que é militar não pode ser, de maneira nenhuma, pacificadora pois a função precípua de um exército é matar, não pacificar. Isso pode até mudar, mas não agora, não assim, tão magicamente. 

É possível imaginar que possa haver um agente público com autoridade de polícia que possa até mesmo pacificar, sendo por vezes duro, mas em outras vezes doce, sempre justo, ou tentando sê-lo. No entanto, uma instituição que tem, no seu bojo, um grupo "de elite" que canta em seu refrão favorito que vai entrar na favela e "deixar corpo no chão" não tem qualquer condição de pacificar nada, a não ser na porrada e pacificação sob porrada é dominação. 

Aliás, contam por aí, na imprensa e também em conversas murmurantes, que internamente, na polícia militarizada, o pau "pacifica" solto e ninguém vê aqui fora. Há vídeos que vazaram de "treinamentos" que, sem qualquer dúvida, são efetivamente torturas desumanas. Não creio que isso seja uma regra, mas também não duvido. Sendo verdade, o que se pode esperar dessa polícia é a crueldade e a arrogância e são as grosserias e violências diversas, não raro gratuitas, que têm atestado as ações desse grupo de homens e mulheres fardados, que muitos chegam a chamar de "bandidos de farda". 

Segue texto que traz questionamento sobre a efetividade dessa suposta estratégia de segurança pública. Questionamento concernente e de conclusão óbvia, acerca do quanto essa conversa de UPP serve para fazer a cama de alguns políticos e para, em alguns casos, introduzir nessas comunidades um novo poder, tão violento e corrupto quanto o anterior, sendo em alguns casos muito pior. 

Cabe citar que há indícios de que muitos agentes da polícia e do judiciário tentam utilizar as tais UPPs para algo útil, mas, esbarram nas limitações próprias do militarismo policial e mesmo em suas concepções acerca do que seja o ser humano, que geralmente não passam nem perto das favelas: o pobre, o preto, o humilde, o favelado, não é cidadão, não é humano e é tratado pelos "homens da lei" usualmente como um elo perdido com a estupidez animal, necessitando ser domado com rigor e mesmo exterminado, para servir de exemplo educativo para os demais. Esse pequeno monstro não parece ter nada de bom, a não ser uma docilidade sempre esperada, aquela que se espera da besta que leva uma surra e deve agradecer por isso. 

Não se pode fazer um omelete com cerejas, assim como não se pode pacificar com um exército que promete "deixar corpo no chão". Isso é ridículo. 

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Ele quer pacificar você
UPPs: uma estranha forma de mediar conflitos

Polícia e Justiça tentam levar, às favelas “pacificadas”, técnicas de mediação. Naufragam por enxergarem comunidade como inferior e por visão ultra-hierárquica de mundo

Por Gabriel Bayarri 

O Programa de Mediação em comunidades atendidas pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) é uma iniciativa destinada a capacitar os policiais integrantes dessas unidades para exercerem, com o uso de ferramentas próprias à técnica da mediação, o papel de mediadores dos conflitos de proximidade nas denominadas favelas cariocas.

A iniciativa faz parte de um acordo de cooperação, celebrado em 2011, entre o Tribunal da Justiça e a Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro. O propósito dos centros de mediação de conflitos diminuir a “judicialização” das controvérsias entre próximos, e diminuir o abismo que ainda separa, da sociedade, o Direito e os tribunais.
O ethos policial está orientado pela lógica do extermínio do conflito e o combate do inimigo, sendo que a resolução de conflitos possui, de acordo com os princípios nativos, um lugar periférico à atuação policial. Conflitos entre vizinhos, parentes, etc. são concebidos pelos policias como “feijoadas”, vistas como desimportantes diante dos “conflitos” concebidos como legítimos (como o combate ao tráfico)
Nos processos de mediação, as partes implicadas são as responsáveis por alcançar um acordo. O serviço que as UPPs oferecem tem sido constituído, em sua origem, sob as técnicas de uma mediação direta, em que as relações humanas e os conflitos não são vistos de forma isolada. Busca-se a justiça por meio de “soluções razoáveis”, construídas sob a lógica da interação como forma de estabelecer sistemas de valores que ajudam no manejo e resolução dos conflitos.

Porém, após a pacificação existe um primeiro “choque de ordem” – ou seja, uma adaptação às regras, direitos e deveres, entre o favelado e a representação do Estado na favela (ou seja, a Polícia Militar). Este processo pode alterar a parcialidade dos processos de mediação. A condição do favelado como cidadão, acostumado a ser guiado por uma lógica tutelar e a receber seus direitos como concessões, converte-o num indivíduo vulnerável diante possíveis arbitragens. Por outro lado, o fato de a polícia ser vista como representação do Estado outorga-se um comportamento tutelar que questiona a eficácia dos mecanismos de mediação imparcial.

Além disso, a hierarquia militar estrita leva a uma negação de autonomia no desempenho do trabalho. A conduta do policial na mediação dos conflitos não será medida pela sua criatividade na condução de negociações bem sucedidas, mas pelo grau de obediência a ordens superiores1. Assim, a preocupação do mediador policial ficará atrofiada ao cumprimento das regras, deixando relegadas a um segundo plano as regras de caráter moral. É o que o sociólogo canadense Erving Goffman denomina “mercador de moralidade”2.

Nas mediações, muitos problemas surgem da ausência de conhecimento de regras “do asfalto”, do não-favelado. E a polícia, como diria o filósofo alemão Friedrich Hegel, está ainda conhecendo o “bem vivente que protege”3, pelo que espera um comportamento de “pessoa de asfalto”, atuando também como educadora, psicóloga ou advogada. O fato de o Estado só estar presente na favela no âmbito da segurança traz como consequência a hipertrofia do papel da polícia, tendo que se apropriar de distintas funções, entre elas o ofício da mediação.
Além disso, a hierarquia militar estrita leva a uma negação de autonomia no desempenho do trabalho. A conduta do policial na mediação dos conflitos não será medida pela sua criatividade na condução de negociações bem sucedidas, mas pelo grau de obediência a ordens superiores
A aparição dos conflitos não deveria ser avaliada necessariamente como um fenômeno negativo: eles mostram que existem interesses incompatíveis, fator fundamental para desenvolver os mecanismos de acompanhamento nas mudanças sociais. No estudo da cosmologia do conflito, este deve ser problematizado através das formas em que é resolvido, da possível arbitrariedade latente em sua resolução, e de sua resolução pacífica. Não obstante, o conflito é um componente de interação humana necessário e o seu surgimento deveria ser entendido, no contexto da pacificação, como forma de liberdade, de acesso do cidadão à liberdade de expressão. No âmbito desta liberdade, surgem necessariamente as diferentes opiniões como princípio do conflito: surge o desacordo4.

Porém, o ethos policial está orientado pela lógica do extermínio do conflito e o combate do inimigo, sendo que a resolução de conflitos possui, de acordo com os princípios nativos, um lugar periférico à atuação policial. Conflitos entre vizinhos, parentes, etc. são concebidos pelos policias como “feijoadas”, vistas como desimportantes diante dos “conflitos” concebidos como legítimos (como o combate ao tráfico).

Interessa, portanto, continuar refletindo sobre o modo como os policiais apropriam-se, ressignificam e reinterpretam o princípio da “mediação” no tratamento dos conflitos de proximidade nas favelas “pacificadas”.



Referências:

1 KANT DE LIMA, Roberto. (2003), “Direitos Civis, Estado de Direito e “Cultura Policial”: a formação policial em questão”. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais, nº 41. São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, jan-mar, p. 241-256

2 GOFFMAN, Erving. La mise en scene de la vie quotidienne. Paris: Ed. Minuit, 1973. 251p. (Les sens commun). Titulo original: Presentation of self in everyday lifeConteúdo. V.1: la presentation de soiConteúdo. V.2: les relations en public.

3 HEGEL, Friedrich. Principios da Filosofia do Direito. Ed. Martins Fontes. 2003

4 LUCI DE OLIVEIRA, Fabiana. UPPs, direitos e justiça. Um estudo de caso das favelas do Vidigal e do Cantagalo. Ed. FGV. 2012

http://outraspalavras.net/brasil/upps-uma-estranha-forma-de-mediar-conflitos/ 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A linguagem politicamente correta é o idioma falado no inferno

Leio no Facebook postagem de um amigo que dá conta do seguinte: a expressão “taca-lhe pau”, que está sendo usada no Paraná pelos simpatizantes do candidato a governador Roberto Requião (taca-lhe pau, Requião!) é considerada machista por alguns (ou algumas).

Bem, a princípio, o uso do termo "expressão machista" parece coisa dos "politicamente corretos", os mesmos que denominam o feio como "cosmeticamente alternativo" e o careca como "Indivíduo desprovido de capilaridade em sua superfície superior" ou, pior, chamam o popular doce chamado "nega maluca" de "mulher de descendência afro-brasileira com distúrbio de comportamento" (que sabor terá isso?). 

Além disso, parece haver uma contradição anatômico/morfológica na suposta expressão na "versão feminista" de tacar o "pau". Pela identidade fálica entre um porrete e o pênis, é compreensível, por motivos um tanto lógicos e óbvios equiparar analogicamente um a outro. No entanto, dar uma bucetada (ou bocetada, ou xoxotada, ou vaginada, ou algo que o valha) não faz qualquer sentido.

A expressão não é exatamente machista, mas de referência masculina, o que é muito diferente. Dizer que é machista (que me perdoem os que dizem assim) é mera burrice ou ignorância do que seja "ser machista".

Machismo é, literalmente, como qualquer dicionário pode elucidar, algo como a crença de que os homens, os “machos” são superiores às mulheres, as “fêmeas”; o inverso disso, com os mesmos defeitos, é o "feminismo", aparentemente tão burro quanto.

O politicamente correto é uma forma de origem fascista de reformulação do vocabulário, uma espécie de “Novilíngua”, aquele idioma “em transformação” do livro 1984, de George Orwell, feito para controlar o pensamento: se você não pode se referir a algo, se não tem palavras para tal, a ideia é que isso passe e não existir, assim como a criação de uma palavra pode fazer algo existir do nada, magicamente.

O objetivo parece ser retirar da pessoa comum a autonomia sobre os conceitos, termos e nomes que utiliza para se expressar. É um dos melhores exemplos das intervenções autoritárias de controle subjetivo que agem como se estivessem fundamentadas pelas melhores intenções do mundo. Coisas assim acabam por comprovar que deve realmente ser verdade que o inferno está cheio de boas intenções. No reino de Satã, certamente há um guia do politicamente correto em cada esquina. 


Assim, taca-lhe pau, burrice! - ou, na versão politicamente correta, “Agrida-o(-a) com um objeto fálico, inteligência alternativa!”.

PS: Taca-lhe pau, Requião!, com machismo ou não, que ninguém aguenta mais o Richinha no governo!!!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Maçãs podres do mesmo barril

PT e PSDB são maçãs podres do mesmo barril. As doações dos empreiteiros indicam isso e, embora a maçã petista pareça um pouco mais podre segundo esse critério, não se pode esquecer que uma maçã menos podre é, ainda, uma maçã podre. 

Segue um quiz básico sobre a política brasileira contemporânea, muito útil para você que vai às urnas:

Para que partido os grupos Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e OAS doaram, juntos, R$ 158,6 millhões, de 2002 a 2012? 

Uma dica: esse partido ocupa o poder desde 2002 e, tudo indica, tem enriquecido mais a alguns ricos do que tirado os tais miseráveis da miséria (embora a propaganda oficial omita isso). 

Outra dica: diz que pagou a dívida externa, mas a quadruplicou ao a transformar em interna. 

Dica legal: as letras da sigla do partido são o P e o T e esse partido se define como "dos trabalhadores" embora, na prática, sirva a grandes empresários (como os empreiteiros doadores) e a banqueiros. 

E para que partido os mesmos grupos doaram R$ 106 milhões, no mesmo período? 

Uma dica: é o partido do candidato que está cotado para disputar o segundo turno com a candidata do partido queridinho das empreiteiras. 

Outra dica: foi o partido que governou antes do partido que governa hoje e sua política econômica foi a inspiração do atual partido que está no poder, uma política econômica de concentração de renda e saque ao assalariado. 

Se ainda estiver difícil, vai mais uma dica: esse partido tem quatro letras na sua sigla: começa com o P e termina com o B, sendo que as letras "do meio" são o S e o D... 

E não esqueça: nesta eleição de 2014, as opções equivalem a morrer queimado ou morrer afogado. Ganhe quem ganhar, tudo deverá ficar como dantes no quartel de Abrantes. 

E o brasileiro acha que elege presidente...

Mas, não se iluda, não se estresse excessivamente. Pense que, em 2002, ano da eleição de Lula, Soros, o megaespeculador, sujeito esperto que circula com mestria no mundo dos bandidos financeiros, disse, para quem quisesse ouvir: "O brasileiro acredita piamente que escolhe o próprio presidente". 

Efetivamente, Lula se elegeu e as quadrilhas financeiras nunca ganharam tanto com o Brasil...

Há quem diga que a fala de Soros foi entremeada por gargalhadas e pelas convulsões abdominais características de quem acha muita graça em algo. 

Realmente, para Soros deve ser muito engraçada essa crença bizarra dos brasileiros e de outros povos. Para os brasileiros, porém, creio que é algo trágico. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

"Palestinos. Impessoas. Livres!", por Noam Chomsky

O tema do texto é oportuno no momento em que Israel promove outra chacina na Palestina. E é mais oportuno ainda pela temática, a do desprezo total e absoluto por seres humanos, pessoas como nós, gente com carne, pele, ossos, sentimentos e emoções, como você e eu. 

Aqui do nosso lado, não é diferente a situação. Parece haver uma matriz subjetiva que dita à maior parte de nós que existe "gente inexistente", as "impessoas" que Chomsky refere. 

O mais trágico é que boa parte dos que pensam e sentem assim se professa cristã. De cristãos assim o inferno parece estar cheio. 

Para mim, há uma verdade, que é dura e cruel, porém irrefutável: quem não sente qualquer simpatia ou empatia pelos que sofrem, não merece viver. Pior ainda quando se esconde atrás da Bíblia. 

Para completar, temos, notadamente no Rio de Janeiro, indícios de que o Estado Policial está mais forte do que nunca e que, como seria de se esperar, manipula a realidade de acordo com seus interesses carniceiros... 

Se já havia, no mesmo lugar, a excrescência de uma "polícia" que canta, pelas ruas, que sua missão é "entrar na favela e deixar corpo no chão", agora podemos ver que a situação é mais terrível do que se podia imaginar. 

Luís Eduardo Magalhães chama a essa tal polícia de "bandidos fardados" e diz que se o poder judiciário usasse dos mesmos critérios que usa para atingir manifestantes, tanto o governador quanto inúmeras outras autoridades já estariam atrás das grades. 

A nota lamentável é que o time que ocupa o Governo Federal se cala e isso fica muito feio para gente que se criou com o selo da luta contra o autoritarismo e a repressão. Não apenas se cala, como parece apoiar veladamente o terrorismo estatal. Isso cheira a traição e todos sabemos que o traidor não pode ser tolerado em hipótese alguma. No Código Militar, por exemplo, a pena é dura e capital. 

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Palestinos. Impessoas. Livres!

Por Noam Chomsky - 20/10/2011 - Depoimento a Amy Goodman, do Democracy Now | Tradução: Antonio Martins

Ao analisar troca de prisioneiros Hamas-Israel, Noam Chomsky sustenta: elites ocidentais e mídia tratam 3/5 do planeta como sub-humanos 

Noam Chomsky, professor emérito do Massachussets Institute of Technology (MIT), linguista mundialmente renomado e ativista politico, falou segunda-feira (17/10) à noite no Barnard College, em Nova York, sobre o conflito entre Israel e Palestina. Poucas horas antes, as duas partes haviam completado uma troca histórica de prisioneiros. O soldado israelense Gilad Shalit voltou para casa, depois de cinco anos no cativeiro em Gaza. Em contrapartida, Israel libertou 477 prisioneiros palestinos. Outros 550 estarão livres em dois meses. Quarenta dos prisioneiros serão deportados para Síria, Qatar, Turquia e Jordânia. Na terça-feira (18/10), houve celebração gigantesca em Gaza (foto). Grupos de apoio aos palestinos aprisionados frisam que mais de 4 mil permanecem no cárcere em Israel. 

Horas antes de sua conferência, Chomsky foi entrevistado por Amy Goodman, do site “Democracy Now”. “Penso que o soldado israelense Gilad Shalit deveria ter sido libertado muito tempo atrás”, disse ele. Mas provocou: “Falta algo nesta história. Não há imagens das mulheres palestinas e nenhuma discussão sobre a história dos palestinos libertados. De onde eles vêm?”
Alguns lembrarão – se tiverem boa memória – que havia um conceito jurídico anglo-saxão chamado “presunção de inocência”. Todos éramos inocentes até prova em contrário em juízo. Ele está tão mergulhado na história que é quase impossível resgatá-lo – mas de fato, existiu. Alguns dos críticos ao assassinato lembraram a Quinta Emenda à Constituição norte-americana, segundo a qual nenhuma pessoa – “pessoa”, atentem – será privada da vida, liberdade ou propriedade sem o devido processo legal. Bem, é claro que nunca se pretendeu aplicar a emenda a impessoas.
Para explicar este ocultamento, Chomsky usou um neologismo poderoso e terrível: impessoas. A legislação dos Estados Unidos e da maior parte dos países ocidentais conserva princípios jurídicos democráticos. Porém, para ele, três décadas de retrocessos políticos e culturais reinstituíram uma forma ideológica de racismo que era comum no período da caça aos índios, ou da escravidão. É como se a parte não-branca da humanidade estivesse excluída dos das garantias civis, por ser sub-humana. Este retrocesso explicaria, por exemplo, a campanha de execuções praticada por Washington, em várias partes do mundo, por meio de aviões não-tripulados. E tornaria ainda mais indispensável a onda de rebeldia “contra políticos e banqueiros”, que se espalha precisamente nos países onde o retrocesso é mais grave. Ou mesmo vitórias parciais, como a libertação dos 477 prisioneiros palestinos e do soldado Gilad Shalit.

Leia, a seguir, a fala de Chomsky a “Democracy Now” – que inclui, quase ao final, curiosa menção ao Brasil….

"Quem atirou na Argentina?", por Mark Weisbrot

Quem manda no mundo? Parece que a Suprema Corte dos EUA respondeu claramente a essa pergunta. 

O texto abaixo faz importante denúncia acerca do posicionamento político do governo de Obama (empregadinho de Rockefeller, segundo se conta por aí), da Suprema Corte estadunidense e do Fundo Monetário Internacional (FMI). 

A vítima da vez? A Argentina. 

Enquanto os pobres diabos que roubam ninharias estão por trás das grades, os ricos diabos, que roubam fortunas gozam de férias no Caribe e adjacências. 

É a diferença entre o ladrão miserável e o ladrão milionário: aquele toma de você pouco, de uma vez só e com violência; este, toma muito, por muito tempo e suavemente. 

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Quem atirou na Argentina?

Mark Weisbrot - Tradução de Inês Castilho

Ao sabotar acordo entre país e seus credores, e favorecer fundos-abutres, Suprema Corte dos EUA arrisca-se a incendiar relações financeiras internacionais

Quando Cristina Kirchner concorreu à presidência da Argentina pela primeira vez, em 2007, havia um anúncio de campanha em que crianças pequenas respondiam à pergunta: “O que é FMI (Fundo Monetário Internacional)?” Elas davam respostas engraçadinhas e ridículas, tais como “FMI é um lugar com muitos animais”. O narrador, então, dizia: “Conseguimos fazer com que seus filhos e netos não saibam o que significa FMI.”

Até hoje, não há nenhum caso de amor entre o FMI e a Argentina. O Fundo articulou o terrível colapso econômico de 1998-2002 no país, bem como numerosas políticas fracassadas nos anos anteriores. Mas quando a Corte de Apelações para o Segundo Circuito dos EUA decidiu em favor dos fundos-abutres, que tentam receber o valor integral da dívida argentina, que compraram por 20 centavos o dólar, até mesmo o FMI foi contra.

De modo que muitos observadores surpreenderam-se, na segunda-feira passada (23/6), quando a Corte Suprema dos EUA recusou-se até mesmo a rever a decisão do tribunal. A Corte Suprema precisa de apenas quatro juízes para conceder petição para “certiorari”, ou rever a decisão de instância inferior, e este era um caso extremamente importante. A maioria dos especialistas concorda que ele tem sérias implicações para o sistema financeiro internacional. Ainda mais importante: a Corte de Apelações decidiu que, se a Argentina pagar os mais de 90% dos credores que aceitaram um acordo de reestruturação da dívida, entre 2005 e 2010, ela está obrigada também a pagar os fundos-abutres (1).

Boxe explicativo publicado
no jornal "Folha de São Paulo"
O que significa isso? No final de 2001, em meio a uma recessão profunda e incapaz de financiar enormes pagamentos da dívida, a Argentina entrou em moratória. Foi a decisão certa; a economia do país iniciou uma recuperação robusta, apenas três meses depois. Quatro anos mais tarde, 76% dos credores aceitaram uma reestruturação da dívida, que incluiu a redução de cerca de dois terços do valor de seus créditos. Por volta de 2010, mais de 90% dos credores havia aderido, aceitando novos títulos no lugar dos anteriores.

A decisão do tribunal norte-americano significa que um fundo-abutre, ou qualquer credor “resistente”, pode impedir ou destruir um acordo anterior, negociado com o resto dos credores. Como não existe algo como uma lei de falências para os tomadores de empréstimo do governo, a decisão pode limitar severamente a capacidade de credores e devedores chegarem a acordos civilizados, em casos de crise da dívida soberana. Esta é uma grande ameaça ao próprio funcionamento dos mercados financeiros internacionais.

Então, por que a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu não julgar o caso? Talvez porque tenha sido influenciada por uma mudança de posição do governo norte-americano, que o teria convencido de que o caso não era tão importante. Ao contrário da França, Brasil, México e do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, o governo dos EUA não entrou com um amicus curiae (2) na Suprema Corte, apesar de ter feito uma apresentação, no caso. E – aqui está o grande mistério – tampouco o fez o FMI, embora tenha manifestado publicamente preocupação com o impacto dessa decisão.

Em 17 de julho de 2013, a diretora do FMI, Christine Lagarde, anunciou que o Fundo apresentaria um amicus curiae na Suprema Corte norte-americana. Então o Conselho do FMI reuniu-se e, de forma um tanto constrangedora, decidiu em sentido contrário, devido às objeções dos EUA. Essa poderia ser a razão pela qual a Suprema Corte não convidou o procurador-geral dos EUA para uma exposição e, ao final, não reviu o caso. Mas quem seria o responsável pela reviravolta de Washington?

Como em uma novela de Agatha Christie, há numerosos suspeitos de ter cometido a ação. O lobby dos fundos-abutres – um grupo bem relacionado, liderado por ex-integrantes do govenro Clinton –, conhecido como Grupo Americano de Ação Argentina, gastou mais de 1 milhão de dólares no caso, em 2013. Além disso, há os suspeitos usuais no Congresso, principalmente os neo-conservadores e a delegação da Flórida, que querem mudar o partido político no poder na Argentina após as eleições de outubro de 2015.

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(1) Fundos-abutres (“vulture-funds”, em inglês), são fundos que investem em “papéis-podres” – ou seja, títulos que perderam quase todo seu valor, nos mercados financeiros. O fundos-abutres compram estes títulos por uma parcela insignificante de sua cotação original, esperando lucrar mais tarde, quando o devedor se recuperar e a cotação de sua dívida subir. [Nota da Tradução]

(2) Amicus Curie (“Amigos da Corte”, em latim) é intervenção feita, num processo judicial, por uma pessoa ou entidade julgada representativa e que, não sendo ligada diretamente na disputa, tem interesse em influenciar seu desfecho. [Nota da Tradução].

http://outraspalavras.net/mundo/america-latina/quem-atirou-na-argentina/