quinta-feira, 31 de julho de 2014

"Tio Patinhas, a Suécia e os nossos luxos", por Rogerio Galindo

O que chama a atenção no Brasil é certamente a mentalidade provinciana do "vou me dar bem". Não necessariamente esse "se dar bem" se vincula àquela história do "jeitinho" ou da "malandragem". Não. Nada disso. Essa alma sórdida, a que cultua o privilégio e da mordomia, é a alma pobre do jeca, do pobre de espírito que acredita que somente será considerado gente se tiver empregados lhe servindo, uma roupa bacana e crédito para comprar coisas e coisas que, dependendo do caso, deixam de ter qualquer sentido em pouco tempo, tornam-se lixo quase que instantaneamente após adquiridas. 

Erich Fromm dizia que há uma diferença fundamental entre o "ter" e o "ser" e, ao observar sua argumentação, sou levado a crer que se há um problema relacionado à subjetividade brasileira, certamente não está relacionado a malandragens de meninos de pés descalços ou de quaisquer outros pobres diabos. A cultura do "ter", em contraposição à lógica do "ser" é fundamentada por uma lógica característica de "gente bem", perfumada, de colarinho e gravata e se pode ver por duas perspectivas.

Para a alma clássica de raiz grega, é aquilo que distingue o nobre do plebeu, ou seja, aquele torce o nariz para este por conta deste cultuar a posse de objetos, enquanto aquele tem acesso aos objetos cultuados e, talvez por conta disso, descobriu que não valem tanto quanto aquilo que ele próprio pode vir a ser; dessa forma, como nas referências do texto que apresento a seguir, o culto não é por objetos, mas pela subjetividade, pelo enobrecimento da alma através de sua qualificação. O "eu" se sobrepõe ao objeto.

O jeca, bem caracterizado pelo espírito provinciano e pelo nouveau riche, é o plebeu que não conseguindo alcançar a nobreza do "ser", a encena obsessivamente através do "ter", que lhe está disponível nas prateleiras de qualquer mercado, farmácia ou casa de câmbio. Para o jeca, que se torna muito mais pernóstico quando adquire poder, seja econômico ou político, possuir coisas se afigura como o diferencial qualitativo em relação a todos os outros humanos. Ele tem, os outros são. E isso lhe parece uma vantagem sobre os demais, a única que lhe é possível.  

PS: Utilizo o termo "jeca" tentando uma aproximação com um tipo de caráter, mas não quero nem posso dizer que seja um termo adequado ou que todos os que sejam considerados "jecas" têm os defeitos gravíssimos de caráter apontados. O jeca referido aqui é exatamente aquele que, desprovido da noção de suas qualidades, acredita que estas podem ser conseguidas pela aquisição comercial de objetos com poder de qualificação. É o "homem sem qualidades", o "medíocre" ou o "Zé Ninguém", conforme Robert Musil, Jose Ingenieros ou Wilhelm Reich. 

Boa leitura. 

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Tio Patinhas, a Suécia e os nossos luxos
Rogerio W. Galindo

“Com um salário desses, nem o Tio Patinhas entraria em uma fraude para ganhar algumas notas de mil”, acusou o editorial do diário Gefle Dagblad, de Estocolmo. O texto tratava do deputado sueco Hakan Juholt, um liberal que em 2011 esteve prestes a virar primeiro-ministro. Não chegou em razão justamente da tal fraude. O escândalo surgiu quando se descobriu que Juholt vivia com a namorada em um apartamento em Estocolmo. Nada proibido, claro. Mas o deputado, segundo as regras, tinha de ter pedido reembolso de apenas metade do aluguel do Parlamento – e a namorada devia pagar a outra metade.
O caso dos apartamentos funcionais é um dos que mais chocam o leitor brasileiro. Até os anos 1990, os parlamentares de fora de Estocolmo dormiam em seus gabinetes (a não ser que quisessem alugar algo por conta)
Juholt caiu em desgraça. Um repórter perguntou a ele como aquilo podia ter ocorrido. O deputado afirmou que não sabia da regra. A próxima pergunta veio praticamente na forma de um sermão. “Você não acha lógico ter que dividir o valor do aluguel do apartamento funcional com sua companheira, uma vez que ela também mora lá?” O deputado, sem saída, capitula. “Certamente.”

A história está contada em um interessante livro da repórter Cláudia Wallin (Um país sem excelências e mordomias, da editora Geração), em que ela conta como funciona o serviço público sueco. O caso dos apartamentos funcionais é um dos que mais chocam o leitor brasileiro. Até os anos 1990, os parlamentares de fora de Estocolmo dormiam em seus gabinetes (a não ser que quisessem alugar algo por conta).

Hoje, têm direito a apartamentos funcionais de pouco mais de quarenta metros quadrados. Pouco maiores que as casas da Cohab curitibana.

Neles não há máquina de lavar ou qualquer luxo. Boa parte não tem quarto: há sofá-cama. A explicação é que eles moram em suas cidades de origem, e na capital só ficam durante a semana. Os que são de Estocolmo não ganham qualquer ajuda (só em um sistema muito estranho as pessoas receberiam auxílio-moradia para morar onde já moram, certo?) e os que vêm de fora normalmente ficam em quitinetes.

Os que não ficam em apartamentos funcionais recebem até R$ 2,6 mil de reembolso (os aluguéis em Estocolmo não são os mesmos de Capitão Leônidas Marques, e a verba dá para um apartamento modesto). No caso de Juholt, ele conseguia pagar um apartamento no subúrbio. Mas nem uma “turnê do perdão” de dois meses livrou-o de ser considerado culpado pela opinião pública. O salário de um deputado, líquido, é de R$ 21 mil – cerca de 50% acima do que ganha um professor primário. Juholt ganhava mais ou menos o dobro por ser líder de seu partido.

Cláudia Wallin também fala sobre o Judiciário. Os integrantes da Suprema Corte, por exemplo, não têm direito a secretários particulares. Cuidam de sua própria agenda. E, claro, não têm direito a auxílio-moradia. Göran Lambertz, um dos ministros, deu entrevista sobre o tema.

A pergunta era: “O que pensa sobre sistemas de países como o Brasil, em que políticos e juízes têm privilégios como gratificações extras e aviões à sua disposição?”

Publicado no jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. 

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